É que o menino que mora comigo comprou umas goiabas que estão passando gosto em tudo na geladeira. Manteiga, iogurte, até coca cola agora tem gosto de goiaba. Achei que o meu leite tivesse azedado, mas aí lembrei que ele era de ontem e o que azedou foi a minha cara. Olhei pro embrulhinho de goiabas como quem olha pra um monte de cocô.

Mas o que me intriga é imaginar que em algum momento passou na cabeça dele que ele precisava comprar goiabas, sabe? Em quatro anos de faculdade e dois de mestrado, eu nunca precisei de goiaba, nunca tive esse desejo. Era muita semiótica pra pensar, nem lembrava que goiaba existia. O que, então, leva um estudante de engenharia a pensar que precisa comprar goiaba no supermercado entre uma equação e outra? Isso é coisa de filho de mãe judia, sim senhor. Porque só em casa com mãe judia e governanta é que as pessoas ficam felizes porque comem goiaba no café da manhã. Ou porque alguém faz doce de goiaba, com queijo ainda por cima (ou por baixo). No mais, come-se goiaba de vez em quando, e olhe lá. Na mesa de frutas do reveillón ou em passeio no sítio, está de bom tamanho.

Eu mesmo, quando comprava fruta, comprava banana e maçã, porque era óbvio bater com leite. Ou umas laranjas. Minha extravagância hortifrutigranjeira foi num verão em que, pra desaforar o calor, comprei uma melancia. E foi a única vez. Agora, goiaba? Não, isso nunca me passou pela cabeça. A pessoa precisa ser muito goiaba pra pensar nisso.

E o pior é que, naturalmente, essas goiabas foram escolhidas. Você sabe escolher goiaba? Eu não. Na árvore é fácil: se estiver bichada, não presta. Mas no supermercado isso funciona como? Toda uma ciência de entender se a fruta está madura o bastante pra empestear a geladeira. Devem ensinar isso na faculdade de engenharia. Ou na casa da mãe Joana que, pode anotar, é judia.

Quando eu for morar sozinho, não vai ter goiaba na minha casa.

Anúncios