Fim de semana passado estreou “A Origem ” (Cristopher Nolan, 2010) nos cinemas brasileiros. Quem tem um mínimo de tino pras coisas já tinha notado: o filme seria sucesso. Do roteiro à distribuição, tudo é planejado pra ser grande, e assim são os retornos.

O engraçado é que no deslumbre da coisa, não demora pra todo mundo sair chamando o estrondo comercial de obra prima, dizendo que o filme muda a vida das pessoas pra sempre e que se trata de uma revolução cinematográfica. Normal. Essas mesmas pessoas estavam gritando coisas parecidas com o lançamento de Avatar e, antes disso, foi Matrix. Cristopher Nolan, competente que é, sacou a fórmula mágica pra criar “revoluções cinematográficas” e colocou na tela um filme bem acabado, divertido e impressionante. Pra nerd ver. E, como se pode esperar de uma fórmula, deu super certo. Até porque, desde que os nerds dominaram a cena pop cultural no mundo, agradá-los é agradar a todos. O nerd, quem diria, virou formador de opinião – tenha base pra isso ou não, bastam os óculos de armação preta ou a a blusa de lã xadrez.

Pensando nisso, o O&A agora traz essa receita pra você. Isso mesmo! Mostraremos como fazer um sucesso instantâneo com poucas dicas e muitos milhões de dólares. Acompanhe:

1) Referências: Você já viu nerds conversando sem citar outras obras/pessoas/programas/épocas? Provavelmente não. Se você fizer algo realmente inovador e que rompa com o que veio antes – referindo-se a isso de forma crítica – vão te achar chato. A idéia aqui não é pensar. É acessar dados num HD. No caso, o cérebro de nossos intrépidos espectadores. Poranto, faça a personagem que desenha labirintos se chamar Ariadne. O carinha ali que leu mitologia grega vai ficar extasiado quando notar que é o mesmo nome da amada de Teseu que, veja só, livrou-o do labirinto do Minotauro. É nessa hora, do “insight” forjado, que gritarão: “gênio!”. Use os figurinos parecidos com o de Matrix. Todo mundo vai achar que existe uma referência ao “conceito da obra” – que, repare, é exatamente este aqui. Enfim, use teorias filosóficas, sociológicas, antropológicas e várias outras que os nerds só tenham lido de relance. Ou ouvido falar. Dessa forma, seu filme parecerá genial e ainda trará nas costas o “mérito” de falar sobre assuntos “realmente profundos e complexos” (de maneira simplista e superficial, claro). Pouco importa que livros falem sobre essas coisas há mais de 2 mil anos e ninguém tenha se dado ao trabalho de ler…

2) “Filme para todos” : Foi-se o tempo em que os nerds eram sujeitos isolados e esquisitinhos. Hoje em dia, eles tem dinheiro, namorada (o) e, se bobear, até família. Então não faça um filme pra eles verem sozinhos. Não vai ter graça e não vai render. Enfie, por exemplo, uma cena de beijo, ainda que ela não faça o mínimo sentido no roteiro. Se você for espertinho, fará inclusive um dos personagens notar a impropriedade da ação no contexto. O público irromperá em gargalhadas, ainda que Zorra Total seja mais engraçado.  Também não podem faltar: dramas familiares, tensão erótica, crise existencial, romantismo, personalidade perturbada e um objetivo a ser alcançado. Quanto ao herói, ele deve ter que abrir mão do que quer para ter o que precisa. Desde “A jornada do herói”, todo roteirista (feijão com arroz) sabe disso. Como misturar tanta coisa? No protagonista. Ainda que não faça sentido, vão dizer que seus personagens são profundos e humanos e você agrada toda a entourage do nerd de uma tacada só.

3) Elenco “muderninho”: Como escolher o elenco? É bastante simples. Seguindo as premissas da dica 2, basta trazer alguém com prestígio na Academia de Hollywood (indicado ou ganhador do Oscar) e misturar com atores emergentes que fizeram outros filmes adorados por nerds. É importante que alguns deles sejam desconhecidos do grande público e que todos tenham sex appeal. Seu filme vai parecer “muderninho” por causa dos novos atores, mas também vai chamar atenção dos nerds mais velhos, aqueles que gostam de “atores de peso”. Se o currículo desses atores trouxer referências (vide dica 1) que colaborem para a construção de seus personagens (como acontece com Leonardo DiCaprio, que acaba de fazer “Ilha do medo”), melhor ainda. As cabecinhas da sua platéia se sentirão ainda mais inteligentes na medida em que fizerem ligações que você sequer imaginou.

4) Crie uma teoria complicada: Sabe as referências lá da dica 1? Pois é, elas são matéria prima para que você crie uma teoria complicada o bastante pra que as pessoas possam ficar pensando no seu filme e criar coisas assim. Muita atenção a essa dica porque ela é decisiva para o seu sucesso. Nerds adoram falar muito tempo sobre a mesma coisa. Principalmente se essa coisa puder se confundir com a realidade e servir de pretexto para abrir cogitações que vão da teoria da conspiração ao nonsense. Tá aí Lost, que não nos deixa mentir. Star Wars é assunto nerd há mais de 30 anos. E se você criar uma teoria complicada na medida certa para isso, com brechas nos lugares certos, vai dar pasto pra uma boiada louca pra rulminar capim gordura. Faça o filme de trás pra frente, crie tramas paralelas, matenha um segredo oculto até o final, use de relativismo cronológico, universos alternativos ou tudo isso junto. Não importa. Se render assunto, rende grana, reconhecimento, publicidade gratuita, espaço na mídia e histeria coletiva. Epic Win. Apenas tome cuidado pra não pesar a mão: se você exigir que o público pense fora da sua zona de conforto, estará se condenando a um Epic Fail.

5) Efeitos visuais acachapantes: Se existe um ponto onde a inovação é permitida, então é este aqui. Crie computadores novos, softwares de renderização, câmeras espetaculosas, imagens em 3D. A maioria dos nerds trabalha em profissões relacionadas à tecnologia e adorarão explicar pra quem está em volta como aquela animação levou horas pra ser renderizada ou como aquele tipo de câmera só pode ter sido gerada por computador. Além disso, se você puder pagar por algo que realmente seja novo, seu filme se torna automaticamente uma revolução, uma ruptura, uma coisa jamais vista na face da Terra e do universo. Ainda que, em essência, ele seja tão novo quanto andar pra frente e ter ideiais nobres.

6) Final aberto: Você tornou a cabeça do seu público tão fértil que, em se plantando, tudo dá – inclusive abobrinha. Não vai querer jogar cal na lavoura com um final que explique tudo, não é mesmo? A “Obra aberta” agora é pop e nem o Oscar se incomoda mais de ter que tirar os neurônios do stand by pra imaginar o que pode ter acontecido. Os personagens estão vivos ou mortos? Ela entrou ou saiu? Será que o herói sobreviveu? Nosso mundo é real? Deus existe? Cada uma dessas perguntas rende um tópico nos foruns internet afora e nas mesas do boteco mais próximo. Esse é um combustível quase inesgotável para a dica 4 e, dependendo do quão aberto for seu final, você pode até considerar uma sequência. As sequências são o momento em que a glória se consolida e os nerds vão ao Nirvana: sua masturbação mental é estendida para além de uma sessão e passa ser chamada de franquia. As franquias são o tantra da masturbação mental. Fez-se o sucesso.

Seguindo todas essas dicas, você entrega um filme divertido, bem acabado, inteligente e rentável. E o melhor: você vai poder se vangloriar de ter feito algo inovador e adentrar o seleto hall de pessoas que já fizeram uma “obra prima”. Não que seja verdade, mas apresentadores do Fantástico e nerds do mundo todo bradarão isso com tanta insistência, que vai ficar difícil acreditar em outra coisa.Vai sobrar apenas quem entende, estuda e/ou faz Cinema (com maiúscula) resmungando em blogs obscuros que tudo não passa de uma formuleta e que de inovador só tem a pose. Exatamente como os nerds faziam com o mainstream há uns anos atrás. Mas essa idéia foi removida da cabeça de todo mundo. E alguém aí já deve estar dizendo que foi através de um sonho…

Assista ao trailer

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