Qual é o som de uma imagem? Ou com o que uma canção se parece? Essa brincadeira meio lisérgica nem soa mais tão transgressora desde que o videoclipe resolveu traduzir em imagens o que ouvimos na música – não por acaso, a idéia do clipe vem justamente dos Beatles. Mas desde que o clipe virou regra a “imagem da música” é sempre a mesma sucessão rápida de imagens dinâmicas ou uma historinha que remete à letra cantada, salvo raras exeções.

E uma delas chegou aqui pelo correio, essa semana. Para lançar seu novo EP, “Songs for sorrow” Mika resolveu traduzir o som em imagem estática. Acompanhado de um livro, o CD, com 4 canções inéditas, é ilustrado pelos artistas prediletos do cantor. E olha, é de coisas assim que se faz um artista completo.

Vamos dar uma olhada pro exemplo, na ilustração de DaWack (irmã do cantor), pra canção “Toy Boy”:

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O estilo infantil, meio lápis de cor, já vem de longa data. Foi DaWack quem fez toda a arte do único album de Mika, “Life in cartoon motion”. Mas o que eu mais gosto é como ela pega esse estilo “fofinho” e colorido para mostrar algo bem triste. É, aliás, o que Mika propõe nesse EP: “Songs for sorrow”, ao pé da letra, seriam “canções para o sofrimento”. “Toy Boy”, por exemplo, conta a história de um boneco que se apaixona por seu “dono”, mas é afastado dele pela mãe, que não gosta da idéia do “filho dormir com outro menino”. Além de uma alegoria fantástica sobre homossexualidade e preconceito (um “conto de fadas dark” como Mika gosta de definir), a canção tem uma orquestração bem cuidada e divertida, que lembra os filmes da Disney da década de 50. E se você consegue enxergar todos esses elementos “traduzidos” ali no desenho, já dá pra começar a ter uma idéia do que as mais de 60 páginas do livro trazem: coisa da boa.

LifeCapa do album “Life in cartoon motion”: o traço de DaWack é colorido e pop

Clipe para”Lollipop”: DaWack fez a animação da música que o irmão escreveu pra ela

“Toy Boy” ainda aparece ilustrado por mais 7 artistas (inclusive Peter Blake, responsável pela lendária capa de “Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles). Destaque para Al Columbia, quadrinista. O desenho de página dupla é de uma beleza ímpar e os personagens lembram os desenhos da década de 30 e 40 (em especial Mickey e Popeye):

SFSParte da ilustração de Al Columbia para “Toy Boy”

AlDesenho de Al Columbia: traço inspirado na Disney dos anos 30 traz alto teor de ironia e humor negro

O EP segue para a canção “Lonely Alcoholic”, uma levada meio blues, tocada no piano. Ora, parece meio óbvio ilustrar uma canção sobre um “alcóolatra solitário”, ainda mais se é “meio blues”, certo? Errado. Para Tao Nyeu, que transformou a primeira parte da música em algo parecido com uma HQ, é a história de um ursinho que telefona para uma espécie de tele-sexo…

SFS5Trecho da ilustração de página dupla

Oriental que é, Nyeu tem uma influência grande do design japonês. Daí o visual “fofinho” de seu trabalho, – kawai, como chamam os japas – as padronagens repetitivas e elaboradas e o aspecto surreal. O cara tem umas ilustrações bem legais, sempre usando seus personagens, como o “Wonder Bear”:

tao-nyeu

Dá pra não achar fantástico? Um artista que consegue cantar e compor super bem, ser um bom performer e ainda desenvolver um projeto desses merece, no mínimo, aplauso de pé. Mas calma que ainda tem mais.

Kerascoët é, na verdade, um casal de desenhistas franceses. O estilo deles, meio “conto de fadas sombrio”, lembrando Tim Burton, caiu como uma luva na proposta de “Songs for sorrow”. As ilustrações para “Blue Eyes”, que é a mais leve das 4 canções, deram ao desenho as sombras que faltaram à música:

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O casal, aliás, já tinha experiência com “ilustrar música”. ADORO o clipe – e a música – do Dionysos, “Tes lacets sont des fées”, feito em parceria com o cartunista francês Joann Sfar:

Outro exemplo legal é “Hyacinthe“, música de Thomas Fersen, também ilustrada pro Kerascoët em parceria com Sfar:

O EP fecha com “Lady Jane”, uma fábula sobre amor e morte. Contada num tom quase folclórico, é uma das composições mais bonitas da carreira de Mika. E claro que também rendeu ilustrações de um lirismo exepcional. Uma delas, de página dupla, feita pela ilustradora de livros infantis Sophie Blackall, por exemplo, é quase um exercício de estilo, combinando suas influências da gravura japonesa e chinesa, da pintura modernista americana, molduras e mapas antigos:

SFS4Parte da ilustração de Blackall: a artista combina vários traços de seu estilo para compor um grande quadro

Fascinada por comida, temas místicos, pessoas e paisagens, Blackall tem um trabalho bem legal. Basta dar uma olhada no site dela pra conferir ilustrações como essa:

Meno“Menopause”, por Sophie Blackall

Outro artista que chama bastante atenção (ilustrando a mesma canção) é o indiano Nilesh Mistry. Longe do excesso brega da abertura da novela das 8, o ilustrador traz elementos do folclore e do misticismo oriental para compor imagens impressionantes e oníricas. E se Blackall faz da moldura um elemento de sua arte, Mistry procura arrebentá-la. O desenho e as cores fluem vivos para todos lados e compõe, eles próprios, um “ritmo” ou “melodia” que só pode ser completado pelos olhos de quem observa. Tudo a ver com a filosofia oriental também, holística e descentralizada. No site do artista dá pra ter uma boa noção do trabalho dele. E pra ilustrar a história de Lady Jane, Mistry usou a técnica da aquarela, em duas páginas duplas. Em tons de roxo, rosa e amarelo, as ilustrações são de tirar o chapéu:

SFS2Parte da ilustração de Mistry para a canção “Lady Jane”

Ao fim do disco (ou do livro), fica aquela “ressaca estética” que só grandes artistas são capazes de causar. E é ainda mais satisfatório saber que esse artista é “pop”, no sentido mais amplo do termo. Longe das melodias depressivas que inundam o universo “indie” ou do estardalhaço performático que rebusca o universo “pop”, Mika mistura tudo e faz algo que não é nem uma coisa nem outra. Como cabe à arte, é único e traduz (em imagem e música) a vida em todas as suas cores.

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