De repente, resolveu que odiava pobre. É aquela história: macaco dá o rabo, aí só vê o da cotia. Vê se pode, esse governo que ajuda pobre e ainda enfia dinheiro no povo pra ele fazer mais pobrice? Absurdo, absurdo… Mata todo mundo e faz de novo, porque viver num mundo assim faz mal pros olhos. Alguém falou da pele? Ah, cabelo…

Vai ver, até tem razão, né? Ser rico é bem melhor que ser pobre e se, de repente, a pobreza entra gritando no metrô e você se toca que está no mesmo bonde, é melhor meter o pau e fingir que não tem nada a ver com isso. Esconde a cartinha do ProUni na mochila e mostra que estuda na PUC.  Vai, Carlos, ser chato na vida. Porque “gauche” é esquerda. E qualquer coisa é melhor do que isso. Sinistra! Sinistra!

Mas aí, também explicou que a culpa é dos outros. Desses nordestinos, desdentados, esse inferninho de minorias que se juntou e resolveu falar mais alto que os outros na demoniocracia.  É que, imagino eu, tem dois tipos de pessoas que não suportam ser contestadas: as que sempre tiveram tudo e as que nunca tiveram nada. O legal é ver que algumas das de baixo preferiram se juntar com as de cima pra fingir que, pelo menos essa vontade, a de ser rico, foi atendida pelos deuses – a despeito das outras todas. Come angu, arrota peru e enche o saco de quem nem estava com fome. De quem, por estar de barriga nem tão cheia quanto o saco, enfia um “zé povinho” qualquer pra governar o país. Uma vergonha, uma miséria.

E pobre, ele faz questão de lembrar, é ladrão. Embora ele nunca tenha roubado nada, porque educação lhe sobra – e olha que, a vida inteira, frequentou escola pública! Mas os outros, ah, esses são o inferno!  Até porque, entenda bem, ele não é pobre. É remediado.  Pega os remédios pra hipertensão da avó todo mês no SUS. Lugarzinho odiável aquele: pobres em pilhas, em filas, o horror, o horror.

Agora, vê se pode, cresceu lendo Flaubert e lhe enfiam na mesma classe C que esses leitores de Augusto Cury, quiçá Bruna Surfistinha. De certo, Madame Bovary lia coisa muito melhor. E além do mais, vocês viram o que aconteceu quando misturaram o Jerônimo com a gentalha lá, com a Rita que, imagina, era Baiana? Eu, particularmente, nunca soube direito quem era quem nessa história, mas a julgar pelo mainardismo do interlocutor, certeza que a Baiana ele não se achava.

Mas, caso fique em dúvida, pode perguntar pessoalmente pra ele, o cara ali à direita. Não é difícil reconhece-lo: ele tem “muita cultura” e atitude blasé. Esse negócio de ter cultura em quantidade é interessante. De onde eu venho cultura é coisa que todo mundo tem no mesmo tanto, só muda a espécie. Mas esse troço de todo mundo ter as coisas iguais é coisa de comunista e, olha, diz que isso fede. Então deixa ele pôr quantidade na cultura, que é o único jeito dele não se misturar com o fundo. Deixa ele ser blasé, que é “mal comido” em francês. Deixa. Deixa ele ter ódio dos outros, que um dia o espelho lhe prega uma peça…

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