Eu não sou gente de humanas

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WorkTenho uma amiga que diz que conhece poucas profissões: médico, advogado, engenheiro… no máximo farmacêutico, vá lá. O resto, ela diz, é tudo designer. Não a culpo. Quase todo mundo hoje em dia é “designer”. E a julgar por esse texto, compartilhadíssimo ontem, eles tendem a continuar se multiplicando.

É super tentador concordar e se render ao romântico ideal de que quem faz Humanas realmente está fadado a ganhar pouco e se divertir muito. Super confortável, portanto, justificar o eventual insucesso profissional pelo fato de que o mundo é assim mesmo e, se tudo acabar em pizza, que seja com borda de catupiry. Exceto que se as coisas fossem tão simples, não haveria as Ciências Humanas pra explicá-las.

Em primeiro lugar, eu sinto muito dizer, mas você cresceu. E não importa o quão simpatizante você seja de qualquer sistema diferente do capitalismo, a não ser que você viva no mato, plantando e pescando, ele é sua realidade. Até para mudá-lo, é preciso admiti-lo. Aliás, se você fez humanas e não sabe disso, você precisa estudar mais. Pois bem, viver num sistema capitalista significa que você precisa vender sua mão de obra, seu trabalho, se quiser ter dinheiro. Mais valias à parte, você também pode ser proprietário dos meios de produção e ter seu próprio negócio.

Repare que este trabalho ou negócio pode ser de qualquer natureza: o que quer que você faça pode ser comercializado. No entanto, existem leis de oferta e demanda influenciando esta coisa chamada mercado (o de trabalho aí incluso) e sua lógica é simples: quanto maior a oferta, menor o preço. O equilíbrio se dá pelo contraponto de que o preço sobe quanto maior for a demanda.

Perdoe meu economês. É básico. Básico o bastante para ser inclusive parte dos currículos obrigatórios de Economia, Administração, Ciências Sociais, Comunicação, Serviço Social e mais um punhado de ciências (vejam só!) humanas aplicadas. Mas se você acha que isso tudo é demais para uma cabeça puramente humana, pare e pense: quantos designers você conhece? Oferta grande, certo? Logo, preço baixo. Só me restringi a essa profissão para manter a nomenclatura da minha amiga, mas preencham a lacuna como melhor lhe aprouver.

“Ah, então ser designer – ou artista plástico, ou ator, ou jornalista, ou tradutor – é uma desgraça e vai ser pobre mesmo?”. Não necessariamente. A CEO da empresa que trabalho é jornalista. Roberto Justus é publicitário. Donald Trump também. Conheço uma pedagoga que é gerente de treinamento e até um executivo de multinacional que, vocês não vão acreditar, é designer!

Work3Mas, e sempre há um mas, já escuto gente bocejando. Qual a graça de ser designer se você vai virar gerente, vai ter que ler planilhas, vai virar o seu pai, não é mesmo? Em suma, que vai ter adiantado fazer Humanas se, no fim, vai ser preciso trabalhar mais e se divertir menos, igual qualquer biológico ou exatóide racionalista? Bom, seja lá qual for a resposta, a certeza é uma só: você vai ter dinheiro.

A verdade é que o Brasil está crescendo, exatamente como você, amiguinho. E assim como você precisou de leite materno pra desenvolver mielina, de danoninho pra ter ossos fortes e de carne pra ficar “fortão”, o Brasil precisa de engenheiro pra construir pontes, estradas, cidades, pra tirar petróleo, pra criar fontes de energia sustentável. Precisa de médicos, a ponto de querer trazer de fora e de qualquer jeito, pra atender gente que morre porque bebe água em regiões onde você não chegaria nem fazendo ecoturismo. Precisa de professores, pra educar a população que vai andar por aquelas estradas e cidades que estão emergindo.

Aliás, professores merecem um parágrafo só deles: mesmo entre os de Humanas, nunca conheci algum que tivesse esse “senso de freelancer”, essa lúdica falta de foco, esse hedonismo profissional que abunda nos designers lato sensu. Professores estão lá, trabalhando muito e ganhando nada, mas estão tão obviamente construindo um país a base de pau a pique (sobra pau e falta pique), que não conheço engenheiro, executivo ou médico que lhes ponha em xeque a utilidade. Até o governo reconhece que lhes paga uma miséria (embora faça muito pouco pra mudá-lo). Raramente um deles escreverá num blog sobre as delícias de ser de Humanas, ganhar pouco e discutir Bukowski com os amigos – embora eles provavelmente entendam mais sobre literatura do que a galerinha problogger.

Mas não percamos o foco, que não quero ser acusado do que critico. Fato é que, se você quer crescer, – e ajuda o crescimento do país, cidade ou comunidade em que vive – trabalhar é preciso. E trabalhar não é divertido, não no sentido “Humano” da palavra. Trabalhar exige disciplina, horário, esforço, resistência. Trabalhar cansa. Significa assumir (e cumprir!) responsabilidades. E, mais do que tudo isso, significa ser necessário para fazer algo funcionar. Perdoe seguir o chorume, mas quão necessário você é para algo?

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Perdoe-me a indelicadeza, a indiscrição. Mas ser necessário é bem diferente de ser querido, ser amado. Isso, é claro, todo mundo quer, mas esperar que êxito profissional decorra apenas dos seus talentos inatos é tão inconsequente quanto quem espera diagramar uma revista apenas porque aprendeu a mexer no Corel ou no Indesign. Quem acha que é fotógrafo porque sabe ajustar o foco da câmera semi-profissional. Seu descolamento, seu hypeness, sua beleza e sua inteligência – ou de qualquer pessoa – jamais serão necessários. É o que você decide fazer com eles que pode – ou não – se tornar algo significativo e, por que não dizer, valioso.

Agora, antes que alguém cante a bola do “vendido para o sistema”, gostaria de lembrá-los que Damien Hirsch, Matthew Barney e Marina Abramović, para citar alguns exemplos, estão longe de ser pobretões. Na verdade, se parecem mais com empresários do que com o povo do Baixo Augusta. Eles são gente de humanas que procuraram usar toda sua “humanidade” para fazer algo tão único, tão diferente, que freelancer nenhum seria capaz de entregar. Ah sim, eles são todos grandes expoentes da arte contemporânea também e trabalham pra caramba. Terry Richardson até parece porralouquinha, mas ele administra estúdios, viagens, eventos, redes sociais, é praticamente um projeto de comunicação. Ah, e fotógrafo. Mauricio de Sousa não é um empresário: é quadrinista. Lembra?

Se você acha o mundo corporativo chato e quadrado, cadê sua humanidade toda lá dentro, pra arredondar isso? Por que essa vontade toda de mudar o mundo tem que ficar restrita a atividades sem fins lucrativos? Seu lugar de trabalho ideal não existe? Cadê você criando esse lugar, com essa criatividade toda que Deus lhe deu?  Até porque, Zuckerberg não é de humanas mas você adoraria trabalhar no Facebook, hein? Google? Sergey e Larry são exatóides do pior tipo!

Não sei se isso é coisa nossa, também, assim, brasileirinha. Acho engraçado que um país imperial como o Japão seja mais republicano do que a nossa república federativa. A falta de preocupação com o outro sempre leva a achar que dá pra empurrar a vida com a barriga. E se ela for de tanquinho, aguenta até mais peso. Um jeitinho todo brasileiro de encarar o trabalho – ou sua ausência – e levar a vida na ginga, no bole-bole, enrolando o tempo e esticando a festa. Tem gente que tem tanta raiva de trabalho que nem pronuncia a palavra e seus derivados: chama de trampo. Mas paremos antes que me acusem de endireitamento.

Então, desculpem, mas embora eu tenha estudado humanas, inclusive seguindo uns bons passos de carreira acadêmica, eu acho que não sou uma dessas pessoas aí que vocês andam falando. Até porque, não pude me dar ao luxo de ir me encontrar ou me achar nos Estados Unidos no meio da faculdade. Muito menos na Irlanda depois dela. Até fiz minhas viagens, mas com objetivos claros, às vezes profissionais, data de ida e volta e nenhuma, nenhuminha vontade de ficar por lá, porque eu tinha uma pá de coisas pra resolver aqui e escapismo, as humanas me ensinaram, soa meio pastoral, meio parnasiano.

O que eu estudei era muito sério e, embora envolvesse um monte de coisa divertida, envolvia também uma responsabilidade violenta. Até quando era arte, era sério o bastante pra ter prova. Não era papo de boteco. Às vezes, envolvia indicadores, mensurações. Sim, estudei humanas. Meu leite com pera era mais azedinho, acho. E minha amiga já se confunde em me classificar como designer. Se você não me acha “gente de humanas” ou se pareço “coxinha” ou “empresário” com esse palavrório, peço desculpas. Mas não se preocupe, nem se incomode. Para mim, é um prazer ser a prática da tua teoria.

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O que aprendi com a Mostra

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Daí que eu resolvi tirar férias pra ir à 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E eu moro em São Paulo. “Mas você não vai viajar nas férias?”, perguntaram-me diversos pares de olhos arregalados. Não, eu não viajei, não no sentido estrito. Eu mergulhei numa maratona que terminou anteontem e que só agora me permitiu renovar as energias pra vir aqui escrever.

Eu não me arrependi da ideia das férias, já adianto. Mesmo estando mais cansado do que antes de tirá-las. Mesmo descobrindo que as pessoas de gosto semelhante ao meu não se parecem em nada comigo. E inclusive sabendo que consegui ver menos filmes do que eu planejava – era isso ou estafa.

Mas, para a próxima vez que eu for fazer isso, – porque sim, esse gato se escaldou em água fria e continua corajoso – vou prevenido, com umas liçõezinhas que eu aprendi. Tomei a liberdade de dividí-las com vocês…

1 ) Velhinhos fazem mais barulho que Transformers – Não, não me olhem com essa cara de horror. A maioria dos idosos no evento não tem nada a ver com o velhinho sábio, talvez rabugento, de alguma forma debilitado e com uma ternura nos olhos. Não é o velhinho a quem você gostaria de ceder o assento no metrô. Não. São umas pessoas que entram berrando na sessão, pra que todo mundo ouça a voz da sabedoria bradar o filme que, pra elas, foi o melhor da Mostra (isso no primeiro dia).  Pessoas que cumprimentam e puxam papo com qualquer um que se sente perto (ou nem tão perto, porque o lance parece ser gritar), dizendo: “Dei entrevista no Jô ontem.” Gente que avisa pra sala inteira que é bróder do Cakoff. Que briga com a bilheteria porque tem certeza que o filme a ser exibido é tal e não o que o bilheteiro diz. “Esses filmes de hoje não são lá muito bons, não! Imagina, eu cresci vendo De Sica, Fellini!”, gritava um deles. Pois é, e se nem assim você aprendeu a ter um mínimo de educação e humildade, tio, vai ver Michael Bay que é barulhento que nem o senhor…

2) A crítica está crítica – Nunca fui muito com a cara da “crítica” de cinema no Brasil. Entre aspas porque, de cara, já discordo do que o nome sugere. Minha visão: a função do crítico é educar o público para que ele, munido das referências e argumentos mínimos, possa formular suas próprias impressões e, consequentemente, seu gosto ou desgosto sobre um determinado filme. Mas a minha visão é míope e estrábica (sério!), então ignorem. Crítico que é crítico, no Brasil, em primeiro lugar, faz questão de dizê-lo. Não é uma questão de amar o cinema e curtir seus momentos com essa arte. É uma questão de contar nos dedos, no Facebook, no Twitter, em Molekines e onde mais for possível, o número de filmes vistos, competindo sempre para que ele seja maior que o dos colegas. É se enfiar no cinema até o último minuto, mesmo sem se aguentar de pé, e contar pra geral que você tá lá, firme e forte  (“olha, um repórter!”). É ver um filme que você achou um saco, mas, sabendo que a maioria também deve ter achado, já adiantar que se trata de uma “puta obra” (porque crítico que é crítico é descolado e fala “puta obra”) e desandar a pinçar as indiscutíveis qualidades artísticas do filme, até pra ver se elas superam a chatice óbvia do mesmo.

Enfim, ser crítico é ser alguém que, ao tratar a Mostra como se fosse o Pan, está mais preocupado com o quadro de medalhas do que com a diversão de praticar o esporte que ama e incentivar quem nunca competiu a dar seus primeiros passos. E, de novo, me surpreende que alguém que veja tantos filmes (e tão bons!) não aprenda com eles o mínimo necessário para ser uma pessoa melhor que, sei lá, o Galvão Bueno…

3) O cinema pode até ser arte. Mas ninguém quer saber de tratá-lo assim – Você já viu um crítico de arte dando nota pra um quadro? Um connoisseur usando palavras como “besteira” ou “babaca” para falar de uma bienal ou, menos ainda, de um romance? Até houve uns críticos aí que meteram o pau num tal de Monet e sua patota, chamando sua arte, na época tão descabida, pelo nome de “impressionismo” (era pra ser pejorativo). O mesmo vale pro cubismo, pro fauvismo, etc… Acontece que, daí pra frente, a crítica de arte aprendeu a ser mais comedida, a procurar entender melhor a arte que criticava, até pra não falar besteira. Ou não.

Até porque, andei observando: são raros, quase nulos, os críticos de cinema que põe sua arte para conversar com as outras. Dão-lhe o nome cafona de “sétima arte”, mas cagam solenemente pras outras seis. Pra que relacionar o cinema com pintura, escultura, teatro, literatura? Bobeira, vamos falar do que a gente entende e trabalhar para que continuemos sendo os únicos a entender, para garantir o ganha-pão. Não tá fácil pra ninguém.

Cena de “Desapego”, de Tony Kaye

Que o cinema é arte, é consenso, ninguém parece ter dúvida e todo mundo adora dizer. Mas então, amiguinhos, vamos brincar de tratá-lo como tal? Quando fui assistir “Desapego”, filme do Tony Kaye, numa sessão dessas de manhã, onde a maioria do público eram críticos e estudantes de cinema, fiquei até com um pouco de vergonha de ter adorado o filme. Para mim, eu tinha acabado de ver um longa muito bom, que reunia algumas das características que considero mais interessantes numa obra daquele tipo. Se fosse escrever um texto sobre ele, dissecaria estruturalmente essas características e deixaria para você, que resolvesse ler, decidir se o filme era bom, ruim ou qualquer coisa. Mas os meus colegas de sessão, munidos de anos de experiência e muitas horas em salas de projeção já começaram a esbravejar ali mesmo que era uma “porcaria”. Pensei comigo:”entendo bosta de cinema, mesmo”… Não é que o dito cujo foi um dos premiados pelo público? Devo lá ter meus palpites…

É aí que a galera da sessão da manhã dá aquele sorrisinho esperto, quase irônico. Aquele que diz pra gente que eles, possuidores que são de tão raro e intenso conhecimento, tem mais capacidade de julgar do que essa massa disforme, o público. Eles, muito mais uniformes, repetem a premiação de um outro festival maior: e o prêmio da crítica vai pra um filme que deixaria a maior parte do público entediada e pronto, acabou. Jurado de miss e “crítico de cinema”: você nunca vai entender a cabeça deles. Concurso de miss é arte, aliás?

O dilema aqui parece bem simples: educar o público o tornaria capaz de formar opinião tanto quanto os críticos. Mas poder é gostosinho e ninguém quer abrir mão dele. Então deixa eu ir ali ser formador de opinião e chamar um trabalho que eu nunca fiz de “besteira”. Volto já…

4) Tá faltando pipoca na vida da galera – Cinéfilos do meu coração: se tem uma guria mexendo num tablet duas fileiras a frente, sem fazer barulho, não há porque você berrar pra ela desligar no meio da sessão. A não ser que você esteja prestando mais atenção nela do que no filme. Nesse caso, você é ainda mais idiota do que o grito sugeriu. Assim como toda arte, cinema também é diversão. E se você não concorda, certeza que o problema é falta de pipoca…

Obra de Cristopher Wool

Então é isso. Mostra que vem, talvez eu esteja lá de novo. Mas já vou preparado, com fones de ouvido pra ignorar a falação, com livros pra ocupar o tempo e programações alternativas para me lembrar que, apesar de gostar da mesma coisa que a maioria das pessoas que estão lá, sou muito, muito diferente delas. Tanto que, te digo, não fiz um amigo sequer durante toda a Mostra. E olha, ainda bem…

Ressuscitou

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Acontece que eu resolvi ressuscitar/revirar isso aqui. Vai ser igual antes, só que diferente. Porque vai ser mais verborrágico e menos “comercial”. Ou não. Já volto pra escrever algo que preste…

A náusea

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Neste exato momento, uma praga se espalha pelo mundo.  Relatos falam de um vírus altamente transmissível, que entra no corpo pelo canal auditivo, nervo óptico e, em alguns casos, até pelo sistema digestório. Em pouco tempo ele transforma o cérebro na mais pura tapioca e a pessoa é acometida por fortíssima diarreia verbal e hábitos apenas suportáveis por aqueles que compartilham da doença. Não há cura conhecida, embora tratamentos a base de roleta russa tenham se mostrado bastante eficazes.

Tão logo a pessoa é infectada, o paladar começa a se deformar, desenvolvendo forte predileção por comida japonesa, indiana e outras pretensões. Estágios mais avançados já apresentam sintomas de vegetarianismo e, em casos extremos, veganismo. A audição também é afetada e parece apenas ouvir aquilo que seja repetido à exaustão, seja nos meios de comunicação, seja por pessoas a sua volta. Aliás, os danos ao sistemas cognitivo parecem bloquear a percepção de tudo que seja novo ou diferente: apenas o repetitivo passa a ser detectado e tido como verdade. Essa repetição leva, finalmente, ao principal sintoma, através do qual o vírus se reproduz: a diarreia verbal, ou verborreia.

A verborreia começa quando tudo o que vinha sendo repetido e armazenado no cérebro do enfermo é regurgitado aos borbotões, podendo ir do simples uso de uma manchete da Veja para um argumento anti-governista até a confecção de manifestos, sites e movimentos que pregam a mediocridade. Porque, uma vez com a cabeça cheia de tapioca, a pessoa não se torna ruim, nem boa: ela se torna medíocre.  E aí se perde pra sempre.

Aquilo que é muito ruim, fomenta  mudanças – pra pior, às vezes pra melhor. Aquilo que é muito bom, também. Mas o eterno idiota vive da mediocridade: essa praga mortal que condena as pessoas a serem sempre iguais.

Para sempre elas vão reclamar do Big Brother, ainda que tenham Twitter, Orkut e Facebook, inclusive de personagens que elas criam. Para sempre elas vão falar que Lady Gaga copia Madonna, e que a cantora que vai surgir daqui 2 anos copia Lady Gaga, como se isso fosse muito importante. E ainda vão ouvir todas elas, enquanto se requebram de forma semi-convulsiva. Essas pessoas, coitadas, gritarão que não suportam axé e sertanejo, mas curtirão “de boa” um show do Luan Santana na festa do peão de Nsa. Sra. da Piraporinha, com a desculpa de que “é o que tem pra hoje”. Para elas, que se acham tão espertas, sempre vale a pena tentar usar o caixa eletrônico vago – sendo que há uma fila de 500 pessoas esperando pra usar os outros.  Esse povo, coitado, doente de mediocridade, tem mais é que se foder mesmo. Morro de dó… mas nem ligo.

Pra me proteger, eu tenho usado o único antídoto disponível hoje no mercado: fazer o que dá na telha. Ainda que isso signifique ouvir funk e ver BBB. Porque nos intervalos eu leio James Joyce e estudo semiótica e, olha, vou te contar que uma coisa tem um tanto assim a ver com a outra. Ou vai ver eu peguei mediocridade e não consigo ver o quão ridículo eu estou sendo… Pode ser, pode ser.

Goiaba

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É que o menino que mora comigo comprou umas goiabas que estão passando gosto em tudo na geladeira. Manteiga, iogurte, até coca cola agora tem gosto de goiaba. Achei que o meu leite tivesse azedado, mas aí lembrei que ele era de ontem e o que azedou foi a minha cara. Olhei pro embrulhinho de goiabas como quem olha pra um monte de cocô.

Mas o que me intriga é imaginar que em algum momento passou na cabeça dele que ele precisava comprar goiabas, sabe? Em quatro anos de faculdade e dois de mestrado, eu nunca precisei de goiaba, nunca tive esse desejo. Era muita semiótica pra pensar, nem lembrava que goiaba existia. O que, então, leva um estudante de engenharia a pensar que precisa comprar goiaba no supermercado entre uma equação e outra? Isso é coisa de filho de mãe judia, sim senhor. Porque só em casa com mãe judia e governanta é que as pessoas ficam felizes porque comem goiaba no café da manhã. Ou porque alguém faz doce de goiaba, com queijo ainda por cima (ou por baixo). No mais, come-se goiaba de vez em quando, e olhe lá. Na mesa de frutas do reveillón ou em passeio no sítio, está de bom tamanho.

Eu mesmo, quando comprava fruta, comprava banana e maçã, porque era óbvio bater com leite. Ou umas laranjas. Minha extravagância hortifrutigranjeira foi num verão em que, pra desaforar o calor, comprei uma melancia. E foi a única vez. Agora, goiaba? Não, isso nunca me passou pela cabeça. A pessoa precisa ser muito goiaba pra pensar nisso.

E o pior é que, naturalmente, essas goiabas foram escolhidas. Você sabe escolher goiaba? Eu não. Na árvore é fácil: se estiver bichada, não presta. Mas no supermercado isso funciona como? Toda uma ciência de entender se a fruta está madura o bastante pra empestear a geladeira. Devem ensinar isso na faculdade de engenharia. Ou na casa da mãe Joana que, pode anotar, é judia.

Quando eu for morar sozinho, não vai ter goiaba na minha casa.

Roupa nova

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Gostaram? O O&A já está começando as mudanças pra entrar bem lindão no seu segundo ano de existência. O header foi presente da sempre fofa Lets, leitora e amiga.

A inspiração dela? O Rio Paraibuna (que corta Juiz de Fora), o livro “Friends with you”, de um coletivo de artistas da Califórnia, e Toy Art. Por que o Juiz de Fora? Porque a Lets disse que assim eu mantenho minhas “origens” ainda que eu vá embora. Achei digno. E o resto é pra dar pinta mesmo. A cara do O&A, não acham? Valeu, Lets!:D

E podem ir esperando que é só a primeira de um monte de mudanças que vem por aí…

O verde e o Dourado

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O que o cinema pode ensinar sobre o BBB? Se o exemplo for Invictus (2009), filme de Clint Eastwood que concorre a 2 Oscars esta noite, a resposta é: muita coisa. A começar por quem diz que BBB é “só um jogo”, “novela”, enfim, que “não tem importância”. Como uma das canções tema de Invictus lembra já no primeiro verso: “And it´s not just a game,/you can´t throw me away” (“E não é apenas um jogo/você não pode me jogar fora”). E Nelson Mandela, personagem real construído espetacularmente por Morgan Freeman, sabia bem que “brincadeira”, desde sempre, é coisa muito séria. Criticado até mesmo por sua própria equipe de governo, o presidente dedicou atenção e esforços a um evento que estava longe de ser político: a copa do mundo de Rugby. O que a princípio parecia absurdo, levou o país ao campeonato mundial em 1995. Mais do que isso: foi um passo importante na reunião de um país violentamente separado pelo apartheid.

Por que se preocupar com um esporte num país desestruturado, com problemas socio-econômicos graves e de democracia recente? A resposta é simples: porque Mandela sabia que somente através do lúdico conseguiria mudar hábitos que nem a guerra civil fora capaz de mudar. E tá aí o BBB mostrando a mesma coisa. Difícil encontrar quem discuta política com a mesma paixão que discute Big Brother. Duvido que o Twitter fervilhe em campanhas para este ou aquele candidato durante as eleições. Mas basta um paredão para a plataforma se infestar de mensagens defendendo ou atacando o participante protagonista desta edição: Marcelo Dourado. E dá-lhe 80 milhões de votos. 80 mihões é suficiente pra decidir uma eleição, um presidente. E voltamos a Invictus pra lembrar da cena em que o repórter diz a François Pienaar (Matt Damon), capitão da seleção sul africana de rugby, que ele não teria ganho o jogo sem o apoio dos milhares de torcedores no estádio. A que o jogador responde: “Não fui apoiado por milhares. Fui apoiado por 63 milhões” (a população da África do Sul na época). Nem o próprio Mandela contava com tal unanimidade. And it´s not just a game. Nem na África do Sul, nem no BBB.

Mandela cumprimenta Pienaar: o jogo mudando realidades

Mas Invictus ainda traz uma segunda lição, talvez ainda maior: a da tolerância mútua. Em tempo: eu não gosto do Dourado. E sinceramente me preocupava que uma pessoa claramente homofóbica, machista e violenta representasse o preferido daqueles milhões de pessoas mobilizadas pela paixão do jogo. Mais do que isso: me preocupava que esses valores fossem premiados com 1 milhão e meio de reais. Até assistir Invictus. Me lembrei imediatamente de quando, durante um paredão, um guri que eu sigo no Twitter comentou algo que achei engraçado sobre o lutador e eu lhe mandei um elogio. O ódio era tanto e tão cego, que ele me respondeu com raiva, como se eu tivesse defendido Dourado. Desde então ficou claro pra mim que querer a cabeça do Dourado a prêmio era tão errado, em termos de direitos humanos, quanto exaltar os valores que ele representa.

Corta de volta pra África do Sul. Mandela recebe em seu gabinete a visita da filha, que está com cara de poucos amigos. A moça está nervosa por ver o pai apertando a mão de um branco na primeira página de um jornal. “O que você acha?”, ele pergunta. “Acho que ele se parece com as pessoas que nos tiraram de nossas casas, nos espancaram e nos prenderam há tempos atrás”, ela responde. É quando Mandela diz que ela está preocupada com sentimentos pessoais. E ele está preocupado com o que é bom para a nação, para a democracia.

Com o que o público do BBB está preocupado? A resposta dessa pergunta me fez ficar quietinho sobre o assunto até agora. Democracia e direitos humanos não parecem estar no topo da lista e, no fim das contas, dar mais projeção a um programa cujo único compromisso é com os patrocinadores não ia ajudar muito. Mas aí apareceu o Mandela. E eu notei que as tribos do BBB não funcionavam aqui fora, paradoxalmente, por causa do Dourado. Salvo os cegos de paixão ou de ódio, os belos, os coloridos, os sarados, os barrigudos, os esquisitos, as mulheres e os homens, sabe-se lá porque (e pouco importa) estão lá, unidos, gastando o dedo pra fazer o Dourado continuar no programa. Não foi assim com o Jean Wyllis, quando os homossexuais dispararam uma cruzada contra a homofobia que culminou na vitória do professor SOBRE os homofóbicos. Não foi assim com Cida, que foi uma vitória do pobre SOBRE os ricos. Mas dessa vez, pela primeira vez, parece que é uma vitória coletiva. Democrática, com os eventuais dissabores que a democracia tem, amargos como as sucessivas derrotas que a seleção sul africana vinha sofrendo, mas sem as quais jamais conheceriam a vitória. Não é uma vitória SOBRE alguém (a não ser sobre quem está cego de ódio de ou de paixão), é uma vitória absoluta, por incrível que pareça, da diversidade. E é por isso que os gays unidos não conseguem eliminar o Dourado. Nem as feministas. Nem nenhuma minoria. Porque a maioria – minorias inclusas – resolveu que ele merece ganhar. E isso é o que o Dourado nos ensina, positivamente, sobre a democracia.

Dourado cumprimenta Serginho: o jogo da realidade

De volta à África do Sul, vemos Mandela interromper uam reunião do conselho esportivo daquele país. Os negros, agora no poder, querem mudar o nome da equipe de rugby (“Springboks”), bem como as cores do time, ironicamente o verde e, veja lá, o dourado (cores associadas ao regime do apartheid). É quando surge o presidente para, surpreendendo a todos, impedir a mudança. O motivo? “Conhecer o inimigo”, como Mandela explica. Não é declarando uma guerra de vingança que se constrói uma nação, muito menos uma nação democrática. E uma ditadura rosa, convenhamos, seria tão tola quanto qualquer outra. A fala final do presidente sul africano nesse discurso cai como uma luva ao BBB: “Precisamos urgentemente de tijolos para construir uma democracia plena. E devemos usar cada um deles, não desperdiçando um só, sequer. Mesmo que estes tijolos venham embrulhados em verde e dourado“.

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