“Triângulo amoroso” é uma ode ao artificialismo do universo

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“Triângulo amoroso” é desses filmes cujo título brasileiro desvirtua um pouco os sentidos do original. A produção, escrita e dirigida pelo alemão Tom Tykwer (celebrizado pelo já clássico “Corra, Lola, corra”) levava apenas o simples e preciso nome “3”, em algarismo mesmo. Um título que sintetiza com maestria a obra que batiza.

“Triângulo amoroso” conta a história de um, como se pode imaginar, mas nada parecido com o verniz de açúcar, meio cult, de produções como “Três formas de amar” ou “Splendor – um amor em duas vidas”. Aqui os protagonistas já estão por volta dos 40 e, se não são bem resolvidos, tem estrutura suficiente para perseguirem seus desejos. Simon (um adorável Sebastian Schipper) é casado com Hanna (Sophie Rois). Ele possui uma empresa que “executa” obras de arte, especialmente esculturas. Ela é apresentadora de um programa de TV intelectualizado, cheio de academicismos e entrevistas complexas. Em situações diferentes e sem saber, ambos se envolvem com Adam (Devid Striesow), um pesquisador de células-tronco.

Mas nada é tão simples quanto parece e a própria forma como a trama se apresenta já dá um gostinho do que se pode esperar. A primeira cena do filme é um grande plano-sequência com imagens que fazem lembrar o brilhante clipe de “Star Guitar”, dirigido por Michel Gondry para os Chemical Brothers. No áudio, uma voz masculina quase sussurra o que poderiam ser “palavras-chave” para buscar o filme que está pra começar no Google. Como se estivesse separando os reagentes para uma experiência prestes a começar. O que não é de todo mentira.

No que parece ser uma clara influência dos romances experimentais, fundados por Zola e seu naturalismo, o filme se propõe como um grande “experimento social”. Essa intenção aparece ecoada na trama pela ciência e pela arte, elementos com os quais todos os personagens estão envolvidos. E é aí que surge a regência firme, controlada, de Tykwer, quase de forma a garantir que seu experimento não seja influenciado por fatores externos. Ele parece se esforçar – seja pelas situações que cria no roteiro, seja pelos enquadramentos, pela direção de atores e até pela direção de arte – para deixar muito claro que tudo ali é artificial, controlado, criado. Porém, dada a naturalidade com que a história transcorre, o filme ricocheteia sobre o próprio suporte devolvendo ao espectador a incerteza da naturalidade em que pretensamente vive. E aí, “Triângulo amoroso” se torna algo muito mais universal do que uma trama sobre três pessoas envolvidas romanticamente: se torna uma obra de exaltação ao artificialismo do mundo (inclusive daquilo que, a princípio, seria “natural”).

Por isso há espaço, ainda nos primeiros minutos, para uma representação minimalista da trama que está para transcorrer, só que em forma de dança contemporânea, com uma câmera que baila por entre os dançarinos, quase à Carlos Saura.

Há também espaço para várias sequências que transcorrem simultaneamente na tela dividida, no estilo celebrizado por Mike Figgis com seu “Timecode”. Isso sem contar situações e soluções de direção que, num filme qualquer, seriam apenas gratuitas, mas que aqui reforçam a busca de Tykwer por mostrar o quanto o artificialismo permeia todas as relações e, assim sendo, permite que o ser humano, ciente disso, as ajuste em busca de sua felicidade.

É aí que o “3”, numeral, se mostra mais adequado para batizar um filme que se esforça em direção ao universal, fundindo-se  à arte e à ciência.


Assista ao trailer

Minimalismo

2 comentários

Imagine suas séries de TV prediletas em pôsteres de design minimalista:

O austríaco Albert Exergian teve essa idéia e fez uns exemplos bem legais. Olha esse, de 24 horas:

Pra quem curtiu o trabalho do cara, nesse site tem mais um montão de pôsteres. Tipo esse dos Simpsons:

E claro, no site do artista dá pra conferir todo o trabalho dele. Super vale a pena!

Virgem Maria!

1 Comentário

Tá bom, isso pode te confundir um pouco. Mas que tal essa Madona?

Calen

Eu sei. Adoro a cara de medo do bebê. A idéia é de uma organização de transexuais espanholas. O calendário, que será lançado no ano que vem, traz várias travas vestidas de Virgem Maria. Abala!

Calen1

Essa é praticamente uma nossa senhora aparecida (na discoteca). Claro que isso aí  já deu bafão. Ainda mais na Espanha. Neguinho está ameaçando chamar o tribunal da inquisição, os blogs estão bombando, não se fala em outra coisa. Quer dizer… deu certo. A proposta do calendário é que as comemorações religiosas sejam substituídas por comemorações cidadãs e políticas. Por exemplo, o dia 25 de dezembro não aparece como Natal, mas como o “Dia Internacional da Democracia”. Tá, meu bem?

Calen2

E essa Nossa Senhora de Fátima? Repararam na coroa dela? Então reparem…. Isso aí me lembrou o trabalho da Elisabeth Wallin, que eu postei por aqui, de arte homocristã, além de qualquer filme do Almodóvar. E vocês, o que acharam?

Calen3

Minha Nossa Senhora das Graças!!! Pra quem quiser ver o calendário todo, é só dar uma olhada aqui.

Update: Aparentemente a PORCARIA do WordPress censurou a última foto porque eles são Chico Bento 16 team. Então clica onde tá escrito “Calen3” e veja do mesmo jeito.

Crônicas do armário

1 Comentário

Mais um daqueles curtas bem-feitos, bonitos e fofinhos. A dica é do Rafael de novo (vai virar co-editor do O&A..rs):

“The Closet” é dirigido pro Stewart Hendler e tem aquela sutileza que os bons curtas conseguem alcançar. Gostei.

Anticristo

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Antic3

Satanismo? Wicca? Bruxaria? Feminismo? Lars Von Trier? Pus tudo aqui

Um tal Filipe Catto

8 comentários

Catto2

Sábado passado fui parar no show de um tal Filipe Catto. Um “tao” Filipe Catto. Da música, do sentimento, da ousadia, da arte. Com apenas 22 anos, o cantor portoalegrense ocupa o palco com uma presença que vai bem além do que está em cena: corre até as fronteiras gaúchas, flerta com o tango, tromba no samba, esbarra na boemia do século passado e se derrama sobre o público. Dá um banho, mesmo.

Em seu único EP lançado até agora, “Saga”, Catto dá conta de tudo. Letra e música são dele em quase todas as canções. O desenho dos encartes também, rabiscados em guardanapos de bar. Os arranjos, a produção, o show: tudo marcado com a assinatura visceral que só os grandes artistas tem. E se soa exagerado, é pra combinar com a música.

Catto

As influências de Elis Regina, Maysa e Piaf (de quem Catto leva algumas músicas pro palco) saltam aos ouvidos tanto quanto as mãos inquietas e o gestual exagerado saltam aos olhos. E a comparação com cantoras é bem adequada: o timbre, surpreendentemente cristalino e agudo, é quase feminino. Ou não. Depois do primeiro acorde, qualquer tentativa de classificação de gêneros (musicais, humanos), soará ridícula. Como cabe à verdadeira arte, a música de Catto vem dançar naqueles espaços de interstício, de possibilidades, de figuras difusas e indefinidas.

E tem as letras. Num mundo de Mallu Magalhães, é bom ver que prodígios reais existem. Para a pouca idade que tem, Catto escreve sobre os sentimentos com paixão e maturidade ímpares. É fingindo que “é dor a dor que deveras sente” que ele solta um “deixo você pra quem quiser ser teu”. Que ele trova um “meu amor, não enxugues o meu pranto. Ri!”. E fecha o disco (na minha faixa predileta, “Roupa do corpo”), com uma dessas frases antológicas que fazem da MPB o que ela é: “traz mais uma gelada que a nega aqui hoje teve alforria”.

Catto1

Sábado passado fui parar no show de um tal Filipe Catto. E foi por muita sorte. Não vai demorar pra eu precisar disputar a tapa um ingresso pra ver, outra vez, o espetáculo que assisti. Acha que eu tô exagerando? Então ouve. E depois, me conta…

Vamos terminar o dia bem bonitinho?

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Kirsten Lepore é um artista americano que tem ganhado prêmios por vídeos assim, ó:

Achei poético, achei fofo e achei doce!:)

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