Neste exato momento, uma praga se espalha pelo mundo.  Relatos falam de um vírus altamente transmissível, que entra no corpo pelo canal auditivo, nervo óptico e, em alguns casos, até pelo sistema digestório. Em pouco tempo ele transforma o cérebro na mais pura tapioca e a pessoa é acometida por fortíssima diarreia verbal e hábitos apenas suportáveis por aqueles que compartilham da doença. Não há cura conhecida, embora tratamentos a base de roleta russa tenham se mostrado bastante eficazes.

Tão logo a pessoa é infectada, o paladar começa a se deformar, desenvolvendo forte predileção por comida japonesa, indiana e outras pretensões. Estágios mais avançados já apresentam sintomas de vegetarianismo e, em casos extremos, veganismo. A audição também é afetada e parece apenas ouvir aquilo que seja repetido à exaustão, seja nos meios de comunicação, seja por pessoas a sua volta. Aliás, os danos ao sistemas cognitivo parecem bloquear a percepção de tudo que seja novo ou diferente: apenas o repetitivo passa a ser detectado e tido como verdade. Essa repetição leva, finalmente, ao principal sintoma, através do qual o vírus se reproduz: a diarreia verbal, ou verborreia.

A verborreia começa quando tudo o que vinha sendo repetido e armazenado no cérebro do enfermo é regurgitado aos borbotões, podendo ir do simples uso de uma manchete da Veja para um argumento anti-governista até a confecção de manifestos, sites e movimentos que pregam a mediocridade. Porque, uma vez com a cabeça cheia de tapioca, a pessoa não se torna ruim, nem boa: ela se torna medíocre.  E aí se perde pra sempre.

Aquilo que é muito ruim, fomenta  mudanças – pra pior, às vezes pra melhor. Aquilo que é muito bom, também. Mas o eterno idiota vive da mediocridade: essa praga mortal que condena as pessoas a serem sempre iguais.

Para sempre elas vão reclamar do Big Brother, ainda que tenham Twitter, Orkut e Facebook, inclusive de personagens que elas criam. Para sempre elas vão falar que Lady Gaga copia Madonna, e que a cantora que vai surgir daqui 2 anos copia Lady Gaga, como se isso fosse muito importante. E ainda vão ouvir todas elas, enquanto se requebram de forma semi-convulsiva. Essas pessoas, coitadas, gritarão que não suportam axé e sertanejo, mas curtirão “de boa” um show do Luan Santana na festa do peão de Nsa. Sra. da Piraporinha, com a desculpa de que “é o que tem pra hoje”. Para elas, que se acham tão espertas, sempre vale a pena tentar usar o caixa eletrônico vago – sendo que há uma fila de 500 pessoas esperando pra usar os outros.  Esse povo, coitado, doente de mediocridade, tem mais é que se foder mesmo. Morro de dó… mas nem ligo.

Pra me proteger, eu tenho usado o único antídoto disponível hoje no mercado: fazer o que dá na telha. Ainda que isso signifique ouvir funk e ver BBB. Porque nos intervalos eu leio James Joyce e estudo semiótica e, olha, vou te contar que uma coisa tem um tanto assim a ver com a outra. Ou vai ver eu peguei mediocridade e não consigo ver o quão ridículo eu estou sendo… Pode ser, pode ser.

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