Câmera estática. Na tela, paisagem desértica e a curva de uma pista. Uma Ferrari preta passa, faz a curva. Ainda a vemos do outro lado, mais longe. E some. Continuamos ouvindo o ronco do motor, que fica mais fraco. Mas ele vai aumentando de novo e, outra vez, a Ferrari passa. Está andando em círculos, como se pode concluir logo. Mas como quem quer dizer que o meio é a mensagem, a diretora não corta e te deixa escutando o motor da Ferrari, enquanto dá várias voltas, e contemplando a paisagem árida. Paradoxalmente, a Ferrari veloz aparece para desacelerar a percepção de quem está acostumado com planos de menos de cinco segundos. Foi como Sofia Coppola decidiu abrir “Um lugar qualquer” (Somewhere, 2010), filme que acaba de estrear nos cinemas brasileiros.

Preciso desabafar que minha relação com Sofia Coppola é meio instável, cheia de encontros e desencontros.  Aliás, esse filme, por exemplo, que muita gente adora, ainda me faz sentir arrependimento pelas quase duas horas que perdi assistindo. “Maria Antonieta”, em compensação, desceu fácil e foi uma experiência bastante (adjetivo estranho para um filme melancólico) divertida. Alguns dirão que foi por causa dos figurinos e excesso de cor. Talvez. Não que meu julgamento quanto a um filme ser bom ou ruim interesse pra quem lê, despreze-o se quiser e tiver juízo. Mas acho importante deixar claro que estou longe de ser um fã da diretora de “Um lugar qualquer”. Do contrário, fui ao cinema com “um quente e dois fervendo”, preparado para a eventual bomba que poderia encontrar e torcendo para que “Maria Antonieta” tivesse marcado a carreira de Sofia mais do que “Encontros e desencontros” (não vi “Virgens Suicidas”). Acabei ficando desarmado.

Não se trata propriamente de uma história. Como no plano-sequência que abre o filme, Sofia parece querer capturar o tempo em seu percurso rumo a lugar nenhum  (ou um lugar qualquer). No caso, o tempo cinzento das horas de um astro de Hollywood, Johnny Marco. Em uma atuação bastante comedida de Stephen Dorff, conhecemos um cara que vive entre mulheres fáceis e coletivas de imprensa difíceis, tudo embalado a porres constantes. Um sujeito que tem tanta facilidade em conseguir o que quer que, de repente, parece desejar, em vão, não querer nada. Por um acaso, a visita de sua filha de 11 anos, Cleo (Elle Fanning), acaba se estendendo para além do previsto. E é só. A garota não vai mudar para sempre a vida do pai – pelo menos não como se esperaria desse tipo de enredo. O pai não vai ter chiliques catatônicos à la Amy Winehouse e nem haverá choradeira (nem no filme, nem na sala de projeção). Há apenas o transcorrer do tempo em planos-sequência – muitas vezes com música pop e rock ao fundo – que deixam para o espectador a tarefa de se aprofundar na alma daqueles personagens para descobrir o que, afinal, está acontecendo. Quase psicanálise.

É claro que isso não é coisa exclusiva da cabeça da diretora. É realismo baziniano na veia e um eco gostosinho de Antonionis, Welles  e Kar Wais da vida. E a dica é: se você não tem paciência ou simplesmente está com preguiça de assistir um filme que deixa para você, espectador, a tarefa de fazer no tempo cru os recortes necessários para tirar as conclusões múltiplas que ele comporta, nem assista. O filme vai lhe soar uma constrangedora chatice. Já para quem tem um pezinho na cinefilia realista ou gosta de brincar mentalmente de diretor, “Um lugar qualquer” é uma agradável e deliciosa surpresa dessa temporada.

Fazia tempo que a imagem não era tão importante num filme. É tanto diálogo frenético e pensado minimamente pra causar efeitos (Aaron Sorkin, a gente te adora), tanta mixagem de som explosiva, tanto roteiro rocambólico (abraço pro Cristopher Nolan também), que a imagem pura, colorida, granulada, tremida, focada e desfocada, virou ingrediente secundário, quase imperceptível, na traquitana cinematográfica. Eu não lembro de nenhuma fala em especial de “Um lugar qualquer”. Nenhuma mesmo. Mas quanto às imagens, várias ainda não me saíram da cabeça. A pantomima no fundo da piscina (em californianos tons de azul), a assinatura da garotinha no gesso do pai (cujos ossos do ofício estão fraturados) e até uma partida de Wii! Visualidade pra que te quero! Aliás, mesmo as metáforas são visuais e é exatamente disso que tratam as sequências inicial e final do filme, bem como um momento (dos melhores do longa) em que o protagonista é, literal e não-literalmente, engessado, preso, sufocado, numa passiva submissão ao seu trabalho e ao tempo.

“Um lugar qualquer” pode ser, de fato, qualquer um, dependendo do espectador e do que ele consiga extrair desse plasma temporal regado de melancolia que Sofia Coppola nos serve. Mas é justamente essa indeterminação, conseguida com menos texto e mais imagem, mais sugestão e menos ordem, que faz do filme uma gostosa sensação. Aquela sensação de “amusement” apenas por estar diante da imagem em movimento, independente do que ela diga.

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