A direita, a esquerda e o umbigo

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Existe uma polarização, um muro que não caiu em Berlim, quando se “mexe” com política no Brasil. Esse assunto, aliás, não se discute por aqui. É algo pra ser cutucado, contornado, algo com que “se mexe”. Mas, já que o Facebook nos força a ver todo laico dia uma louvável, embora parva, tentativa de debate,  aproveitemos a oportunidade para entender o posicionamento de cada um. Até pra não ficar em posição comprometedora.

Eu sei, eu sei, direita e esquerda são conceitos aparentemente ultrapassados, extremos pretos e brancos numa paleta que tem mais de cinquenta tons de cinza. São dois lados de uma guerra que esfriou, eu sei. Mas a culpa não é minha: se todo mundo insiste em se organizar assim, do sistema político à cor da roupa, dos hábitos de consumo à legenda do partido, então temos que partir desta pedra de toque para, se for o caso, praticarmos a teoria pós-moderna que alguém eventualmente queira apontar contra a minha cabeça.

Então estamos polarizados entre direita e esquerda que são, pura e simplesmente, formas de governo. De governo. Não são formas de cultura, nem de sociedade. Não são modos de vida, não determinam como alguém deve arrumar o cabelo nem o que pode comprar. Se elas viraram isso tudo é o primeiro sinal de que, coitadas, estão transviadas.  Ou assim me parecem. Posicionamento político é um entre os milhares de fatores que compõem a vida social. A preponderância absoluta de qualquer desses fatores (seja política, religião, raça ou pro

fissão, por exemplo), acaba em tragédia, não tem jeito.

A questão

Mas persistem a direita e a esquerda. E, grosso modo, elas podem ser definidas assim:

  • Direita – Entende que os indivíduos e suas instituições, guardadas as proporções, devem ser maiores que o Estado.
  • Esquerda – Entende que o Estado deve ser, guardadas as proporções, maior que os indivíduos e suas instituições.

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Nenhuma das duas coisas tem a ver com Estados Unidos ou com Rússia, com ditadura ou com democracia. Tem a ver apenas com pontos de vista políticos. Política, do grego, pólis (cidade), é, em sua definição mais clássica, aquilo que trata da organização da vida em sociedade. Portanto, tem a ver com Estados, instituições, governos. Assim como tem a ver com casas, famílias e indivíduos.  As duas coisas são meio que interdependentes, como você bem deve saber. Quem discordar, perde automaticamente a razão ao manifestar amor, ódio, contrariedade ou apoio a qualquer coisa relacionada a política.

Pois bem. Ao escolher se posicionar em um dos dois polos acima, você também escolhe a consequência deste posicionamento, que tem, como tudo no mundo, prós e contras. Comecemos pelos prós.

À direita, idealmente, você contaria com um Estado “mínimo”, ou seja, menos gente cuidando de leis e da sua vida – e a vida dos outros.  Também haveria menos impostos, porque impostos servem para sustentar os mecanismos do Estado, que, nesse caso, recrudesceria ao mínimo necessário. Outro ponto positivo seria contar com menos burocracia, que é um mecanismo de controle estatal, tornando mais simples que indivíduos empreendam.

À esquerda, idealmente, o Estado toma conta de seus cidadãos. Portanto, você precisaria se preocupar menos com o seu futuro e o dos seus, já que haveria mecanismos e programas que garantiriam condições mínimas para todos.  Serviços básicos como saúde, educação e transportes seriam subsidiados pelo Estado e estariam ao alcance de todos.

O problema

Politica4Até aqui, parece claro, não há nada que torne pessoas à direita ou à esquerda diferentes. São apenas maneiras diversas de assegurar a mesma coisa: prosperidade para um povo. Mas pontos positivos não fazem desaparecer os negativos. E contrapontos devem ser considerados.

Na direita, idealmente, não há garantias do Estado para indivíduos.  O resultado mais comum é a geração de uma parcela da população mais favorecida e uma menos favorecida. Condição que, se levada ao extremo, pode gerar desigualdades sociais intensas. Outro ponto é que, mais sujeito a interesses individuais, o mercado se desregule e torne a economia instável e susceptível a grandes crises, o que só aumentaria a desigualdade social.

Na esquerda, idealmente, paga-se uma carga tributária muito alta, desapoderando o indivíduo.  Poupar também se torna mais oneroso, já que a economia se apoia principalmente em forças internas. O resultado é uma dificuldade de ascensão social que, em casos de desigualdade extrema, pode ser um ciclo de perpetuação da pobreza. O controle e a indexação da economia pelo Estado só agrava este quadro, cristalizando a desigualdade social.

Agora há menos diferenças ainda  entre as pessoas de um lado e do outro. O problema delas é, basicamente, o mesmo: escassez. Ou, para falar claro, pobreza. Não importa o caminho percorrido, o produto final vai ser gente pobre. E de pobre, ninguém gosta. Os da direita não querem que eles existam. Os da esquerda querem torná-los “menos pobres”, incluí-los, enfim, acabar com a existência deles.

E, se foi por caminhos diversos que ambos chegaram a pobreza, é por caminhos diversos que ambos pretendem sair.

O espelho

Politica3Vamos brincar de espelho e seguir ao contrário, apenas para que fique claro que a pobreza revira não apenas os nossos estômagos, mas também o texto. Se até ela viemos com a direita na frente, por uma questão alfabética, dela em diante seguimos com a esquerda primeiro, pra ver se equilibra.

Quem está à esquerda, como é fácil imaginar, tem que contar com o Estado para combater a pobreza. Programas de combate à fome, de aceleração do crescimento, pacotes de fomento à economia e ao empreendedorismo. É de TODOS  a responsabilidade pela pobreza. Idealmente, o esquerdista aceita pagar mais (impostos) para que resolvam por ele os problemas da polis. Resumo da ópera: O indivíduo de esquerda emprega dinheiro para ver o problema resolvido.

Finalmente, quem está à direita, vai ter que contar com os indivíduos e suas instituições para erradicar a pobreza. Não vai ter Estado para resolver. Organizações não-governamentais são, strictu sensu , de direita, pois significa que a sociedade civil (e não o Estado) está se mobilizando para resolver um problema.  É de TODOS a responsabilidade pela riqueza. Idealmente, o direitista entende que precisa trabalhar para resolver os problemas das polis. Resumo da ópera: O indivíduo de direita emprega trabalho pra ver o problema resolvido.

Embananou: o que era individualista agora parece coletivista e vice-versa, certo? Basta uma adversidade para torcer conceitos…

A solução

PoliticaFoi preciso fazer toda essa viagem para que, chegado a esse ponto, o raciocínio fique bastante claro: quem atribui características “altruístas” ou “egoístas” a posicionamentos políticos, quem lhes dá cores “boas” ou “más” não são suas premissas  e filosofias, mas seus usos culturais.

Incomoda pensar nisso mas, no que tange a resolução de problemas a partir da perspectiva do indivíduo, filosofias de esquerda são radicalmente mais individualistas que as de direita. Enquanto as de direita, por outro lado, sob a mesma perspectiva, pressupõe uma dependência forçada entre indivíduos da mesma sociedade.

E não é difícil achar um exemplo: basta pensar no quanto a sociedade norte-americana (um dos maiores exemplos de sociedade de direita do mundo atual) se mobiliza em eventos de caridade. E no quanto a sociedade chinesa (se não o maior, o mais emblemático exemplo de sociedade de esquerda contemporânea) não.  Reducionista, mas preciso. Eventos filantrópicos são perfeitamente adequados à “Ética protestante e o espírito do capitalismo”. Políticas de bem estar social se encaixam com facilidade a “O capital”.

Pensar nisso é importante para, por exemplo, decidir em quem votar ou o que compartilhar no Facebook. Talvez uma boa forma de decidir se você é de direita ou de esquerda seja pensar: como você deseja resolver problemas como a pobreza? Com seu trabalho ou com seu dinheiro?

O umbigo

Politica1Se a resposta para a pergunta acima foi “nenhum dos dois”, você talvez não seja nem de direita, nem de esquerda. Pode ser que seja pós-moderno. Ou que esteja entre os dois.

A verdade é que, embora nos polarizemos em entre direita e esquerda em debates, nada do que existe hoje, especialmente no Brasil, se encaixa em nenhuma das duas coisas. Temos governos que financiam ongs. Precisa dizer mais?

O problema é que a esquizofrenia política, quando deságua na esfera cultural, produz preconceitos e ideias irritantes e ignorantes, que se multiplicam com facilidade muito maior do que o esclarecimento. Nesta cepa estão as ideias de que, por exemplo, esquerda é sinônimo de regimes totalitários, de gente barbuda e suja, de cultura libertária, de baderna e de revolução. Ou, por outro lado, de que direita é sinônimo de regimes ditatoriais, de gente coxinha, de conservadorismo cultural, de repressão e de golpe.

Na verdade, isso tudo é produto de um imaginário produzido por gente que construiu a nossa política – e a de um bando de países – e que, de política, no sentido apontado lá em cima, tem muito pouco. Gente que caga pra polis. Quando você pensa em Collor, acha que ele decidiria combater a pobreza com seu dinheiro ou seu trabalho? E Itamar Franco? FHC? Lula? Dilma? D. João VI?

A maioria dos nossos políticos – e das pessoas que o seguem – não se caracterizam, como fazem crer seus discursos, por direita ou esquerda. Eles estão em algum lugar no meio disso.  O umbigo.

Quem é partidário do umbigo vai se dizer de esquerda e militar nas ruas, levantar bandeira e dar gritos de ordem, louco para virar o Estado e resolver o problema com as próprias mãos. Ou vai compartilhar mensagem de ódio contra a Dilma e se dizer de direita ao mesmo tempo em que espera que o Estado resolva os problemas do país.

O umbiguista sofre de uma síndrome de Tourette política que faz com que ele grite, berre, compartilhe, ao menor sinal do assunto. Importa mais o barulho do que o seu conteúdo.  Ele não quer saber da pobreza, ele quer que notem o problema. No caso, o dele. O umbiguista quer aqui e quer agora. E não abre mão nem do seu dinheiro, nem do seu tempo. Porque “quando ele chegou já tava assim”. Ele é vítima. Sempre. O umbiguista é a parcela política mais representativa do Brasil.

O umbigo fica entre a direita e a esquerda, sempre pronto para lembrar que, não importa o tamanho da polis, somos um bando de primatas, mamíferos e escravos de instintos muito menos refinados do que essa tal ciência política. Alguns de nós, entretanto, insistem em “mexer” com ela…

Eu não sou gente de humanas

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WorkTenho uma amiga que diz que conhece poucas profissões: médico, advogado, engenheiro… no máximo farmacêutico, vá lá. O resto, ela diz, é tudo designer. Não a culpo. Quase todo mundo hoje em dia é “designer”. E a julgar por esse texto, compartilhadíssimo ontem, eles tendem a continuar se multiplicando.

É super tentador concordar e se render ao romântico ideal de que quem faz Humanas realmente está fadado a ganhar pouco e se divertir muito. Super confortável, portanto, justificar o eventual insucesso profissional pelo fato de que o mundo é assim mesmo e, se tudo acabar em pizza, que seja com borda de catupiry. Exceto que se as coisas fossem tão simples, não haveria as Ciências Humanas pra explicá-las.

Em primeiro lugar, eu sinto muito dizer, mas você cresceu. E não importa o quão simpatizante você seja de qualquer sistema diferente do capitalismo, a não ser que você viva no mato, plantando e pescando, ele é sua realidade. Até para mudá-lo, é preciso admiti-lo. Aliás, se você fez humanas e não sabe disso, você precisa estudar mais. Pois bem, viver num sistema capitalista significa que você precisa vender sua mão de obra, seu trabalho, se quiser ter dinheiro. Mais valias à parte, você também pode ser proprietário dos meios de produção e ter seu próprio negócio.

Repare que este trabalho ou negócio pode ser de qualquer natureza: o que quer que você faça pode ser comercializado. No entanto, existem leis de oferta e demanda influenciando esta coisa chamada mercado (o de trabalho aí incluso) e sua lógica é simples: quanto maior a oferta, menor o preço. O equilíbrio se dá pelo contraponto de que o preço sobe quanto maior for a demanda.

Perdoe meu economês. É básico. Básico o bastante para ser inclusive parte dos currículos obrigatórios de Economia, Administração, Ciências Sociais, Comunicação, Serviço Social e mais um punhado de ciências (vejam só!) humanas aplicadas. Mas se você acha que isso tudo é demais para uma cabeça puramente humana, pare e pense: quantos designers você conhece? Oferta grande, certo? Logo, preço baixo. Só me restringi a essa profissão para manter a nomenclatura da minha amiga, mas preencham a lacuna como melhor lhe aprouver.

“Ah, então ser designer – ou artista plástico, ou ator, ou jornalista, ou tradutor – é uma desgraça e vai ser pobre mesmo?”. Não necessariamente. A CEO da empresa que trabalho é jornalista. Roberto Justus é publicitário. Donald Trump também. Conheço uma pedagoga que é gerente de treinamento e até um executivo de multinacional que, vocês não vão acreditar, é designer!

Work3Mas, e sempre há um mas, já escuto gente bocejando. Qual a graça de ser designer se você vai virar gerente, vai ter que ler planilhas, vai virar o seu pai, não é mesmo? Em suma, que vai ter adiantado fazer Humanas se, no fim, vai ser preciso trabalhar mais e se divertir menos, igual qualquer biológico ou exatóide racionalista? Bom, seja lá qual for a resposta, a certeza é uma só: você vai ter dinheiro.

A verdade é que o Brasil está crescendo, exatamente como você, amiguinho. E assim como você precisou de leite materno pra desenvolver mielina, de danoninho pra ter ossos fortes e de carne pra ficar “fortão”, o Brasil precisa de engenheiro pra construir pontes, estradas, cidades, pra tirar petróleo, pra criar fontes de energia sustentável. Precisa de médicos, a ponto de querer trazer de fora e de qualquer jeito, pra atender gente que morre porque bebe água em regiões onde você não chegaria nem fazendo ecoturismo. Precisa de professores, pra educar a população que vai andar por aquelas estradas e cidades que estão emergindo.

Aliás, professores merecem um parágrafo só deles: mesmo entre os de Humanas, nunca conheci algum que tivesse esse “senso de freelancer”, essa lúdica falta de foco, esse hedonismo profissional que abunda nos designers lato sensu. Professores estão lá, trabalhando muito e ganhando nada, mas estão tão obviamente construindo um país a base de pau a pique (sobra pau e falta pique), que não conheço engenheiro, executivo ou médico que lhes ponha em xeque a utilidade. Até o governo reconhece que lhes paga uma miséria (embora faça muito pouco pra mudá-lo). Raramente um deles escreverá num blog sobre as delícias de ser de Humanas, ganhar pouco e discutir Bukowski com os amigos – embora eles provavelmente entendam mais sobre literatura do que a galerinha problogger.

Mas não percamos o foco, que não quero ser acusado do que critico. Fato é que, se você quer crescer, – e ajuda o crescimento do país, cidade ou comunidade em que vive – trabalhar é preciso. E trabalhar não é divertido, não no sentido “Humano” da palavra. Trabalhar exige disciplina, horário, esforço, resistência. Trabalhar cansa. Significa assumir (e cumprir!) responsabilidades. E, mais do que tudo isso, significa ser necessário para fazer algo funcionar. Perdoe seguir o chorume, mas quão necessário você é para algo?

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Perdoe-me a indelicadeza, a indiscrição. Mas ser necessário é bem diferente de ser querido, ser amado. Isso, é claro, todo mundo quer, mas esperar que êxito profissional decorra apenas dos seus talentos inatos é tão inconsequente quanto quem espera diagramar uma revista apenas porque aprendeu a mexer no Corel ou no Indesign. Quem acha que é fotógrafo porque sabe ajustar o foco da câmera semi-profissional. Seu descolamento, seu hypeness, sua beleza e sua inteligência – ou de qualquer pessoa – jamais serão necessários. É o que você decide fazer com eles que pode – ou não – se tornar algo significativo e, por que não dizer, valioso.

Agora, antes que alguém cante a bola do “vendido para o sistema”, gostaria de lembrá-los que Damien Hirsch, Matthew Barney e Marina Abramović, para citar alguns exemplos, estão longe de ser pobretões. Na verdade, se parecem mais com empresários do que com o povo do Baixo Augusta. Eles são gente de humanas que procuraram usar toda sua “humanidade” para fazer algo tão único, tão diferente, que freelancer nenhum seria capaz de entregar. Ah sim, eles são todos grandes expoentes da arte contemporânea também e trabalham pra caramba. Terry Richardson até parece porralouquinha, mas ele administra estúdios, viagens, eventos, redes sociais, é praticamente um projeto de comunicação. Ah, e fotógrafo. Mauricio de Sousa não é um empresário: é quadrinista. Lembra?

Se você acha o mundo corporativo chato e quadrado, cadê sua humanidade toda lá dentro, pra arredondar isso? Por que essa vontade toda de mudar o mundo tem que ficar restrita a atividades sem fins lucrativos? Seu lugar de trabalho ideal não existe? Cadê você criando esse lugar, com essa criatividade toda que Deus lhe deu?  Até porque, Zuckerberg não é de humanas mas você adoraria trabalhar no Facebook, hein? Google? Sergey e Larry são exatóides do pior tipo!

Não sei se isso é coisa nossa, também, assim, brasileirinha. Acho engraçado que um país imperial como o Japão seja mais republicano do que a nossa república federativa. A falta de preocupação com o outro sempre leva a achar que dá pra empurrar a vida com a barriga. E se ela for de tanquinho, aguenta até mais peso. Um jeitinho todo brasileiro de encarar o trabalho – ou sua ausência – e levar a vida na ginga, no bole-bole, enrolando o tempo e esticando a festa. Tem gente que tem tanta raiva de trabalho que nem pronuncia a palavra e seus derivados: chama de trampo. Mas paremos antes que me acusem de endireitamento.

Então, desculpem, mas embora eu tenha estudado humanas, inclusive seguindo uns bons passos de carreira acadêmica, eu acho que não sou uma dessas pessoas aí que vocês andam falando. Até porque, não pude me dar ao luxo de ir me encontrar ou me achar nos Estados Unidos no meio da faculdade. Muito menos na Irlanda depois dela. Até fiz minhas viagens, mas com objetivos claros, às vezes profissionais, data de ida e volta e nenhuma, nenhuminha vontade de ficar por lá, porque eu tinha uma pá de coisas pra resolver aqui e escapismo, as humanas me ensinaram, soa meio pastoral, meio parnasiano.

O que eu estudei era muito sério e, embora envolvesse um monte de coisa divertida, envolvia também uma responsabilidade violenta. Até quando era arte, era sério o bastante pra ter prova. Não era papo de boteco. Às vezes, envolvia indicadores, mensurações. Sim, estudei humanas. Meu leite com pera era mais azedinho, acho. E minha amiga já se confunde em me classificar como designer. Se você não me acha “gente de humanas” ou se pareço “coxinha” ou “empresário” com esse palavrório, peço desculpas. Mas não se preocupe, nem se incomode. Para mim, é um prazer ser a prática da tua teoria.

A náusea

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Neste exato momento, uma praga se espalha pelo mundo.  Relatos falam de um vírus altamente transmissível, que entra no corpo pelo canal auditivo, nervo óptico e, em alguns casos, até pelo sistema digestório. Em pouco tempo ele transforma o cérebro na mais pura tapioca e a pessoa é acometida por fortíssima diarreia verbal e hábitos apenas suportáveis por aqueles que compartilham da doença. Não há cura conhecida, embora tratamentos a base de roleta russa tenham se mostrado bastante eficazes.

Tão logo a pessoa é infectada, o paladar começa a se deformar, desenvolvendo forte predileção por comida japonesa, indiana e outras pretensões. Estágios mais avançados já apresentam sintomas de vegetarianismo e, em casos extremos, veganismo. A audição também é afetada e parece apenas ouvir aquilo que seja repetido à exaustão, seja nos meios de comunicação, seja por pessoas a sua volta. Aliás, os danos ao sistemas cognitivo parecem bloquear a percepção de tudo que seja novo ou diferente: apenas o repetitivo passa a ser detectado e tido como verdade. Essa repetição leva, finalmente, ao principal sintoma, através do qual o vírus se reproduz: a diarreia verbal, ou verborreia.

A verborreia começa quando tudo o que vinha sendo repetido e armazenado no cérebro do enfermo é regurgitado aos borbotões, podendo ir do simples uso de uma manchete da Veja para um argumento anti-governista até a confecção de manifestos, sites e movimentos que pregam a mediocridade. Porque, uma vez com a cabeça cheia de tapioca, a pessoa não se torna ruim, nem boa: ela se torna medíocre.  E aí se perde pra sempre.

Aquilo que é muito ruim, fomenta  mudanças – pra pior, às vezes pra melhor. Aquilo que é muito bom, também. Mas o eterno idiota vive da mediocridade: essa praga mortal que condena as pessoas a serem sempre iguais.

Para sempre elas vão reclamar do Big Brother, ainda que tenham Twitter, Orkut e Facebook, inclusive de personagens que elas criam. Para sempre elas vão falar que Lady Gaga copia Madonna, e que a cantora que vai surgir daqui 2 anos copia Lady Gaga, como se isso fosse muito importante. E ainda vão ouvir todas elas, enquanto se requebram de forma semi-convulsiva. Essas pessoas, coitadas, gritarão que não suportam axé e sertanejo, mas curtirão “de boa” um show do Luan Santana na festa do peão de Nsa. Sra. da Piraporinha, com a desculpa de que “é o que tem pra hoje”. Para elas, que se acham tão espertas, sempre vale a pena tentar usar o caixa eletrônico vago – sendo que há uma fila de 500 pessoas esperando pra usar os outros.  Esse povo, coitado, doente de mediocridade, tem mais é que se foder mesmo. Morro de dó… mas nem ligo.

Pra me proteger, eu tenho usado o único antídoto disponível hoje no mercado: fazer o que dá na telha. Ainda que isso signifique ouvir funk e ver BBB. Porque nos intervalos eu leio James Joyce e estudo semiótica e, olha, vou te contar que uma coisa tem um tanto assim a ver com a outra. Ou vai ver eu peguei mediocridade e não consigo ver o quão ridículo eu estou sendo… Pode ser, pode ser.

Goiaba

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É que o menino que mora comigo comprou umas goiabas que estão passando gosto em tudo na geladeira. Manteiga, iogurte, até coca cola agora tem gosto de goiaba. Achei que o meu leite tivesse azedado, mas aí lembrei que ele era de ontem e o que azedou foi a minha cara. Olhei pro embrulhinho de goiabas como quem olha pra um monte de cocô.

Mas o que me intriga é imaginar que em algum momento passou na cabeça dele que ele precisava comprar goiabas, sabe? Em quatro anos de faculdade e dois de mestrado, eu nunca precisei de goiaba, nunca tive esse desejo. Era muita semiótica pra pensar, nem lembrava que goiaba existia. O que, então, leva um estudante de engenharia a pensar que precisa comprar goiaba no supermercado entre uma equação e outra? Isso é coisa de filho de mãe judia, sim senhor. Porque só em casa com mãe judia e governanta é que as pessoas ficam felizes porque comem goiaba no café da manhã. Ou porque alguém faz doce de goiaba, com queijo ainda por cima (ou por baixo). No mais, come-se goiaba de vez em quando, e olhe lá. Na mesa de frutas do reveillón ou em passeio no sítio, está de bom tamanho.

Eu mesmo, quando comprava fruta, comprava banana e maçã, porque era óbvio bater com leite. Ou umas laranjas. Minha extravagância hortifrutigranjeira foi num verão em que, pra desaforar o calor, comprei uma melancia. E foi a única vez. Agora, goiaba? Não, isso nunca me passou pela cabeça. A pessoa precisa ser muito goiaba pra pensar nisso.

E o pior é que, naturalmente, essas goiabas foram escolhidas. Você sabe escolher goiaba? Eu não. Na árvore é fácil: se estiver bichada, não presta. Mas no supermercado isso funciona como? Toda uma ciência de entender se a fruta está madura o bastante pra empestear a geladeira. Devem ensinar isso na faculdade de engenharia. Ou na casa da mãe Joana que, pode anotar, é judia.

Quando eu for morar sozinho, não vai ter goiaba na minha casa.

Viral

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O novo viral gay é o cabelo de Morrissey. Todo mundo que tem a sexualidade com frouxidão igual ou maior à personalidade já raspou os lados da cabeça, deixando de resto um quase moicano topetudinho. Os mais “pra frente” ainda cultivam um “pega-rapaz”, nome cujo criador merecia um prêmio desses anuais, de nome em inglês.

Curioso que ainda não conheci ninguém de cabelo assim que conhecesse o Morrissey. De nome, que fosse. Minto, conheci um DJ. E só. Então eu fico imaginando como deve ser no cabeleireiro, sabe? Será que eles levam revistas pra mostrar fotos e falar: “quero o cabelo assim”? Ou será que gesticulam instruções enquanto explicam: “em cima pode deixar assim”? Certeza que mais de um gay já pediu pro outro uma coisa meio “anos 80”. “80´s” pros descolados – aqueles do “pega-rapaz”. E estou supondo que ao menos a referência temporal seja conhecida. Uma vez mandei VV Brown pra um amigo e ele disse que achou legal, que era super anos 80. Por sorte, ele ainda não resolveu usar o cabelo de Morrissey.

Antes que alguém me jogue qualquer coisa, já digo que nem acho feio. É moderninho (que nem aquele personagem da Turma da Xuxa) e, dependendo do formato do rosto e do tipo do cabelo, pode dar certo, porque engenharia capilar tem dessas coisas. Mas é que pra ter algo na cabeça, – um chapeuzinho de rave ou um cabelo de Morrissey – precisa, primeiro, saber de onde saiu. Pra não pegar piolho, até. Ou seborréia. Aconteceu com um menino aqui do prédio. Não sobrou nada, coitado. Se ao menos ele ouvisse Moby…

Epic Fail Editorial

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Eu SEMPRE achei esse troço de Men´s Health (e o mesmo vale pra Boa Forma, Saúde Viva, Viva com Saúde e afins..) uma palhaçada. Até porque, se desse certo a revista não vendia. Porque se em uma capa você consegue “o corpo que sempre quis” pro verão, PRA QUE você vai comprar a próxima edição, que promete, sei lá, “braços definidos”? Prova disso foi dada pela edição americana da revista desse mês:

À esquerda, a capa de outubro de 2007. À direita, a capa desse mês! Copiada quase que literalmente, só trocando a foto! E o pior é que vão continuar comprando. Sério. Nunca entrei num banheiro de bicha phyna que não tivesse uma pilha de Men´s Health

(Do Gawker)

Porque eu ODEIO a saga Crepúsculo

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Porque a estréia do filme “Lua Nova” ontem, começou assim, ó:

Prefiro vampiros e lobisomens me comendo vivo a partilhar do mesmo gosto que essa turba. E tenho dito.

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