Uma mitologia almodovariana

Deixe um comentário

Almodóvar não poderia ter acertado mais ao escolher o nome “El deseo” (“O Desejo”, em português) para sua produtora. Está pra nascer um diretor cujo o tema das obras seja tão centralmente o desejo: sexual, doentio, inocente, infantil ou mesmo sanguinário, é de desejo que fala cada um de seus filmes (vale lembrar, nesse sentido, o excelente “A lei do desejo”). E, sendo o desejar humano algo que pode se considerar “perigoso”, as tramas sempre resvalam para aquele espaço descontrolado e meio animalesco da essência humana, onde o instinto e o tesão parecem valer mais do que a lei e a cultura.


É o ponto em que Almodóvar encontra Hitchcock, diretor a quem não se cansa de reverenciar e cujos filmes ecoam insistentemente na obra do espanhol. Em “A Pele que Habito” não foi diferente. Ou, se foi, é porque Hitchcock está ainda mais presente, levando o suspense a um extremo que vai fazer os amantes do gênero se refestelarem com este festim diabólico.


É difícil fazer uma sinopse de “A Pele que Habito” sem entregar alguma coisa sobre o filme. Tamanho é o suspense, que a nova produção de Almodóvar pode ser comparado aos primeiros filmes de Shyalaman no sentido de que qualquer spoiler pode tirar toda a graça da produção. Sendo assim, basta dizer que o filme conta a história de, Robert Ledgart (Antonio Banderas), um prestigiado cirurgião plástico espanhol que tenta criar uma pele artificial perfeita para sua esposa, Laura (a belíssima Elena Anaya) deformada por um acidente de carro.


As cores saturadíssimas, as mulheres almodovarianas, a latinidade, está tudo lá, como convém a um legítimo Almodóvar. Levar a trama para Toledo, a famosa cidade medieval do interior da Espanha, torna o filme ainda mais atraente, misturando novo e velho num cenário exótico. Exotismo, aliás, transborda em cada locação, como a mansão de Robert, adornada com gigantescos nus fazendo contraponto a um mobiliário moderno, que poderia estar num loft do Soho. Uma das cenas, rodada no jardim desta casa, todo adornado com velas para uma festa, cria uma imageria que faz lembrar Bosch e, com certeza, deve ficar na memória de muitos cinéfilos.


A atuação do elenco também deve ser destacada, especialmente as de Anaya, Banderas e Marisa Paredes, que vive Marília, a governanta da casa. Precisas em criar nuances que estão lá desde o começo, mas que o público só perceberá na medida em que o roteiro (adaptado do romance “Tarântula”, de Thierry Jonquet) as contar, cada um desses personagens desabrocha numa espiral de tirar o fôlego. Tudo por meio de uma montagem que viaja no tempo sem fazer muita cerimônia.


Mas é realmente a direção de Almodóvar que faz de “A Pele que Habito” um dos filmes mais interessantes do ano. Criando o que pode ser considerado uma mistura de “Splice – A nova espécie” e “O segredo dos seus olhos”, o diretor acabou por tecer uma “mitologia” que parece estar presente em toda sua obra, mas que nunca tinha sido trazido à tona de forma tão elucidativa. De novo, não é possível falar muito sem tirar do filme o brilho da surpresa, mas digamos que, além da excelente trama de suspense, o filme se afirma também como um ensaio sobre o desejo em si, esta matéria prima para o cinema de Almodóvar. Um desejo que transcende corpo, gênero, ciência, cultura e a própria noção de ser humano.

O que aprendi com a Mostra

5 comentários

Daí que eu resolvi tirar férias pra ir à 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E eu moro em São Paulo. “Mas você não vai viajar nas férias?”, perguntaram-me diversos pares de olhos arregalados. Não, eu não viajei, não no sentido estrito. Eu mergulhei numa maratona que terminou anteontem e que só agora me permitiu renovar as energias pra vir aqui escrever.

Eu não me arrependi da ideia das férias, já adianto. Mesmo estando mais cansado do que antes de tirá-las. Mesmo descobrindo que as pessoas de gosto semelhante ao meu não se parecem em nada comigo. E inclusive sabendo que consegui ver menos filmes do que eu planejava – era isso ou estafa.

Mas, para a próxima vez que eu for fazer isso, – porque sim, esse gato se escaldou em água fria e continua corajoso – vou prevenido, com umas liçõezinhas que eu aprendi. Tomei a liberdade de dividí-las com vocês…

1 ) Velhinhos fazem mais barulho que Transformers – Não, não me olhem com essa cara de horror. A maioria dos idosos no evento não tem nada a ver com o velhinho sábio, talvez rabugento, de alguma forma debilitado e com uma ternura nos olhos. Não é o velhinho a quem você gostaria de ceder o assento no metrô. Não. São umas pessoas que entram berrando na sessão, pra que todo mundo ouça a voz da sabedoria bradar o filme que, pra elas, foi o melhor da Mostra (isso no primeiro dia).  Pessoas que cumprimentam e puxam papo com qualquer um que se sente perto (ou nem tão perto, porque o lance parece ser gritar), dizendo: “Dei entrevista no Jô ontem.” Gente que avisa pra sala inteira que é bróder do Cakoff. Que briga com a bilheteria porque tem certeza que o filme a ser exibido é tal e não o que o bilheteiro diz. “Esses filmes de hoje não são lá muito bons, não! Imagina, eu cresci vendo De Sica, Fellini!”, gritava um deles. Pois é, e se nem assim você aprendeu a ter um mínimo de educação e humildade, tio, vai ver Michael Bay que é barulhento que nem o senhor…

2) A crítica está crítica – Nunca fui muito com a cara da “crítica” de cinema no Brasil. Entre aspas porque, de cara, já discordo do que o nome sugere. Minha visão: a função do crítico é educar o público para que ele, munido das referências e argumentos mínimos, possa formular suas próprias impressões e, consequentemente, seu gosto ou desgosto sobre um determinado filme. Mas a minha visão é míope e estrábica (sério!), então ignorem. Crítico que é crítico, no Brasil, em primeiro lugar, faz questão de dizê-lo. Não é uma questão de amar o cinema e curtir seus momentos com essa arte. É uma questão de contar nos dedos, no Facebook, no Twitter, em Molekines e onde mais for possível, o número de filmes vistos, competindo sempre para que ele seja maior que o dos colegas. É se enfiar no cinema até o último minuto, mesmo sem se aguentar de pé, e contar pra geral que você tá lá, firme e forte  (“olha, um repórter!”). É ver um filme que você achou um saco, mas, sabendo que a maioria também deve ter achado, já adiantar que se trata de uma “puta obra” (porque crítico que é crítico é descolado e fala “puta obra”) e desandar a pinçar as indiscutíveis qualidades artísticas do filme, até pra ver se elas superam a chatice óbvia do mesmo.

Enfim, ser crítico é ser alguém que, ao tratar a Mostra como se fosse o Pan, está mais preocupado com o quadro de medalhas do que com a diversão de praticar o esporte que ama e incentivar quem nunca competiu a dar seus primeiros passos. E, de novo, me surpreende que alguém que veja tantos filmes (e tão bons!) não aprenda com eles o mínimo necessário para ser uma pessoa melhor que, sei lá, o Galvão Bueno…

3) O cinema pode até ser arte. Mas ninguém quer saber de tratá-lo assim – Você já viu um crítico de arte dando nota pra um quadro? Um connoisseur usando palavras como “besteira” ou “babaca” para falar de uma bienal ou, menos ainda, de um romance? Até houve uns críticos aí que meteram o pau num tal de Monet e sua patota, chamando sua arte, na época tão descabida, pelo nome de “impressionismo” (era pra ser pejorativo). O mesmo vale pro cubismo, pro fauvismo, etc… Acontece que, daí pra frente, a crítica de arte aprendeu a ser mais comedida, a procurar entender melhor a arte que criticava, até pra não falar besteira. Ou não.

Até porque, andei observando: são raros, quase nulos, os críticos de cinema que põe sua arte para conversar com as outras. Dão-lhe o nome cafona de “sétima arte”, mas cagam solenemente pras outras seis. Pra que relacionar o cinema com pintura, escultura, teatro, literatura? Bobeira, vamos falar do que a gente entende e trabalhar para que continuemos sendo os únicos a entender, para garantir o ganha-pão. Não tá fácil pra ninguém.

Cena de “Desapego”, de Tony Kaye

Que o cinema é arte, é consenso, ninguém parece ter dúvida e todo mundo adora dizer. Mas então, amiguinhos, vamos brincar de tratá-lo como tal? Quando fui assistir “Desapego”, filme do Tony Kaye, numa sessão dessas de manhã, onde a maioria do público eram críticos e estudantes de cinema, fiquei até com um pouco de vergonha de ter adorado o filme. Para mim, eu tinha acabado de ver um longa muito bom, que reunia algumas das características que considero mais interessantes numa obra daquele tipo. Se fosse escrever um texto sobre ele, dissecaria estruturalmente essas características e deixaria para você, que resolvesse ler, decidir se o filme era bom, ruim ou qualquer coisa. Mas os meus colegas de sessão, munidos de anos de experiência e muitas horas em salas de projeção já começaram a esbravejar ali mesmo que era uma “porcaria”. Pensei comigo:”entendo bosta de cinema, mesmo”… Não é que o dito cujo foi um dos premiados pelo público? Devo lá ter meus palpites…

É aí que a galera da sessão da manhã dá aquele sorrisinho esperto, quase irônico. Aquele que diz pra gente que eles, possuidores que são de tão raro e intenso conhecimento, tem mais capacidade de julgar do que essa massa disforme, o público. Eles, muito mais uniformes, repetem a premiação de um outro festival maior: e o prêmio da crítica vai pra um filme que deixaria a maior parte do público entediada e pronto, acabou. Jurado de miss e “crítico de cinema”: você nunca vai entender a cabeça deles. Concurso de miss é arte, aliás?

O dilema aqui parece bem simples: educar o público o tornaria capaz de formar opinião tanto quanto os críticos. Mas poder é gostosinho e ninguém quer abrir mão dele. Então deixa eu ir ali ser formador de opinião e chamar um trabalho que eu nunca fiz de “besteira”. Volto já…

4) Tá faltando pipoca na vida da galera – Cinéfilos do meu coração: se tem uma guria mexendo num tablet duas fileiras a frente, sem fazer barulho, não há porque você berrar pra ela desligar no meio da sessão. A não ser que você esteja prestando mais atenção nela do que no filme. Nesse caso, você é ainda mais idiota do que o grito sugeriu. Assim como toda arte, cinema também é diversão. E se você não concorda, certeza que o problema é falta de pipoca…

Obra de Cristopher Wool

Então é isso. Mostra que vem, talvez eu esteja lá de novo. Mas já vou preparado, com fones de ouvido pra ignorar a falação, com livros pra ocupar o tempo e programações alternativas para me lembrar que, apesar de gostar da mesma coisa que a maioria das pessoas que estão lá, sou muito, muito diferente delas. Tanto que, te digo, não fiz um amigo sequer durante toda a Mostra. E olha, ainda bem…

Pânico está de volta para mostrar como se faz

Deixe um comentário

11 longos e sangrentos anos. Foi o tempo que o público teve que esperar até que Wes Craven recobrasse o ânimo – e recebesse uma proposta polpuda o bastante – para retomar sua franquia Pânico (Scream), que tanto fez a alegria da galera lá pelo fim dos anos 90. E se você é da turma que adorava ver Sidney quase-morrendo enquanto dava uns berros no cinema, pode comprar a pipoca e se jogar: Pânico 4 (Scream 4, 2011) deve compensar a espera.

Craven é espertinho. Vamos admitir: o cara, que já tinha uma bagagem boa, revolucionou o gênero suspense/terror lá pela época em que Pânico surgiu (1996). E fez isso de uma forma bem divertida: primeiro, retirou do filme todo o aspecto trash que era imperativo em produções que iam da série “Sexta-feira 13” até coisas como “A volta dos mortos-vivos”. Não que o trash fosse ruim. Mas era meio indigesto pra um público que, até então, ia ao cinema pra ver “O Rei Leão” e “Gasparzinho”. Foi preciso menos intestinos de mentirinha e mais sustos de verdade, além de uma produção minimamente cuidadosa, pra fazer tudo parecer bem feitinho. E deu certo. Pânico virou filme que lotava cinema. Aliás, que passava no cinema, bem diferente da maioria de seus companheiros de gênero dos anos 90.

Aí veio a segunda sacada: sabendo que um assassino vestido com uma capa e uma máscara era algo um tanto ridículo, principalmente em se tratando de um assassino cuja arma principal é um faca, Craven e seu roteirista, Kevin Williamson, fizeram como ele e vestiram a carapuça, assumindo esse ridículo. Fizeram de Pânico um Shrek dos filmes assustadores – muito antes de Shrek existir. E desde que a Nouvelle Vague ensinou Hollywood a brincar com gêneros, foram poucas as vezes que isso deu tanto certo quanto na (até então) trilogia Pânico. A metalinguagem foi tão bem sucedida que passou da simples referência até a literal produção de um filme como mote do roteiro de Pânico 3. Tudo isso numa série em que o assassino faz questão de perguntar às vítimas: “Qual o seu filme assustador predileto?”

Só que Pânico 3, em 2000, parecia ser o fim da série. O próprio Wes Craven afirmou veementemente que não faria continuações. Até que no ano passado surgiram os rumores: Pânico 4 estava sendo produzido. E o desafio era grande: há 11 anos atrás, a franquia era o supra-sumo em seu gênero mas, agora, depois das adaptações do terror japonês, da série Jogos Mortais e da Internet (nem DVD existia direito quando o primeiro Pânico chegou às telonas!), a coisa seria bem diferente. Principalmente se levarmos em conta que a franquia “Todo mundo em pânico”, sátira escrachada baseada nos filmes de Craven, é tão famosa quanto os próprios filmes. Ou mais.

Pois bem. Craven manteve-se fiel à sua fórmula e, mais uma vez, assumiu o ridículo, por assim dizer, do que estava fazendo. Como um dos personagens diz: “A tragédia de uma geração é a piada da geração seguinte”. E hoje tem marmelada? Tem sim, senhor! O filme já abre criticando seus “concorrentes” e deixando claro a que veio: o bom e velho Pânico está de volta. E, se ele não é seu filme assustador predileto, vai fazer de tudo para ser, alternando cenas genuinamente desesperadoras e apreensivas com momentos constrangedoramente absurdos.

É preciso ter pelo menos uma pequena noção dos filmes anteriores para entender tudo que acontece em Pânico 4: Sidney Prescott (a mesma Neve Campbell do primeiro, segundo e terceiro filmes) volta à Woodsboro, sua cidade natal, para lançar o livro em que conta como sobreviveu à tragédia que matou basicamente todo mundo que ela conhecia quando jovem. Além dela, sobraram sua amiga Gale (Coutney Cox) e o agora xerife Dewey (David Arquette). E é claro que se Sidney volta, um novo assassino vem atrás e daí pra frente não é preciso conhecer a franquia para aproveitar: é o típico filme de serial killer, no estilo eternizado, justamente, pela série Pânico.

Para quem sente saudade dos anos 90, a fotografia de baixa profundidade de campo e iluminação sombria, além da falta de filtros na contra-luz, vai trazer uma sensação nostálgica de estar assistindo ao filme num VHS, como é bem provável que você tenha feito em algumas das três primeiras versões. Mas pára por aí. Como diz o slogan do filme, “Nova década, novas regras”. E dá-lhe clichês fresquinhos a serem explorados, indo da câmera-amadora-na-mão até o filme-dentro-do-filme, passando por uma piadinha tão boa quanto infame com Robert Rodriguez.

Pânico 4 vem para mostrar que faz parte de uma série que – quem diria! – virou cult. Mérito de Craven e Williamson, por refrescarem o gênero que se propuseram a trabalhar, dando-lhe nova cara. Mas também vem para divertir, te deixando pra cima até com a trilha dos créditos finais, ainda que sendo um filme de terror sobre assassinatos. Mérito de seus atuais “concorrentes” de gênero, que, no fim das contas, só servem mesmo para chacota.

Assista ao trailer

Sucker Punch é uma viagem

1 Comentário

Quando um filme começa com cortinas de veludo vermelho que se abrem, meio vaudeville, e você espera que o que vem em seguida seja muito diferente disso, das duas uma: ou você é chato ou o é desinformado. Pode ser que seja os dois e, nesse caso, vai chafurdar coisas como feminismo (ou machismo), auto-superação e até psicanálise em “Sucker Punch – Mundo Surreal” (Sucker Punch, 2011).  Nenhum problema, é claro. Exceto que vai achar o filme uma requintadíssima porcaria. Agora, se você é do tipo que poderia ter frequentado o Cassino da Urca na década de 40 ou cresceu jogando video-games, – e eu juro que a relação entre as duas coisas é mais estreita do que pode parecer – então prepare-se para dar pasto pros olhos e pra cabeça.

Desde “Madrugada dos Mortos”, pelo menos, Zack Snyder vem mostrando que está, sim, de brincadeira. Não é cinema pra você dizer: “profundo, interessante, retrato preciso e inspirador de tal coisa”, enquanto alisa o bigode. É pra você sentir e pronto, pra ser, literalmente, sensacional: mais ou menos o que a patota do Gombrecht chamaria de sensorial. E “Sucker Punch“, como o nome já sugere, vai por esse caminho com força. É a primeira vez que Snyder escreve um roteiro original.  Em parceria com Steve Shibuya, ainda por cima, cujo sobrenome nipônico me faz pensar que sim, a mente da japonesada é insana.

A trama se emaranha em torno de uma garota internada injustamente num hospício (que lembra bastante aquele de “Ilha do medo”) e os subterfúgios imaginários que ela inventa para driblar os problemas com os quais se depara. A vida lhe dá limões, ela faz uma limonada, sabe? Mas fique tranquilo: nada parecido com “Onde vivem os monstros”. Nossa heroína, Bady Doll (Emily Browning), usa maria-chiquinha e figurino ninfeta colegial meets Burlesque, o que por si só é mais divertido do que um garoto correndo por uma floresta, vestido de bicho de pelúcia. Além disso, ela tem como companhia as outras gurias do hospício, todas bem decotadas e safadinhas, além de prontas para lutar e quebrar tudo no tal mundo imaginário que Baby Doll cria.

Mas eu comecei falando do vaudeville e não voltei a ele. Perdão. Hoje em dia as linguagens são assim, fragmentadas mesmo. E o teatro de revista e os cabarés da vida tem lá sua culpa nessa história, viu? Numa só noite tem vedete fazendo dublagem, Carmen Miranda cantando marchinha, número de malabarismo e piada de salão, que  hoje vende melhor com nome de stand-up comedy. O cinema às vezes faz coisa parecida e se chama set piece. Isto é, uma sequência que “faz sentido em si mesma”, embora esteja compreendida num fio narrativo maior, no caso, um filme. Vai, você viu “Kill Bill” e se lembra muito bem de cada uma daquelas lutas, não lembra? Belíssimos set pieces. Quem gosta de Zhang Ymou também está bastante acostumado com suas sequências desse tipo, e estou pensando apenas em set pieces de artes marciais, para manter estreito o paralelo com “Sukcer Punch”. Mas até Godard faz isso, e todo mundo acha bonito.

Pois bem, a metáfora do vaudeville é abusada por Snyder, que transforma o hospício num cabaré e nos faz desconfiar que a Cher vai aparecer a qualquer momento pra botar ordem na casa. Só que nesse palco, cada número é um set piece de luta. E cada luta, por sua vez, um espetáculo à parte. Quer dizer,  se Russ Meyer estivesse vivo e jogasse PS3 depois de ter tomado chá de cogumelo, ele teria dirigido algo muito parecido com “Sucker Punch“.

Estamos falando de lutas ao som de Björk, no melhor estilo “Mortal Kombat“. Ou de uma batalha no meio de uma versão steampunk da Segunda Guerra Mundial. Aliás, essa é uma marca que permeia todo o filme: mérito gigantesco da direção de arte, comandada por Patrick Banister e Todd Cherniawsky (este último responsável por coisas que já tinham lá seu ar retrô-futurista, como “A Guerra dos Mundos” e o remake de “O planeta dos macacos”). Desde “9 – A Salvação” ou do chatinho “A Liga Extraodinária” que eu não via nada tão steampunk no cinema.

Fora isso, ainda temos combates medievais e espionagem futurista, numa mistura de gêneros e exagero visual que deve ter deixado até Baz Luhrmann com uma pontinha de inveja. E, preciso reparar, nossas chiquititas anabolizadas usam salto enquanto manejam katanas, pistolas e metralhadoras. Um primor. E dá-lhe montagem pra colocar tudo isso junto, ficar bonito e ainda fazer sentido.

E o que seria de um cabaré sem a música, não é mesmo? Tem Eurythmics cantado pela atriz principal, tem Queen misturado com hip-hop e, entre outras extravagâncias,  um número musical, tipo Bollywood. Deleite para tudo que é sentido. Um cabaré de sensações.

Tem um final surpreendente e anticlimático também, mas quem liga? Numa viagem dessas, o que menos importa é o destino. Fora o moralismo bobinho que tenta dar ao filme um tom palatável para as plateias americanas, ele fala numa língua que Guimarães Rosa conheceu bem: “Além de viajante, o homem é a viagem – objeto e sujeito da travessia, em cujo processo o mundo se faz”.

(A)versões

Deixe um comentário

Tropa de Elite 2 bombando nos cinemas e tudo e tal… E ninguém lembra do “rap das armas”, sucesso absoluto do primeiro filme. Pois bem. Na Alemanha (onde, aliás, o filme foi vencedor do festival de Berlim), a música ganhou até versão e, ó, vou te dizer, sobra bizarria. Põe na tela:

Oi? Paprika? Pimentões? Tudo bem, isso aí é normal. Duvida? Então confere esse inusitado encontro de Família Adams, Carrapicho e feirinha da Liberdade:

E você achando que já tinha visto de tudo, hein?

(dica do Rafael)

Pavoneando

1 Comentário

Assim, releitura de clipe de música de viado é coisa que todo mundo já tá cansado de ver. Aqui mesmo, no O&A, você já viu um tanto disso. Teve até um brasileiro pagando mico. Mas o que vocês estão prestes a ver leva a coisa a um nível completamente novo. É dadaísmo com “D” de “dar”. É bichice surrealista. É um encontro explosivo de Katy Perry, Corbin Fisher, David Lynch, Joãozinho Trinta e fauna silvestre. Assista, por sua conta e risco. E prepare-se: da metade pra frente, a coisa vai pra Twilight Zone…

Pra nerd ver

8 comentários

Fim de semana passado estreou “A Origem ” (Cristopher Nolan, 2010) nos cinemas brasileiros. Quem tem um mínimo de tino pras coisas já tinha notado: o filme seria sucesso. Do roteiro à distribuição, tudo é planejado pra ser grande, e assim são os retornos.

O engraçado é que no deslumbre da coisa, não demora pra todo mundo sair chamando o estrondo comercial de obra prima, dizendo que o filme muda a vida das pessoas pra sempre e que se trata de uma revolução cinematográfica. Normal. Essas mesmas pessoas estavam gritando coisas parecidas com o lançamento de Avatar e, antes disso, foi Matrix. Cristopher Nolan, competente que é, sacou a fórmula mágica pra criar “revoluções cinematográficas” e colocou na tela um filme bem acabado, divertido e impressionante. Pra nerd ver. E, como se pode esperar de uma fórmula, deu super certo. Até porque, desde que os nerds dominaram a cena pop cultural no mundo, agradá-los é agradar a todos. O nerd, quem diria, virou formador de opinião – tenha base pra isso ou não, bastam os óculos de armação preta ou a a blusa de lã xadrez.

Pensando nisso, o O&A agora traz essa receita pra você. Isso mesmo! Mostraremos como fazer um sucesso instantâneo com poucas dicas e muitos milhões de dólares. Acompanhe:

1) Referências: Você já viu nerds conversando sem citar outras obras/pessoas/programas/épocas? Provavelmente não. Se você fizer algo realmente inovador e que rompa com o que veio antes – referindo-se a isso de forma crítica – vão te achar chato. A idéia aqui não é pensar. É acessar dados num HD. No caso, o cérebro de nossos intrépidos espectadores. Poranto, faça a personagem que desenha labirintos se chamar Ariadne. O carinha ali que leu mitologia grega vai ficar extasiado quando notar que é o mesmo nome da amada de Teseu que, veja só, livrou-o do labirinto do Minotauro. É nessa hora, do “insight” forjado, que gritarão: “gênio!”. Use os figurinos parecidos com o de Matrix. Todo mundo vai achar que existe uma referência ao “conceito da obra” – que, repare, é exatamente este aqui. Enfim, use teorias filosóficas, sociológicas, antropológicas e várias outras que os nerds só tenham lido de relance. Ou ouvido falar. Dessa forma, seu filme parecerá genial e ainda trará nas costas o “mérito” de falar sobre assuntos “realmente profundos e complexos” (de maneira simplista e superficial, claro). Pouco importa que livros falem sobre essas coisas há mais de 2 mil anos e ninguém tenha se dado ao trabalho de ler…

2) “Filme para todos” : Foi-se o tempo em que os nerds eram sujeitos isolados e esquisitinhos. Hoje em dia, eles tem dinheiro, namorada (o) e, se bobear, até família. Então não faça um filme pra eles verem sozinhos. Não vai ter graça e não vai render. Enfie, por exemplo, uma cena de beijo, ainda que ela não faça o mínimo sentido no roteiro. Se você for espertinho, fará inclusive um dos personagens notar a impropriedade da ação no contexto. O público irromperá em gargalhadas, ainda que Zorra Total seja mais engraçado.  Também não podem faltar: dramas familiares, tensão erótica, crise existencial, romantismo, personalidade perturbada e um objetivo a ser alcançado. Quanto ao herói, ele deve ter que abrir mão do que quer para ter o que precisa. Desde “A jornada do herói”, todo roteirista (feijão com arroz) sabe disso. Como misturar tanta coisa? No protagonista. Ainda que não faça sentido, vão dizer que seus personagens são profundos e humanos e você agrada toda a entourage do nerd de uma tacada só.

3) Elenco “muderninho”: Como escolher o elenco? É bastante simples. Seguindo as premissas da dica 2, basta trazer alguém com prestígio na Academia de Hollywood (indicado ou ganhador do Oscar) e misturar com atores emergentes que fizeram outros filmes adorados por nerds. É importante que alguns deles sejam desconhecidos do grande público e que todos tenham sex appeal. Seu filme vai parecer “muderninho” por causa dos novos atores, mas também vai chamar atenção dos nerds mais velhos, aqueles que gostam de “atores de peso”. Se o currículo desses atores trouxer referências (vide dica 1) que colaborem para a construção de seus personagens (como acontece com Leonardo DiCaprio, que acaba de fazer “Ilha do medo”), melhor ainda. As cabecinhas da sua platéia se sentirão ainda mais inteligentes na medida em que fizerem ligações que você sequer imaginou.

4) Crie uma teoria complicada: Sabe as referências lá da dica 1? Pois é, elas são matéria prima para que você crie uma teoria complicada o bastante pra que as pessoas possam ficar pensando no seu filme e criar coisas assim. Muita atenção a essa dica porque ela é decisiva para o seu sucesso. Nerds adoram falar muito tempo sobre a mesma coisa. Principalmente se essa coisa puder se confundir com a realidade e servir de pretexto para abrir cogitações que vão da teoria da conspiração ao nonsense. Tá aí Lost, que não nos deixa mentir. Star Wars é assunto nerd há mais de 30 anos. E se você criar uma teoria complicada na medida certa para isso, com brechas nos lugares certos, vai dar pasto pra uma boiada louca pra rulminar capim gordura. Faça o filme de trás pra frente, crie tramas paralelas, matenha um segredo oculto até o final, use de relativismo cronológico, universos alternativos ou tudo isso junto. Não importa. Se render assunto, rende grana, reconhecimento, publicidade gratuita, espaço na mídia e histeria coletiva. Epic Win. Apenas tome cuidado pra não pesar a mão: se você exigir que o público pense fora da sua zona de conforto, estará se condenando a um Epic Fail.

5) Efeitos visuais acachapantes: Se existe um ponto onde a inovação é permitida, então é este aqui. Crie computadores novos, softwares de renderização, câmeras espetaculosas, imagens em 3D. A maioria dos nerds trabalha em profissões relacionadas à tecnologia e adorarão explicar pra quem está em volta como aquela animação levou horas pra ser renderizada ou como aquele tipo de câmera só pode ter sido gerada por computador. Além disso, se você puder pagar por algo que realmente seja novo, seu filme se torna automaticamente uma revolução, uma ruptura, uma coisa jamais vista na face da Terra e do universo. Ainda que, em essência, ele seja tão novo quanto andar pra frente e ter ideiais nobres.

6) Final aberto: Você tornou a cabeça do seu público tão fértil que, em se plantando, tudo dá – inclusive abobrinha. Não vai querer jogar cal na lavoura com um final que explique tudo, não é mesmo? A “Obra aberta” agora é pop e nem o Oscar se incomoda mais de ter que tirar os neurônios do stand by pra imaginar o que pode ter acontecido. Os personagens estão vivos ou mortos? Ela entrou ou saiu? Será que o herói sobreviveu? Nosso mundo é real? Deus existe? Cada uma dessas perguntas rende um tópico nos foruns internet afora e nas mesas do boteco mais próximo. Esse é um combustível quase inesgotável para a dica 4 e, dependendo do quão aberto for seu final, você pode até considerar uma sequência. As sequências são o momento em que a glória se consolida e os nerds vão ao Nirvana: sua masturbação mental é estendida para além de uma sessão e passa ser chamada de franquia. As franquias são o tantra da masturbação mental. Fez-se o sucesso.

Seguindo todas essas dicas, você entrega um filme divertido, bem acabado, inteligente e rentável. E o melhor: você vai poder se vangloriar de ter feito algo inovador e adentrar o seleto hall de pessoas que já fizeram uma “obra prima”. Não que seja verdade, mas apresentadores do Fantástico e nerds do mundo todo bradarão isso com tanta insistência, que vai ficar difícil acreditar em outra coisa.Vai sobrar apenas quem entende, estuda e/ou faz Cinema (com maiúscula) resmungando em blogs obscuros que tudo não passa de uma formuleta e que de inovador só tem a pose. Exatamente como os nerds faziam com o mainstream há uns anos atrás. Mas essa idéia foi removida da cabeça de todo mundo. E alguém aí já deve estar dizendo que foi através de um sonho…

Assista ao trailer

Older Entries