Existe um mito muito antigo, do tempo da renascença, sobre os artistas. Médiums da Estética, esses gênios seriam capazes de, por meio de inspiração, transcender a técnica para brindar a humanidade com uma fagulha do divino. Levado a sifilíticos e tuberculosos ápices em tempos de romantismo, o mito meio que saiu de moda à base de muita ironia inglesa e materialismo histórico. E aí, para bem, para mal e desespero da ministra da cultura, o artista virou um fingidor, uma antena da cultura. Mito reescrito.

Aí vem o cinema, techné surgida lá quando essa mitologia caía por terra, para contar uma história que, não bastasse ter um balé de Tchaikovsky (dos mais descabelados dos românticos!) como pano de fundo, ainda traz à baila justamente o conflito do artista para atingir a perfeição, a transcendência. Ideia maluca de Aronofsky com seu Cisne Negro (Black Swan, 2010), sucesso retumbante dessa temporada.

Retumbante e confuso. Poucas vezes um filme teve sinopses tão diferentes entre si. Porque crítica, especialmente no Brasil, varia mesmo. Criticar cinema, por aqui, é fazer a criança mimada e falar “gostei” ou “odiei”. E gosto, a gente, sabe, cada um tem o seu e lamenta o do outro. Mas sinopse, ao que parecia, era meio consensual: um resuminho da história e o assunto do filme. E vem Cisne Negro com sinopses  que falam sobre “obsessão pela perfeição”, sobre a “competição entre bailarinas”, sobre “retrato dos bastidores do mundo do balé”, sobre “repressão feminina”.  Não há um consenso sobre o assunto do filme e ninguém parece ter ligado pra essa aparente confusão: estava todo mundo ocupado criticando o hype ou exaltando-o. Então aproveito para engrossar o coro dissonante com minha semi-sinopse ali de cima e incrementar dizendo que, aos meus olhos, o filme é uma ilustração do tal “mito do artista” levado ao extremo.

Aronofsky, aliás, adora essa coisa de colocar seus personagens no limite. Foi assim com o delírio expressionista em “Pi”, foi assim com cada personagem de “Requiem para um Sonho”, foi assim com o amor eterno (interminável?) de “A fonte de Vida”. Mas em “O Lutador”, que eu aliás já comentei aqui, a coisa mudou um pouquinho. Aronofsky convida Mickey Rourke para o papel principal, borrando a linha entre criador e criatura. Vencedor do Globo de Ouro de melhor ator naquele ano e indicado ao Oscar, Mickey Rourke e Randy, seu personagem, são praticamente a mesma pessoa. Aronofksy não se satisfaz mais em levar personagens ao limite: agora os atores têm que ir junto.

E aí entra Natalie Portman, merecida vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar por Cisne Negro. Aronofsky faz a atriz, já magra, perder dez quilos. Aprender balé o suficiente para dançar quase sem dublês – o que o obriga a manter a maioria dos planos dos ombros para cima, evitando denunciar uma eventual falta de técnica. Aliás, o instrutor de balé com quem a atriz trabalhou antes do filme é pai de seu futuro filho. Embora, ao contrário de Rourke, a performance aqui seja mais artística do que auto-biográfica, Portman precisa, literalmente, dar o corpo e o sangue pela personagem. Qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência?

Pra completar, vem o diretor e joga a câmera literalmente em cima da criaturinha frágil que fez surgir. Câmera na mão, faz tempo, é um artifício bastante usado – e até meio abusado – para dar efeito de “realidade”. Mas aqui, a super 16 ora em vídeo, ora em filme, é usada para sugerir intimidade. Uma coisa meio Vintenberg. Sabe quando algo te incomoda e você não sabe bem o que é, até perceber que é a presença insistente de alguém? É exatamente a sensação causada pela claustrofóbica fotografia que não sai de cima, dos lados, de debaixo de Nina, a personagem principal, nem pra ela ir ao banheiro. Sério.

E no banheiro (ou no quarto, ou na sala de ensaio), Nina pratica os mais diversos atos de auto-mutilação. Um festival de bizarria para deixar muito cineasta trash com olhos cheios e me fazer desconfiar que Aronofsky deve ter frequentado muita grindhouse por aí. Com ecos ressoando Cronemberg, terror japonês e qualquer coisa que Robert Rodriguez assistia de madrugada. Realidade aqui passou longe. Alucinação ou não, muita coisa não se sustenta logicamente e isso só reforça o fato de que a câmera na mão é uma opção estilística para aproximar o espectador da mente da protagonista, mais do que da realidade ou da verossimilhança. É o expressionismo, de novo, influenciando Aronofsky.

A hip-hop montage, abandonada desde “Requiem” reaparece aqui e ali – embora com menos vigor –  principalmente para representar a repetição e a persistência. Numa das cenas mais interessantes, a sapatilha de Nina golpeia o chão (e o desenho de som aqui é impressionante) repetida e insistentemente. É animador, enfim, ver que Aronofksy tirou o estilo da geladeira.

Mas vamos ligar as pontas – algumas ficam soltas em Cisne Negro, aliás – e voltar ao mito do artista. Nina é uma belíssima, soberba ilustração desse mito. Torturada por todos os lados (o que inclui uma mãe que faz Bernarda Alba parecer a Noviça Rebelde), sofrida, entre o divino (transcendental) e o humano (carnal) , entre o apolíneo e o dionisíaco, entre o cisne branco e o negro, ela precisa se superar, se consumir, para que a arte como catarse possa ser completa. É o nascimento da tragédia. E o mito do artista é uma leitura possível e interessante de Cisne Negro.

Só que por trás de tudo existe um diretor sádico, irônico, infernizando seus personagens-atores e o universo que eles habitam. Este, tão comprometido com sua arte quanto Nina, faz miséria para retratar o mito do artista e, se lhe torce a perna ou arranca pedaços, deve rir de canto de boca. Todo o trash no meio de uma narrativa que se traveste de lírica não é apenas para desconsertar plateias desavisadas. É o escarninho de um diretor que busca a sintonia com seu tempo ao denunciar o absurdo de sua obra e os pedaços de outras que a compõe. É a desmistificação do artista através da própria exaltação de seu mito. Nenhuma novidade, alguém disse. Mas vestido de cisne, fica danado de bonito.

* Post ilustrado com os brilhantes cartazes de inspiração construtivista e art-déco feitos pela agência londrina LaBoca para o filme.

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