Tem algo de lacaniano em Natimorto, de Paulo Machline. É muito símbolo, muita psicanálise, muito fluxo de consciência e des-curso rodeando dois personagens perturbados pela existência. Adaptado da obra de Lourenço Mutarelli (autor de “O Cheiro do Ralo”, que já foi pras telonas pelas mãos de Heitor Dhalia), Natimorto é filme-filosofia e não é distração. É interessante, às vezes soberbo, às vezes impressionante, sempre inteligente, mas em nenhum momento serve para nos distrair dos problemas ou da realidade. Do contrário, nos arremessa de frente contra eles, em tempo de nos arrebentar o nariz. A recompensa é aquela sensação prometeica de estar uns milímetros mais perto do desconhecido, ou seja, nós mesmos.

A trama trata de um caça-talentos musical – essa profissão existe? – e uma cantora, que se não é lírica, transborda lirismo. Ambos sem nome. Ele, interpretado pelo próprio Lourenço Mutarelli, brincando de misturar criador e criatura. Ela, uma resplandecente Simone Spoladore que, quando canta, silencia –“ Silencio, no hay banda”, gritaria David Lynch lá de sua esfera de influência.  Aliás, a mudez cai bem em Simone, que não precisou falar palavra para arrancar suspiros em “Lavoura Arcaica”. Eis que ele resolve largar a mulher, e, com a naturalidade de quem propõe um café, pede que a cantora se tranque consigo num quarto de hotel em São Paulo e não saiam mais. Para nada.

A atuação de Mutarelli é confusa, quase engolindo palavras enquanto vomita frases quilométricas. Sabe-se lá se é inexperiência de quem atua pela primeira vez ou transbordo de um personagem que de segurança tem muito pouco. Simone serve de talentoso e suave contraponto, amortecendo com olhares, às vezes risadas, os balaços disparados pelo colega de protagonismo.

Simone e Mutarelli em cena: individuação do sujeito ou sujeição do indivíduo?

E, com isso, está dada a largada para a sessão de análise. Ele é pura pulsão de morte. O haver querendo inutilmente não ter havido com uma ânsia misantrópica. Quer ser “natimorto”, que antes mesmo de vir a ser, já não é mais. Ela, por sua vez, quer dar significado à sua vida e vê na promissora carreira uma possibilidade de haver ainda mais brilhantemente. E, no espaço aberto pelo indivíduo ao se partir ao meio, instala-se uma curiosa mania: a de ler o futuro nas estampas do verso dos maços de cigarro. Como num baralho de tarô. E feito duas pitonisas, que precisam exalar vapores para fazer previsões, os dois mergulham na nuvem de fumaça de seus próprios cigarros, frustrações, medos e conflitos.

O canto silencioso: é perfeito porque nunca chega a existir

Diferente de Dhalia em “O Cheiro do Ralo”, Machline opta por não temperar com sarcasmo o mundo doentio de Mutarelli. Ele o serve cru, literalmente regado a vermes e carpetes mofados. E se por um lado a fotografia granulada e diáfana de Lito Mendes da Rocha enche o filme com nuances de neon da rua e a materialidade da película, por outro, a direção sádica de Machline brinca de torturar personagens e atores  – lembrando um pouco Aronofsky.

Também há qualquer coisa do “Anticristo” de Von Trier nessa verve psicanalítica de abandonar um homem e uma mulher à própria sorte.  “Anticristo” enveredava pelos delírios da sexualidade e do trauma, sendo quase freudiano. Natimorto já se mete com filosofia para revirar as entranhas da angústia de existir e, talvez por isso, ganha ares lacanianos.

Mutarelli mistura criador e criatura (s) em seu personagem

Mais do que disposição, Natimorto exigirá erudição de seu público. Quem não tem muita ideia de quem sejam Nietzsche, Lacan, Magritte ou Eça de Queiroz e suas respectivas obras pode achar tudo meio chato. O roteiro não apenas referencia essas figuras, mas traz suas obras e biografias para o meio da discussão. Não conhecê-las significa, pelo menos em alguns momentos, boiar. Um risco assumido pelo diretor ao não fazer como Ron Howard, que transformou  certas cenas de  “O código Da Vinci” em algo bem parecido com uma apresentação de Power Point, dessas corporativas.

Jeune fille mangeant un oiseau (Le plaisir)  – A obra de Magritte é uma das muitas referências de Natimorto

Mas, riscos assumidos, vale repetir, a recompensa é das grandes. A certa altura do filme, o personagem de Mutarelli grita angustiado que não consegue se ver . Afinal, no espelho, só se enxerga invertido – e dá-lhe Lacan com seu “estádio do espelho”. Assistir Natimorto e entregar-se à experiência diferenciada proporcionada pelo filme é vislumbrar, ainda que por um átimo, a própria imagem, sem inversão. Para o desgosto de Narciso, que acha feio o que não é espelho…

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