E não é só a frase que se inverte nessa maluca comédia do absurdo. “Almas à venda” (Cold Souls, 2009), em cartaz no Brasil, colide gêneros e inverte valores pra fazer um desses filmes que beira o nonsense. O resultado é previsevelmente inteligente e inesperadamente divertido.

A começar pela trama. Paul Giamatti (que já provou sua versatilidade em filmes como “Sideways: entre umas e outras” e “A dama na água”) vive ninguém menos do que ele mesmo. Perturbado com o peso do personagem título de “Tio Vânia”, peça de Tchecov que encena em Nova Iorque, o ator vislumbra uma solução quando descobre uma empresa que armazena almas. Parece uma boa idéia, afinal: livrar-se do fardo da própria essência por um tempo, recuperando-a quando der vontade. Movido por esse desejo, Paul extrai sua alma. Ele só não imagina que uma quadrilha de contrabandistas russos anda negociando com a empresa da qual é cliente e que sua alma pode acabar no mercado negro…

E dá-lhe absurdo. Dos bons. A comparação mais óbvia é com os roteiros de Charlie Kaufman, como “Quero ser John Malkovich” ou “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. E com certeza, a diretora e roteirista, Sophie Barthes (que eu não consegui descobrir se tem qualquer relação com Roland Barthes, o semiólogo francês), sabia muito bem disso. Uma cena feita num “espaço em branco”, bem como o próprio cartaz, com a cabeça do ator/personagem sendo desmontada, são referências mais do que claras.

Mas Kaufman está preocupado com a metalinguagem. Suas brincadeiras com o tempo e as misturas entre o espaço diegético e tudo que está fora dele deixam bem claro que seus roteiros são ensaios sobre a linguagem do cinema e do “contar histórias”. “Adaptação” está aí e não nos deixa mentir. Mas Barthes traz um temperinho a mais – meio azedo, diriam alguns – pra esse prato, já um tanto exótico. É como se ela misturasse um dos filmes “Kaufmanianos” com “Vanilla Sky”, adaptação americana do excelente “Abre los ojos”. A assepsia das ficções científicas, a sensação de não saber bem o que está acontecendo e uma pitada de teoria da conspiração meio politizada: é o que se pode esperar de “Almas à venda”.

E claro, tem Paul Giamatti. O sempre excelente ator não decepciona e transita da intensidade dramática de trechos da obra de Tchekov ao humor nonsense e ácido de representar uma versão amargurada de si mesmo. Com falas e atitudes engraçadíssimas, é ele o grande responsável por fazer parecer perfeitamente cabível que almas possam ser extraídas, armazenadas e até comercializadas. Sua esposa, seus amigos e todos os outros personagens da trama podem até se espantar com o fato de que ele fique insensível e sugira a eutanásia de uma conhecida, mas acham natural que almas sejam coisinhas sólidas parecidas com um grão de bico. E aí não é apenas mérito de Giamatti: é a voz da diretora (que, não por acaso, foi criada no leste europeu) fazendo uma crítica debochada ao capitalismo e a “mercadorização” do ser humano no mundo contemporâneo. Não que isso importe para o desenrolar do filme. Mas está lá, para quem quiser ver.

Quem assistir “Almas à venda” e cair na armadilha de tentar juntar pontas soltas ou se meter a decifrar a essência, a alma do filme, vai sair meio decepcionado. Como o próprio “médico extrator de almas” diz num determinado momento,  isso é um mistério. E Tchecov está no roteiro pra lembrar que não é de hoje que a alma humana é um turbilhão de amarguras, incertezas, complexidade e muito mais do que sonha nossa vã filosofia. Pintar isso tudo nas cores do humor, do deboche e do nonsense é um jeito delicado e elegante que Sophie Barthes encontrou para dizer que até seria trágico… se não fosse cômico.

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