WorkTenho uma amiga que diz que conhece poucas profissões: médico, advogado, engenheiro… no máximo farmacêutico, vá lá. O resto, ela diz, é tudo designer. Não a culpo. Quase todo mundo hoje em dia é “designer”. E a julgar por esse texto, compartilhadíssimo ontem, eles tendem a continuar se multiplicando.

É super tentador concordar e se render ao romântico ideal de que quem faz Humanas realmente está fadado a ganhar pouco e se divertir muito. Super confortável, portanto, justificar o eventual insucesso profissional pelo fato de que o mundo é assim mesmo e, se tudo acabar em pizza, que seja com borda de catupiry. Exceto que se as coisas fossem tão simples, não haveria as Ciências Humanas pra explicá-las.

Em primeiro lugar, eu sinto muito dizer, mas você cresceu. E não importa o quão simpatizante você seja de qualquer sistema diferente do capitalismo, a não ser que você viva no mato, plantando e pescando, ele é sua realidade. Até para mudá-lo, é preciso admiti-lo. Aliás, se você fez humanas e não sabe disso, você precisa estudar mais. Pois bem, viver num sistema capitalista significa que você precisa vender sua mão de obra, seu trabalho, se quiser ter dinheiro. Mais valias à parte, você também pode ser proprietário dos meios de produção e ter seu próprio negócio.

Repare que este trabalho ou negócio pode ser de qualquer natureza: o que quer que você faça pode ser comercializado. No entanto, existem leis de oferta e demanda influenciando esta coisa chamada mercado (o de trabalho aí incluso) e sua lógica é simples: quanto maior a oferta, menor o preço. O equilíbrio se dá pelo contraponto de que o preço sobe quanto maior for a demanda.

Perdoe meu economês. É básico. Básico o bastante para ser inclusive parte dos currículos obrigatórios de Economia, Administração, Ciências Sociais, Comunicação, Serviço Social e mais um punhado de ciências (vejam só!) humanas aplicadas. Mas se você acha que isso tudo é demais para uma cabeça puramente humana, pare e pense: quantos designers você conhece? Oferta grande, certo? Logo, preço baixo. Só me restringi a essa profissão para manter a nomenclatura da minha amiga, mas preencham a lacuna como melhor lhe aprouver.

“Ah, então ser designer – ou artista plástico, ou ator, ou jornalista, ou tradutor – é uma desgraça e vai ser pobre mesmo?”. Não necessariamente. A CEO da empresa que trabalho é jornalista. Roberto Justus é publicitário. Donald Trump também. Conheço uma pedagoga que é gerente de treinamento e até um executivo de multinacional que, vocês não vão acreditar, é designer!

Work3Mas, e sempre há um mas, já escuto gente bocejando. Qual a graça de ser designer se você vai virar gerente, vai ter que ler planilhas, vai virar o seu pai, não é mesmo? Em suma, que vai ter adiantado fazer Humanas se, no fim, vai ser preciso trabalhar mais e se divertir menos, igual qualquer biológico ou exatóide racionalista? Bom, seja lá qual for a resposta, a certeza é uma só: você vai ter dinheiro.

A verdade é que o Brasil está crescendo, exatamente como você, amiguinho. E assim como você precisou de leite materno pra desenvolver mielina, de danoninho pra ter ossos fortes e de carne pra ficar “fortão”, o Brasil precisa de engenheiro pra construir pontes, estradas, cidades, pra tirar petróleo, pra criar fontes de energia sustentável. Precisa de médicos, a ponto de querer trazer de fora e de qualquer jeito, pra atender gente que morre porque bebe água em regiões onde você não chegaria nem fazendo ecoturismo. Precisa de professores, pra educar a população que vai andar por aquelas estradas e cidades que estão emergindo.

Aliás, professores merecem um parágrafo só deles: mesmo entre os de Humanas, nunca conheci algum que tivesse esse “senso de freelancer”, essa lúdica falta de foco, esse hedonismo profissional que abunda nos designers lato sensu. Professores estão lá, trabalhando muito e ganhando nada, mas estão tão obviamente construindo um país a base de pau a pique (sobra pau e falta pique), que não conheço engenheiro, executivo ou médico que lhes ponha em xeque a utilidade. Até o governo reconhece que lhes paga uma miséria (embora faça muito pouco pra mudá-lo). Raramente um deles escreverá num blog sobre as delícias de ser de Humanas, ganhar pouco e discutir Bukowski com os amigos – embora eles provavelmente entendam mais sobre literatura do que a galerinha problogger.

Mas não percamos o foco, que não quero ser acusado do que critico. Fato é que, se você quer crescer, – e ajuda o crescimento do país, cidade ou comunidade em que vive – trabalhar é preciso. E trabalhar não é divertido, não no sentido “Humano” da palavra. Trabalhar exige disciplina, horário, esforço, resistência. Trabalhar cansa. Significa assumir (e cumprir!) responsabilidades. E, mais do que tudo isso, significa ser necessário para fazer algo funcionar. Perdoe seguir o chorume, mas quão necessário você é para algo?

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Perdoe-me a indelicadeza, a indiscrição. Mas ser necessário é bem diferente de ser querido, ser amado. Isso, é claro, todo mundo quer, mas esperar que êxito profissional decorra apenas dos seus talentos inatos é tão inconsequente quanto quem espera diagramar uma revista apenas porque aprendeu a mexer no Corel ou no Indesign. Quem acha que é fotógrafo porque sabe ajustar o foco da câmera semi-profissional. Seu descolamento, seu hypeness, sua beleza e sua inteligência – ou de qualquer pessoa – jamais serão necessários. É o que você decide fazer com eles que pode – ou não – se tornar algo significativo e, por que não dizer, valioso.

Agora, antes que alguém cante a bola do “vendido para o sistema”, gostaria de lembrá-los que Damien Hirsch, Matthew Barney e Marina Abramović, para citar alguns exemplos, estão longe de ser pobretões. Na verdade, se parecem mais com empresários do que com o povo do Baixo Augusta. Eles são gente de humanas que procuraram usar toda sua “humanidade” para fazer algo tão único, tão diferente, que freelancer nenhum seria capaz de entregar. Ah sim, eles são todos grandes expoentes da arte contemporânea também e trabalham pra caramba. Terry Richardson até parece porralouquinha, mas ele administra estúdios, viagens, eventos, redes sociais, é praticamente um projeto de comunicação. Ah, e fotógrafo. Mauricio de Sousa não é um empresário: é quadrinista. Lembra?

Se você acha o mundo corporativo chato e quadrado, cadê sua humanidade toda lá dentro, pra arredondar isso? Por que essa vontade toda de mudar o mundo tem que ficar restrita a atividades sem fins lucrativos? Seu lugar de trabalho ideal não existe? Cadê você criando esse lugar, com essa criatividade toda que Deus lhe deu?  Até porque, Zuckerberg não é de humanas mas você adoraria trabalhar no Facebook, hein? Google? Sergey e Larry são exatóides do pior tipo!

Não sei se isso é coisa nossa, também, assim, brasileirinha. Acho engraçado que um país imperial como o Japão seja mais republicano do que a nossa república federativa. A falta de preocupação com o outro sempre leva a achar que dá pra empurrar a vida com a barriga. E se ela for de tanquinho, aguenta até mais peso. Um jeitinho todo brasileiro de encarar o trabalho – ou sua ausência – e levar a vida na ginga, no bole-bole, enrolando o tempo e esticando a festa. Tem gente que tem tanta raiva de trabalho que nem pronuncia a palavra e seus derivados: chama de trampo. Mas paremos antes que me acusem de endireitamento.

Então, desculpem, mas embora eu tenha estudado humanas, inclusive seguindo uns bons passos de carreira acadêmica, eu acho que não sou uma dessas pessoas aí que vocês andam falando. Até porque, não pude me dar ao luxo de ir me encontrar ou me achar nos Estados Unidos no meio da faculdade. Muito menos na Irlanda depois dela. Até fiz minhas viagens, mas com objetivos claros, às vezes profissionais, data de ida e volta e nenhuma, nenhuminha vontade de ficar por lá, porque eu tinha uma pá de coisas pra resolver aqui e escapismo, as humanas me ensinaram, soa meio pastoral, meio parnasiano.

O que eu estudei era muito sério e, embora envolvesse um monte de coisa divertida, envolvia também uma responsabilidade violenta. Até quando era arte, era sério o bastante pra ter prova. Não era papo de boteco. Às vezes, envolvia indicadores, mensurações. Sim, estudei humanas. Meu leite com pera era mais azedinho, acho. E minha amiga já se confunde em me classificar como designer. Se você não me acha “gente de humanas” ou se pareço “coxinha” ou “empresário” com esse palavrório, peço desculpas. Mas não se preocupe, nem se incomode. Para mim, é um prazer ser a prática da tua teoria.

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