Heitor não gostava que o arroz ficasse por cima feijão. Também lhe irritava que o feijão viesse por cima do arroz. Gostava dos dois devidamente separados, cada um no seu canto do prato, sobrando espaço ao meio para a carne, que vinha junto com a salada. Gostava de seu prato assim, e detestava ter que comê-lo todo misturado, revirado. Comida não era bagunça, oras. Bagunça era a que fazia quando saía com os amigos, isso sim. Saía para dançar. Qual era mesmo a roupa de dançar? Combinava e descombinava tudo até acabar sempre vestido do mesmo jeito e sair com pressa, pra chegar na hora. Como os amigos se atrasavam, se irritava com eles também. Os que sobraram, ainda não eram lá muito pontuais. Fora que detestava a bagunça que faziam no carro. Custava parecer civilizado na meia hora que separava sua casa da boate? Precisavam gritar cada vez que vissem uma mulher, um cara, um travesti… alguém? Enfim, ele se irritava, e parava o carro. Irritado. E ia dançar.

Ontem Heitor cismou que havia algo de errado em seu quarto. Ele procurou no computador, na estante… Embaixo da cama, e nada. Mas havia algo errado, ele sabia. Achara por fim um quadrinho torto. Torto! Quem deixara aquilo daquele jeito, tão “desregradamente” irritante? Heitor pegou um prumo, arrumou o quadro e maldisse os quatro ventos e os sete mares. Mas aí entrou pela janela… E ficou olhando… E Heitor olhava de volta – “que diabos esse bicho faz aqui? No meu quarto?” – e não entendia. Aí o urubu olhou para ele e disse:

– Bom Dia!

Heitor se irritou. Não bastasse o bicho lhe pousar na janela – “justo a MINHA janela” – ainda resolveu falar com ele. Urubu não fala, oras bolas!

– Quer fazer o favor de sair? Está me atrapalhando.

– Oras, mas eu só quero conversar. É muito chato ficar procurando carniça, sabe? Ficar andando por aí, farejando a morte… Viver do que é morto, é realmente entediante…

– Mas você é um urubu! Queria fazer o que? Cantar? Deixe que o rouxinol o faça. Aliás, também não precisa falar, que de ave falante, basta papagaio.

– Eu sei. Acho que cansei de ser urubu, então. Resolvi ser gente e passei aqui pra conversar com você. Quem sabe não pode me ensinar?

– Eu? Te ensinar a ser gente? Comeu cocô?

– Acontece quando se é um necrófago…

– Diga que não está acontecendo…

– Perdão, não posso. Estou aqui, e é um fato. Então, me diga, como é ser gente, quero dizer, o que vocês sentem, o que falam uns pros outros?

E Heitor pensou, e pensou… E não sabia responder. Ele falou qualquer coisa sobre namorar, qualquer coisa sobre dançar. Falou alguma coisa sobre conversas, e sair com amigos (“quais mesmo?”). Falou de comida, de roupa… Mas tudo o irritava. Quer dizer, tudo tinha alguma coisa que lhe irritava.

– Nossa, mas como é complicado… Lá do céu a vida de vocês parecia tão simples… Comer, andar de um lado para o outro, acasalar… Simples mesmo.   – Disse o urubu.

Heitor olhou-se no espelho. Ele não comia sem se irritar, não andava de um lado pro outro – porque não ter pra onde ir lhe irritava – e sua irritação tinha espantado qualquer coisa que pudesse lhe ser parceiro de acasalamento. Será que ele era gente, afinal? Heitor ficou em dúvida. Mas a dúvida lhe irritava! Ele gostava das coisas certas, caramba! Então, Heitor subiu no peitoril da janela e alçou vôo. Virou urubu.

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