Da angústia de ser

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Tem algo de lacaniano em Natimorto, de Paulo Machline. É muito símbolo, muita psicanálise, muito fluxo de consciência e des-curso rodeando dois personagens perturbados pela existência. Adaptado da obra de Lourenço Mutarelli (autor de “O Cheiro do Ralo”, que já foi pras telonas pelas mãos de Heitor Dhalia), Natimorto é filme-filosofia e não é distração. É interessante, às vezes soberbo, às vezes impressionante, sempre inteligente, mas em nenhum momento serve para nos distrair dos problemas ou da realidade. Do contrário, nos arremessa de frente contra eles, em tempo de nos arrebentar o nariz. A recompensa é aquela sensação prometeica de estar uns milímetros mais perto do desconhecido, ou seja, nós mesmos.

A trama trata de um caça-talentos musical – essa profissão existe? – e uma cantora, que se não é lírica, transborda lirismo. Ambos sem nome. Ele, interpretado pelo próprio Lourenço Mutarelli, brincando de misturar criador e criatura. Ela, uma resplandecente Simone Spoladore que, quando canta, silencia –“ Silencio, no hay banda”, gritaria David Lynch lá de sua esfera de influência.  Aliás, a mudez cai bem em Simone, que não precisou falar palavra para arrancar suspiros em “Lavoura Arcaica”. Eis que ele resolve largar a mulher, e, com a naturalidade de quem propõe um café, pede que a cantora se tranque consigo num quarto de hotel em São Paulo e não saiam mais. Para nada.

A atuação de Mutarelli é confusa, quase engolindo palavras enquanto vomita frases quilométricas. Sabe-se lá se é inexperiência de quem atua pela primeira vez ou transbordo de um personagem que de segurança tem muito pouco. Simone serve de talentoso e suave contraponto, amortecendo com olhares, às vezes risadas, os balaços disparados pelo colega de protagonismo.

Simone e Mutarelli em cena: individuação do sujeito ou sujeição do indivíduo?

E, com isso, está dada a largada para a sessão de análise. Ele é pura pulsão de morte. O haver querendo inutilmente não ter havido com uma ânsia misantrópica. Quer ser “natimorto”, que antes mesmo de vir a ser, já não é mais. Ela, por sua vez, quer dar significado à sua vida e vê na promissora carreira uma possibilidade de haver ainda mais brilhantemente. E, no espaço aberto pelo indivíduo ao se partir ao meio, instala-se uma curiosa mania: a de ler o futuro nas estampas do verso dos maços de cigarro. Como num baralho de tarô. E feito duas pitonisas, que precisam exalar vapores para fazer previsões, os dois mergulham na nuvem de fumaça de seus próprios cigarros, frustrações, medos e conflitos.

O canto silencioso: é perfeito porque nunca chega a existir

Diferente de Dhalia em “O Cheiro do Ralo”, Machline opta por não temperar com sarcasmo o mundo doentio de Mutarelli. Ele o serve cru, literalmente regado a vermes e carpetes mofados. E se por um lado a fotografia granulada e diáfana de Lito Mendes da Rocha enche o filme com nuances de neon da rua e a materialidade da película, por outro, a direção sádica de Machline brinca de torturar personagens e atores  – lembrando um pouco Aronofsky.

Também há qualquer coisa do “Anticristo” de Von Trier nessa verve psicanalítica de abandonar um homem e uma mulher à própria sorte.  “Anticristo” enveredava pelos delírios da sexualidade e do trauma, sendo quase freudiano. Natimorto já se mete com filosofia para revirar as entranhas da angústia de existir e, talvez por isso, ganha ares lacanianos.

Mutarelli mistura criador e criatura (s) em seu personagem

Mais do que disposição, Natimorto exigirá erudição de seu público. Quem não tem muita ideia de quem sejam Nietzsche, Lacan, Magritte ou Eça de Queiroz e suas respectivas obras pode achar tudo meio chato. O roteiro não apenas referencia essas figuras, mas traz suas obras e biografias para o meio da discussão. Não conhecê-las significa, pelo menos em alguns momentos, boiar. Um risco assumido pelo diretor ao não fazer como Ron Howard, que transformou  certas cenas de  “O código Da Vinci” em algo bem parecido com uma apresentação de Power Point, dessas corporativas.

Jeune fille mangeant un oiseau (Le plaisir)  – A obra de Magritte é uma das muitas referências de Natimorto

Mas, riscos assumidos, vale repetir, a recompensa é das grandes. A certa altura do filme, o personagem de Mutarelli grita angustiado que não consegue se ver . Afinal, no espelho, só se enxerga invertido – e dá-lhe Lacan com seu “estádio do espelho”. Assistir Natimorto e entregar-se à experiência diferenciada proporcionada pelo filme é vislumbrar, ainda que por um átimo, a própria imagem, sem inversão. Para o desgosto de Narciso, que acha feio o que não é espelho…

Pânico está de volta para mostrar como se faz

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11 longos e sangrentos anos. Foi o tempo que o público teve que esperar até que Wes Craven recobrasse o ânimo – e recebesse uma proposta polpuda o bastante – para retomar sua franquia Pânico (Scream), que tanto fez a alegria da galera lá pelo fim dos anos 90. E se você é da turma que adorava ver Sidney quase-morrendo enquanto dava uns berros no cinema, pode comprar a pipoca e se jogar: Pânico 4 (Scream 4, 2011) deve compensar a espera.

Craven é espertinho. Vamos admitir: o cara, que já tinha uma bagagem boa, revolucionou o gênero suspense/terror lá pela época em que Pânico surgiu (1996). E fez isso de uma forma bem divertida: primeiro, retirou do filme todo o aspecto trash que era imperativo em produções que iam da série “Sexta-feira 13” até coisas como “A volta dos mortos-vivos”. Não que o trash fosse ruim. Mas era meio indigesto pra um público que, até então, ia ao cinema pra ver “O Rei Leão” e “Gasparzinho”. Foi preciso menos intestinos de mentirinha e mais sustos de verdade, além de uma produção minimamente cuidadosa, pra fazer tudo parecer bem feitinho. E deu certo. Pânico virou filme que lotava cinema. Aliás, que passava no cinema, bem diferente da maioria de seus companheiros de gênero dos anos 90.

Aí veio a segunda sacada: sabendo que um assassino vestido com uma capa e uma máscara era algo um tanto ridículo, principalmente em se tratando de um assassino cuja arma principal é um faca, Craven e seu roteirista, Kevin Williamson, fizeram como ele e vestiram a carapuça, assumindo esse ridículo. Fizeram de Pânico um Shrek dos filmes assustadores – muito antes de Shrek existir. E desde que a Nouvelle Vague ensinou Hollywood a brincar com gêneros, foram poucas as vezes que isso deu tanto certo quanto na (até então) trilogia Pânico. A metalinguagem foi tão bem sucedida que passou da simples referência até a literal produção de um filme como mote do roteiro de Pânico 3. Tudo isso numa série em que o assassino faz questão de perguntar às vítimas: “Qual o seu filme assustador predileto?”

Só que Pânico 3, em 2000, parecia ser o fim da série. O próprio Wes Craven afirmou veementemente que não faria continuações. Até que no ano passado surgiram os rumores: Pânico 4 estava sendo produzido. E o desafio era grande: há 11 anos atrás, a franquia era o supra-sumo em seu gênero mas, agora, depois das adaptações do terror japonês, da série Jogos Mortais e da Internet (nem DVD existia direito quando o primeiro Pânico chegou às telonas!), a coisa seria bem diferente. Principalmente se levarmos em conta que a franquia “Todo mundo em pânico”, sátira escrachada baseada nos filmes de Craven, é tão famosa quanto os próprios filmes. Ou mais.

Pois bem. Craven manteve-se fiel à sua fórmula e, mais uma vez, assumiu o ridículo, por assim dizer, do que estava fazendo. Como um dos personagens diz: “A tragédia de uma geração é a piada da geração seguinte”. E hoje tem marmelada? Tem sim, senhor! O filme já abre criticando seus “concorrentes” e deixando claro a que veio: o bom e velho Pânico está de volta. E, se ele não é seu filme assustador predileto, vai fazer de tudo para ser, alternando cenas genuinamente desesperadoras e apreensivas com momentos constrangedoramente absurdos.

É preciso ter pelo menos uma pequena noção dos filmes anteriores para entender tudo que acontece em Pânico 4: Sidney Prescott (a mesma Neve Campbell do primeiro, segundo e terceiro filmes) volta à Woodsboro, sua cidade natal, para lançar o livro em que conta como sobreviveu à tragédia que matou basicamente todo mundo que ela conhecia quando jovem. Além dela, sobraram sua amiga Gale (Coutney Cox) e o agora xerife Dewey (David Arquette). E é claro que se Sidney volta, um novo assassino vem atrás e daí pra frente não é preciso conhecer a franquia para aproveitar: é o típico filme de serial killer, no estilo eternizado, justamente, pela série Pânico.

Para quem sente saudade dos anos 90, a fotografia de baixa profundidade de campo e iluminação sombria, além da falta de filtros na contra-luz, vai trazer uma sensação nostálgica de estar assistindo ao filme num VHS, como é bem provável que você tenha feito em algumas das três primeiras versões. Mas pára por aí. Como diz o slogan do filme, “Nova década, novas regras”. E dá-lhe clichês fresquinhos a serem explorados, indo da câmera-amadora-na-mão até o filme-dentro-do-filme, passando por uma piadinha tão boa quanto infame com Robert Rodriguez.

Pânico 4 vem para mostrar que faz parte de uma série que – quem diria! – virou cult. Mérito de Craven e Williamson, por refrescarem o gênero que se propuseram a trabalhar, dando-lhe nova cara. Mas também vem para divertir, te deixando pra cima até com a trilha dos créditos finais, ainda que sendo um filme de terror sobre assassinatos. Mérito de seus atuais “concorrentes” de gênero, que, no fim das contas, só servem mesmo para chacota.

Assista ao trailer

Sucker Punch é uma viagem

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Quando um filme começa com cortinas de veludo vermelho que se abrem, meio vaudeville, e você espera que o que vem em seguida seja muito diferente disso, das duas uma: ou você é chato ou o é desinformado. Pode ser que seja os dois e, nesse caso, vai chafurdar coisas como feminismo (ou machismo), auto-superação e até psicanálise em “Sucker Punch – Mundo Surreal” (Sucker Punch, 2011).  Nenhum problema, é claro. Exceto que vai achar o filme uma requintadíssima porcaria. Agora, se você é do tipo que poderia ter frequentado o Cassino da Urca na década de 40 ou cresceu jogando video-games, – e eu juro que a relação entre as duas coisas é mais estreita do que pode parecer – então prepare-se para dar pasto pros olhos e pra cabeça.

Desde “Madrugada dos Mortos”, pelo menos, Zack Snyder vem mostrando que está, sim, de brincadeira. Não é cinema pra você dizer: “profundo, interessante, retrato preciso e inspirador de tal coisa”, enquanto alisa o bigode. É pra você sentir e pronto, pra ser, literalmente, sensacional: mais ou menos o que a patota do Gombrecht chamaria de sensorial. E “Sucker Punch“, como o nome já sugere, vai por esse caminho com força. É a primeira vez que Snyder escreve um roteiro original.  Em parceria com Steve Shibuya, ainda por cima, cujo sobrenome nipônico me faz pensar que sim, a mente da japonesada é insana.

A trama se emaranha em torno de uma garota internada injustamente num hospício (que lembra bastante aquele de “Ilha do medo”) e os subterfúgios imaginários que ela inventa para driblar os problemas com os quais se depara. A vida lhe dá limões, ela faz uma limonada, sabe? Mas fique tranquilo: nada parecido com “Onde vivem os monstros”. Nossa heroína, Bady Doll (Emily Browning), usa maria-chiquinha e figurino ninfeta colegial meets Burlesque, o que por si só é mais divertido do que um garoto correndo por uma floresta, vestido de bicho de pelúcia. Além disso, ela tem como companhia as outras gurias do hospício, todas bem decotadas e safadinhas, além de prontas para lutar e quebrar tudo no tal mundo imaginário que Baby Doll cria.

Mas eu comecei falando do vaudeville e não voltei a ele. Perdão. Hoje em dia as linguagens são assim, fragmentadas mesmo. E o teatro de revista e os cabarés da vida tem lá sua culpa nessa história, viu? Numa só noite tem vedete fazendo dublagem, Carmen Miranda cantando marchinha, número de malabarismo e piada de salão, que  hoje vende melhor com nome de stand-up comedy. O cinema às vezes faz coisa parecida e se chama set piece. Isto é, uma sequência que “faz sentido em si mesma”, embora esteja compreendida num fio narrativo maior, no caso, um filme. Vai, você viu “Kill Bill” e se lembra muito bem de cada uma daquelas lutas, não lembra? Belíssimos set pieces. Quem gosta de Zhang Ymou também está bastante acostumado com suas sequências desse tipo, e estou pensando apenas em set pieces de artes marciais, para manter estreito o paralelo com “Sukcer Punch”. Mas até Godard faz isso, e todo mundo acha bonito.

Pois bem, a metáfora do vaudeville é abusada por Snyder, que transforma o hospício num cabaré e nos faz desconfiar que a Cher vai aparecer a qualquer momento pra botar ordem na casa. Só que nesse palco, cada número é um set piece de luta. E cada luta, por sua vez, um espetáculo à parte. Quer dizer,  se Russ Meyer estivesse vivo e jogasse PS3 depois de ter tomado chá de cogumelo, ele teria dirigido algo muito parecido com “Sucker Punch“.

Estamos falando de lutas ao som de Björk, no melhor estilo “Mortal Kombat“. Ou de uma batalha no meio de uma versão steampunk da Segunda Guerra Mundial. Aliás, essa é uma marca que permeia todo o filme: mérito gigantesco da direção de arte, comandada por Patrick Banister e Todd Cherniawsky (este último responsável por coisas que já tinham lá seu ar retrô-futurista, como “A Guerra dos Mundos” e o remake de “O planeta dos macacos”). Desde “9 – A Salvação” ou do chatinho “A Liga Extraodinária” que eu não via nada tão steampunk no cinema.

Fora isso, ainda temos combates medievais e espionagem futurista, numa mistura de gêneros e exagero visual que deve ter deixado até Baz Luhrmann com uma pontinha de inveja. E, preciso reparar, nossas chiquititas anabolizadas usam salto enquanto manejam katanas, pistolas e metralhadoras. Um primor. E dá-lhe montagem pra colocar tudo isso junto, ficar bonito e ainda fazer sentido.

E o que seria de um cabaré sem a música, não é mesmo? Tem Eurythmics cantado pela atriz principal, tem Queen misturado com hip-hop e, entre outras extravagâncias,  um número musical, tipo Bollywood. Deleite para tudo que é sentido. Um cabaré de sensações.

Tem um final surpreendente e anticlimático também, mas quem liga? Numa viagem dessas, o que menos importa é o destino. Fora o moralismo bobinho que tenta dar ao filme um tom palatável para as plateias americanas, ele fala numa língua que Guimarães Rosa conheceu bem: “Além de viajante, o homem é a viagem – objeto e sujeito da travessia, em cujo processo o mundo se faz”.

And the winner is..

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O que o Oscar quer dizer?*

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Temporada de Oscar sempre vem acompanhada da expectativa, consciente ou não, de que vamos conhecer “o filme do ano”. O que é, por sinal, bastante coerente, já que, para bem, para mal, o prêmio dado anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA, é o mais prestigiado, conhecido, assistido e respeitado do universo do cinema.

Mas, vale, lembrar, trata-se do prêmio dado por aquela academia, portanto, uma decisão de seus integrantes e manifestação de sua opinião. É o melhor filme para aquele grupo, contextualizado num determinado país e numa determinada cultura. Um paralelo possível pode ser feito se você pensar na Academia Brasileira de Letras. Imagine que aquele pessoal todo – e isso inclui Sarney e Paulo Coelho, lembre-se – resolva votar para premiar o “melhor livro” do ano. Bom, com certeza eles têm bagagem e vivência literária suficiente para escolher algo realmente bom, mas essa obra, como você deve imaginar, não representaria o que há de “absolutamente melhor” na produção literária daquele ano. Seria, isso sim, o melhor na opinião da ABL – o que, consideremos, é um baita de um reconhecimento, diga-se de passagem. E é assim com o Oscar.

Então, a ideia é a seguinte: se a premiação revela uma opinião, uma posição da Academia, existe um significado, uma vontade, por trás dela. Tentar entender esse significado talvez mostre o que podemos esperar da produção cinematográfica nos próximos anos ou mesmo dos próximos Oscars. Então, o que significaria se cada um dos indicados a melhor filme levasse o Oscar pra casa?

1 – O discurso do Rei – A academia sendo ela mesma

O Discruso do Rei é um filme milimetricamente feito para agradar a “velha guarda” da Academia, que é maioria por lá. Drama de superação pessoal, decupagem clássica, roteiro bem escrito, atuações naturalistas, baseado em fatos reais. Se esse filme levar o Oscar (e ele é o favorito), a Academia estará dizendo ao mundo que preza um estilo, uma marca. E que isso não muda com o tempo.

2- Minhas mães e meus pais – A Academia virando Ong

Não há dúvida de que “Minhas mães e meu pai” seja um filme divertido, bem feito, com atuações precisas e gostoso de se ver. Mas se ele ganhar, a academia estará demonstrando que se preocupa mais com causas sociais e diversidade do que com Artes e Ciências Cinematográficas. Uma causa tão louvável quanto incoerente…

3 – A Origem – Os nerds dominaram o mundo

“A Origem” vem na linha de “Matrix” e outros filmes feitos para serem inteligentes, que enchem os olhos com efeitos especiais e a cabeça com teorias malucas. Sua vitória significaria uma aposta da academia no cinema de entretenimento. E indicaria que a turma de George Lucas finalmente tomou conta daquilo lá…

4- O Vencedor – A jornada do herói termina no Oscar

Existe uma “esturtura”, um esqueminha, pra se escrever roteiros. Ele produziu vencedores de Oscars ao longo dos anos e pode fazer mais um com “O Vencedor”. Esta seria outra escolha conservadora da academia, apontando em direção ao seu “estilo consagrado”. Só que aqui, a direção, a produção e o papel da imagem perdem muito em importância para o roteiro e as atuações, o que não ocorre em “O Discurso do Rei”.

5 – Cisne Negro – A Academia quer mudança

O filme é uma imensa alegoria, contada de forma não muito convencional e com artifícios inventivos. A escolha de “Cisne Negro” como melhor filme, indicaria que a Academia deseja por mudança, ruptura. Por isso mesmo, é bastante improvável…

6 – 127 horas – A Academia quer ser ela mesma sem ser sempre a mesma

“127 Horas” parece inovador, revolucionário, transgressor, original… Parece. É o estilão acadêmico que a gente conhece bem, só que de roupa nova. Essa escolha mostraria que a academia até topa dar uma recauchutada nas suas fórmulas, desde que elas não percam sua essência.

7 – A Rede Social – A Academia é coisa de macho

Essa escolha indicaria que a Academia curte filmes feitos para brancos, americanos, heterossexuais, que assistem Super Bowl e gostam de cerveja. Do roteiro à montagem, tudo aponta – falicamente – pra isso. O que não faria do filme algo ruim: é dos melhores do ano. Mas um filme, como essa lista aqui indica, pode causar bem mais do que exclamações de “porra, meu, foda pra caraaaaaaaalho…”

8 – Toy Story 3 – A Academia quer novos meios


Escolher “Toy Story 3” como melhor filme indicaria que a Academia está interessada em novos meios e novas linguagens. Também indicaria o vencimento de um preconceito contra as animações que existe desde sempre, o que as elevaria ao status – só não reconhecido pela Academia – de “filme sério”.

9 – Bravura Indômita – A Academia é saudosista

Premiar um western, ainda que numa versão toda trabalhada no autoralismo dos Coen, só indicaria uma coisa: a Academia morre de saudade de sua época de ouro. E acha que cinema bom é o daquele tempo.

10 – Inverno da alma – A Academia é indie

Um “filme de festival” que caiu no gosto da Academia. Sua escolha para filme do ano indicaria que os acadêmicos querem se desvencilhar da ideia de que suas escolhas depdendem muito do que o público e o mercado pensa. O que, é claro, não é verdade…

E agora, é esperar pra ver o que a Academia tem a nos dizer…

* Post ilustrado com as obras de Alex Eylar, um carinha de 21 anos que manda muito bem no Lego…

Nesun dorma

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Vocês lembram quando eu falei da ópera sobre a vida da Anna Nicole Smith? Ó, pra quem duvidava, estreou em Londres essa semana:

Tô pretérito mais que perfeito. Geraldo, prepara o táxi, nós vamos pra Londres!

De como o Cisne Negro matou o artista*

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Existe um mito muito antigo, do tempo da renascença, sobre os artistas. Médiums da Estética, esses gênios seriam capazes de, por meio de inspiração, transcender a técnica para brindar a humanidade com uma fagulha do divino. Levado a sifilíticos e tuberculosos ápices em tempos de romantismo, o mito meio que saiu de moda à base de muita ironia inglesa e materialismo histórico. E aí, para bem, para mal e desespero da ministra da cultura, o artista virou um fingidor, uma antena da cultura. Mito reescrito.

Aí vem o cinema, techné surgida lá quando essa mitologia caía por terra, para contar uma história que, não bastasse ter um balé de Tchaikovsky (dos mais descabelados dos românticos!) como pano de fundo, ainda traz à baila justamente o conflito do artista para atingir a perfeição, a transcendência. Ideia maluca de Aronofsky com seu Cisne Negro (Black Swan, 2010), sucesso retumbante dessa temporada.

Retumbante e confuso. Poucas vezes um filme teve sinopses tão diferentes entre si. Porque crítica, especialmente no Brasil, varia mesmo. Criticar cinema, por aqui, é fazer a criança mimada e falar “gostei” ou “odiei”. E gosto, a gente, sabe, cada um tem o seu e lamenta o do outro. Mas sinopse, ao que parecia, era meio consensual: um resuminho da história e o assunto do filme. E vem Cisne Negro com sinopses  que falam sobre “obsessão pela perfeição”, sobre a “competição entre bailarinas”, sobre “retrato dos bastidores do mundo do balé”, sobre “repressão feminina”.  Não há um consenso sobre o assunto do filme e ninguém parece ter ligado pra essa aparente confusão: estava todo mundo ocupado criticando o hype ou exaltando-o. Então aproveito para engrossar o coro dissonante com minha semi-sinopse ali de cima e incrementar dizendo que, aos meus olhos, o filme é uma ilustração do tal “mito do artista” levado ao extremo.

Aronofsky, aliás, adora essa coisa de colocar seus personagens no limite. Foi assim com o delírio expressionista em “Pi”, foi assim com cada personagem de “Requiem para um Sonho”, foi assim com o amor eterno (interminável?) de “A fonte de Vida”. Mas em “O Lutador”, que eu aliás já comentei aqui, a coisa mudou um pouquinho. Aronofsky convida Mickey Rourke para o papel principal, borrando a linha entre criador e criatura. Vencedor do Globo de Ouro de melhor ator naquele ano e indicado ao Oscar, Mickey Rourke e Randy, seu personagem, são praticamente a mesma pessoa. Aronofksy não se satisfaz mais em levar personagens ao limite: agora os atores têm que ir junto.

E aí entra Natalie Portman, merecida vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar por Cisne Negro. Aronofsky faz a atriz, já magra, perder dez quilos. Aprender balé o suficiente para dançar quase sem dublês – o que o obriga a manter a maioria dos planos dos ombros para cima, evitando denunciar uma eventual falta de técnica. Aliás, o instrutor de balé com quem a atriz trabalhou antes do filme é pai de seu futuro filho. Embora, ao contrário de Rourke, a performance aqui seja mais artística do que auto-biográfica, Portman precisa, literalmente, dar o corpo e o sangue pela personagem. Qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência?

Pra completar, vem o diretor e joga a câmera literalmente em cima da criaturinha frágil que fez surgir. Câmera na mão, faz tempo, é um artifício bastante usado – e até meio abusado – para dar efeito de “realidade”. Mas aqui, a super 16 ora em vídeo, ora em filme, é usada para sugerir intimidade. Uma coisa meio Vintenberg. Sabe quando algo te incomoda e você não sabe bem o que é, até perceber que é a presença insistente de alguém? É exatamente a sensação causada pela claustrofóbica fotografia que não sai de cima, dos lados, de debaixo de Nina, a personagem principal, nem pra ela ir ao banheiro. Sério.

E no banheiro (ou no quarto, ou na sala de ensaio), Nina pratica os mais diversos atos de auto-mutilação. Um festival de bizarria para deixar muito cineasta trash com olhos cheios e me fazer desconfiar que Aronofsky deve ter frequentado muita grindhouse por aí. Com ecos ressoando Cronemberg, terror japonês e qualquer coisa que Robert Rodriguez assistia de madrugada. Realidade aqui passou longe. Alucinação ou não, muita coisa não se sustenta logicamente e isso só reforça o fato de que a câmera na mão é uma opção estilística para aproximar o espectador da mente da protagonista, mais do que da realidade ou da verossimilhança. É o expressionismo, de novo, influenciando Aronofsky.

A hip-hop montage, abandonada desde “Requiem” reaparece aqui e ali – embora com menos vigor –  principalmente para representar a repetição e a persistência. Numa das cenas mais interessantes, a sapatilha de Nina golpeia o chão (e o desenho de som aqui é impressionante) repetida e insistentemente. É animador, enfim, ver que Aronofksy tirou o estilo da geladeira.

Mas vamos ligar as pontas – algumas ficam soltas em Cisne Negro, aliás – e voltar ao mito do artista. Nina é uma belíssima, soberba ilustração desse mito. Torturada por todos os lados (o que inclui uma mãe que faz Bernarda Alba parecer a Noviça Rebelde), sofrida, entre o divino (transcendental) e o humano (carnal) , entre o apolíneo e o dionisíaco, entre o cisne branco e o negro, ela precisa se superar, se consumir, para que a arte como catarse possa ser completa. É o nascimento da tragédia. E o mito do artista é uma leitura possível e interessante de Cisne Negro.

Só que por trás de tudo existe um diretor sádico, irônico, infernizando seus personagens-atores e o universo que eles habitam. Este, tão comprometido com sua arte quanto Nina, faz miséria para retratar o mito do artista e, se lhe torce a perna ou arranca pedaços, deve rir de canto de boca. Todo o trash no meio de uma narrativa que se traveste de lírica não é apenas para desconsertar plateias desavisadas. É o escarninho de um diretor que busca a sintonia com seu tempo ao denunciar o absurdo de sua obra e os pedaços de outras que a compõe. É a desmistificação do artista através da própria exaltação de seu mito. Nenhuma novidade, alguém disse. Mas vestido de cisne, fica danado de bonito.

* Post ilustrado com os brilhantes cartazes de inspiração construtivista e art-déco feitos pela agência londrina LaBoca para o filme.

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