Porque a Pixar é o que é

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Não, não é porque várias das pessoas que trabalham lá são gays…

É porque, antes disso, elas são pessoas que aprenderam a amar em vez de odiar. E só gente assim consegue fazer coisas desse tipo:

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Fim.

A obra técnica na época de sua reprodutibilidade artística

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É com certo sobressalto e um pouco de desconfiança que Walter Benjamin observaria, abismado, sua obra ser invertida. Como quem não quer nada e com a serenidade que só o tempo tem, ele veria o cinema, a pura técnica de seu tempo, pura reprodução, o Ipad do fin de siècle, fazendo de Frankfurt, salsicha.

Talvez ele até se reconhecesse em James Miller (William Shimel), o estudioso de arte que lança um livro sobre o valor da cópia como possuidora de valor estético próprio. Afinal, na época de sua reprodutibilidade técnica, a obra de arte perdeu a aura, já anunciara Walter Benjamin. E, depois disso, o valor lhe é dado pelo olhar de quem observa, completaria James, todo trabalhado no estruturalismo.  Até aí tudo bem. James e Benjamin poderiam dividir cerveja e teoria sem maiores discussões. Mas aí Elle (ela? Juliette Binoche, com certeza) entraria no meio da conversa. E bagunçaria tudo.

É preciso um pouco de alegoria e frescura para dar uma pequena ideia do riscado de “Cópia Fiel” (Abbas Kiarostami, 2010). Quem conhece o diretor e seus planos-sequência (aqui temos um de 12 minutos!) sabe que não é muito de enredo que vive sua obra. Roteiro pressupõe “rota”. Espaço. E não é de espaço que o iraniano precisa para mandar seu recado. Aliás, nunca foi. Kiarostami precisa de tempo. É um obcecado pela captura do agora, do instante, do “gosto de cereja”, aquele momento em que a folha daquela árvore ali à direita balançou.

Ainda namorando o realismo cinematográfico (e o neo-realismo, que imprime ecos distantes de Pasolini ao filme), o diretor faz a profundidade de campo extrapolar a imagem. Faz a personagem falar do que está fora de quadro. E o que está fora do quadro se faz ouvir aqui, no que está enquadrado. Está tudo lá, na tela: uma cópia fiel.

E Benjamin ficaria satisfeito em ver o cinema, técnica por excelência, reproduzindo a obra de arte do real, da experiência, do tempo. Também é assim com James, que apenas tinha ido à Toscana para fazer uma palestra sobre seu livro. Mas James encontra Elle pelo caminho. Que o convida para um passeio por um pequeno vilarejo italiano enquanto contesta suas ideias, de forma cada vez mais incisiva. Os diálogos vão nos conduzindo ora pela história da arte, ora por questões banais, até que, de repente, Kiarsotami resolve contestar Benjamin (que, a rigor, nem faz parte dessa história).

Depois que a dona de um café dá conselhos a Elle, acreditando que James seja seu marido, os dois começam, sem prévio aviso, a representar os papeis de um casal que se reencontra depois de 15 anos. Está puxado o tapete. A cópia do real não é mais fiel. É tudo jogo de representação… E já não era?

Se estão fingindo? Que importa? São dois atores, não são? E muitos bons, por sinal, porque Juliette Binoche faturou o prêmio de melhor atriz em Cannes com esse papel. O que, vale dizer, não anula o fato de serem fingidores, daqueles que Fernando Pessoa bem gostava. São atores também Elle e James, imagem e semelhante de Binoche e Shimel. Uma pessoa que é uma outra, que é uma outra…Talvez não esteja tão longe assim do real. Mas se distancia bastante daqueles personagens do cinema clássico, cuidadosamente pensados para serem coerentes. Ou com incoerências cuidadosamente pensadas para fazê-los parecer mais humanos. Aqui não parece, apenas é: são dois atores. E seus personagens. Inclusive eles mesmos.

E, nessa bagunça um pouco absurda, Kiarostami virou a mesa de Benjamin. É ali, naquele turning point contestatório em um café toscano, que o nosso dileto filósofo ficaria um tanto ressabiado e começaria a desconfiar do seu interlocutor iraniano – pura coincidência que Benjamin seja judeu. A “cópia fiel” não é reprodução técnica: é artística! E se a aura saiu da obra de arte, talvez tenha ido pairar justamente em torno de seu carrasco pego em flagrante: a técnica.

E aí, num golpe de mestre, o cinema, essa “máquina” de reproduzir (trazendo a reboque a televisão, o computador, os games e tudo o mais), se recria. Faz arte. Só através dele – e de seus copiosos tentáculos – se torna possível capturar aquela essência humana presente no filme, indescritível em palavras porque, justamente, depende da técnica cinematográfica para se fazer entender. De uma técnica diferente, surgida de uma anterior e que, em sua originalidade, é artística. “Cópia fiel” é isso: a técnica que se copia – se reproduz – através da arte. Por essa, Benjamin não esperava. Muito menos a história do cinema…