O que o cinema pode ensinar sobre o BBB? Se o exemplo for Invictus (2009), filme de Clint Eastwood que concorre a 2 Oscars esta noite, a resposta é: muita coisa. A começar por quem diz que BBB é “só um jogo”, “novela”, enfim, que “não tem importância”. Como uma das canções tema de Invictus lembra já no primeiro verso: “And it´s not just a game,/you can´t throw me away” (“E não é apenas um jogo/você não pode me jogar fora”). E Nelson Mandela, personagem real construído espetacularmente por Morgan Freeman, sabia bem que “brincadeira”, desde sempre, é coisa muito séria. Criticado até mesmo por sua própria equipe de governo, o presidente dedicou atenção e esforços a um evento que estava longe de ser político: a copa do mundo de Rugby. O que a princípio parecia absurdo, levou o país ao campeonato mundial em 1995. Mais do que isso: foi um passo importante na reunião de um país violentamente separado pelo apartheid.

Por que se preocupar com um esporte num país desestruturado, com problemas socio-econômicos graves e de democracia recente? A resposta é simples: porque Mandela sabia que somente através do lúdico conseguiria mudar hábitos que nem a guerra civil fora capaz de mudar. E tá aí o BBB mostrando a mesma coisa. Difícil encontrar quem discuta política com a mesma paixão que discute Big Brother. Duvido que o Twitter fervilhe em campanhas para este ou aquele candidato durante as eleições. Mas basta um paredão para a plataforma se infestar de mensagens defendendo ou atacando o participante protagonista desta edição: Marcelo Dourado. E dá-lhe 80 milhões de votos. 80 mihões é suficiente pra decidir uma eleição, um presidente. E voltamos a Invictus pra lembrar da cena em que o repórter diz a François Pienaar (Matt Damon), capitão da seleção sul africana de rugby, que ele não teria ganho o jogo sem o apoio dos milhares de torcedores no estádio. A que o jogador responde: “Não fui apoiado por milhares. Fui apoiado por 63 milhões” (a população da África do Sul na época). Nem o próprio Mandela contava com tal unanimidade. And it´s not just a game. Nem na África do Sul, nem no BBB.

Mandela cumprimenta Pienaar: o jogo mudando realidades

Mas Invictus ainda traz uma segunda lição, talvez ainda maior: a da tolerância mútua. Em tempo: eu não gosto do Dourado. E sinceramente me preocupava que uma pessoa claramente homofóbica, machista e violenta representasse o preferido daqueles milhões de pessoas mobilizadas pela paixão do jogo. Mais do que isso: me preocupava que esses valores fossem premiados com 1 milhão e meio de reais. Até assistir Invictus. Me lembrei imediatamente de quando, durante um paredão, um guri que eu sigo no Twitter comentou algo que achei engraçado sobre o lutador e eu lhe mandei um elogio. O ódio era tanto e tão cego, que ele me respondeu com raiva, como se eu tivesse defendido Dourado. Desde então ficou claro pra mim que querer a cabeça do Dourado a prêmio era tão errado, em termos de direitos humanos, quanto exaltar os valores que ele representa.

Corta de volta pra África do Sul. Mandela recebe em seu gabinete a visita da filha, que está com cara de poucos amigos. A moça está nervosa por ver o pai apertando a mão de um branco na primeira página de um jornal. “O que você acha?”, ele pergunta. “Acho que ele se parece com as pessoas que nos tiraram de nossas casas, nos espancaram e nos prenderam há tempos atrás”, ela responde. É quando Mandela diz que ela está preocupada com sentimentos pessoais. E ele está preocupado com o que é bom para a nação, para a democracia.

Com o que o público do BBB está preocupado? A resposta dessa pergunta me fez ficar quietinho sobre o assunto até agora. Democracia e direitos humanos não parecem estar no topo da lista e, no fim das contas, dar mais projeção a um programa cujo único compromisso é com os patrocinadores não ia ajudar muito. Mas aí apareceu o Mandela. E eu notei que as tribos do BBB não funcionavam aqui fora, paradoxalmente, por causa do Dourado. Salvo os cegos de paixão ou de ódio, os belos, os coloridos, os sarados, os barrigudos, os esquisitos, as mulheres e os homens, sabe-se lá porque (e pouco importa) estão lá, unidos, gastando o dedo pra fazer o Dourado continuar no programa. Não foi assim com o Jean Wyllis, quando os homossexuais dispararam uma cruzada contra a homofobia que culminou na vitória do professor SOBRE os homofóbicos. Não foi assim com Cida, que foi uma vitória do pobre SOBRE os ricos. Mas dessa vez, pela primeira vez, parece que é uma vitória coletiva. Democrática, com os eventuais dissabores que a democracia tem, amargos como as sucessivas derrotas que a seleção sul africana vinha sofrendo, mas sem as quais jamais conheceriam a vitória. Não é uma vitória SOBRE alguém (a não ser sobre quem está cego de ódio de ou de paixão), é uma vitória absoluta, por incrível que pareça, da diversidade. E é por isso que os gays unidos não conseguem eliminar o Dourado. Nem as feministas. Nem nenhuma minoria. Porque a maioria – minorias inclusas – resolveu que ele merece ganhar. E isso é o que o Dourado nos ensina, positivamente, sobre a democracia.

Dourado cumprimenta Serginho: o jogo da realidade

De volta à África do Sul, vemos Mandela interromper uam reunião do conselho esportivo daquele país. Os negros, agora no poder, querem mudar o nome da equipe de rugby (“Springboks”), bem como as cores do time, ironicamente o verde e, veja lá, o dourado (cores associadas ao regime do apartheid). É quando surge o presidente para, surpreendendo a todos, impedir a mudança. O motivo? “Conhecer o inimigo”, como Mandela explica. Não é declarando uma guerra de vingança que se constrói uma nação, muito menos uma nação democrática. E uma ditadura rosa, convenhamos, seria tão tola quanto qualquer outra. A fala final do presidente sul africano nesse discurso cai como uma luva ao BBB: “Precisamos urgentemente de tijolos para construir uma democracia plena. E devemos usar cada um deles, não desperdiçando um só, sequer. Mesmo que estes tijolos venham embrulhados em verde e dourado“.

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