Quem assistiu a série “High School Musical” com um pouco mais de atenção deve ter notado que o conflito do personagem Troy (Zac Efron) ia um pouco além do dilema entre o time de basquete e o musical da escola. Por ser um filme da Disney voltado para o público infanto-juvenil, o roteirista Peter Barsocchini tomou o cuidado de não deixar que os personagens falassem com todas as letras o que realmente pensavam: o capitão do time de basquete não podia atuar em musicais porque isso seria muito gay. Não por acaso, o filme fala justamente disso: ser “você mesmo” apesar do que os outros pensam. Aliás, o cinema americano é obcecado pelo conflito ego/superego, traduzido cinematograficamente em roteiros repetitivos em que o herói precisa decidir entre o que quer e o que deve fazer (instâncias que nunca coincidem). Com “High School Musical”, portanto, não seria diferente. E a vida, de novo, imitou a arte: embora se tenha querido falar de homossexualidade, a sociedade americana deixa claro que isso é algo que não se deve fazer – ainda mais com crianças e jovens. O assunto virou um “subtexto” na grande pirotecnia pop-dançante do musical teen – embora transpareça aqui e ali, seja nas coreografias exageradas do diretor Kenny Ortega, no personagem Ryan (Lucas Grabeel) ou mesmo na atuação “nada discreta” de Zac Efron.

WereMas e se “High School Musical” fosse gay? Se o conflito velado no filme da Disney fosse o mote principal do roteiro? O resultado seria “Were the world mine” (2008, ainda sem título para o Brasil). Na época do lançamento o filme foi sensação em festivais de temática GLBT nos EUA, o que rendeu uma notoriedade considerável no meio indie. O roteiro gira em torno de Timothy (Tanner Cohen), um garoto de seus 17 anos que estuda numa escola só para rapazes. Timothy ama Jonathon (Nathaniel David Becker), que ama garotas, que não tinham entrado na história. Quando a professora de teatro (interpretada por Wendy Robie, a Nadine de “Twin Peaks“) resolve fazer uma montagem de “Sonho de uma noite de verão”, desencadeia uma confusão na escola. Quase todos os garotos são do time de rugby e o treinador não gosta da idéia dos seus atletas perdendo tempo com ensaios (qualquer semelhança com “High School Musical” não é mera coincidência).  Entretanto, o teatro é o ambiente onde Timothy se sente livre, se sente “ele mesmo”, ao contrário do time de rugby, onde é torturado pelos colegas devido à sua sexualidade. Peça e realidade se misturam quando o garoto acaba inventando uma “poção do amor”, que faz com que as pessoas se apaixonem umas pelas outras – independente do sexo.

A sinopse nada convencional não é acompanhada pela decupagem, nem pela direção. Tom Gustafson colore o filme com uma fotografia bem feita, planos bem recortadas e montagem dinâmica, num estilo bem próximo ao do cinema clássico.  É claro que o baixo orçamento e o clima indie não deixam que a produção se torne exatamente um Moulin Rouge ou Chicago (roupagem que, aliás, lhe cairia muito bem), mas a intenção é ser grandioso, mitológico, como denuncia a própria escolha de Shakespeare para pano de fundo (cujo texto, cabe dizer, é muito bem aproveitado).

O mais interessante em “Were the world mine“, como o nome sugere, é a fantasia. O título em português seria algo como “Se o mundo fosse meu”. Antes de descobrir a “poção do amor”, temos acesso à música através dos devaneios de Timothy: o time de rugby se torna Were1um grande corpo de baile, o quarto vira um cenário, o mundo fica mais colorido. Mais gay. E toda essa fantasia se torna possível assim que o protagonista descobre a poção do amor. Timothy pinta e borda e leva a pequena cidade onde mora ao delirio sensual (e, no caso do filme, homoerótico) de “Sonho de uma noite de verão” – exatamente como a fada “Puck”, seu personagem na peça. Por si só, essa ideia seria bastante interessante e, em seu estado bruto, renderia um filme extremamente original. Mas “Were the world mine” quer ser um musical. E como compete ao herói do cinema clássico, Timothy precisa decidir entre o que quer (no caso, o amor livre e o respeito dos colegas) e o que deve (devolver à cidade o livre arbítrio e a homofobia).

A grande derrapada de “Were the world mine” é justamente essa: não sair do armário. Os personagens são gays, mas o filme não. Ao optar pelo modelo clássico pra contar sua história, Gustafson enterrou qualquer chance que ela tivesse de se tornar libertária (visual e narrativamente), como é o caso de “Hedwig, por exemplo. O conflito ego/superego está lá e não há final feliz que possa revertê-lo: o querer e o dever seguirão sendo um antagonismo que pode até ser trasnposto por esse ou aquele personagem, mas que permanecem distantes para o espectador assim que a projeção termina. Por tudo isso, “Were the world mine” acaba surgindo como uma versão (mais) gay de “High SchWere2ool Musical“. A mesma história, porém nas cores do arco-íris.

O que, é claro, não desmerece a produção. Assim como seu “gêmeo” da Disney, “Were the world mine” é divertido e gostoso de assistir. Também é mais maudro e imensamente mais honesto ao meter o dedo na ferida que “High School Musical” cobre com um band-aid do Mickey. A própria composição do personagem “Timothy” é bastante interessante: o garoto é indubitavelmente gay, quase afeminado. Não há pasteurização da sua sexualidade, que vai se tornando mais sólida no transcorrer do filme e culmina numa deliciosa sequência em que o personagem dança “Relax, take it easy”, do cantor Mika. O uso de clichês homoeróticos, como o vestiário cheio de garotos ou o time de rugby, também é bastante interessante e por vezes faz lembrar os desenhos de Tom of Finland.Finalmente, a grande confusão gerada pela poção do amor resulta em situações que, se não são excitantes ou humanas, rendem no mínimo, boas gargalhadas.

Vale lembrar também que embora categorizado como musical, “Were the wWere3orld mine” conta com poucas canções. Com exceção de duas grandes sequências cantadas, o roteiro lança mão de algumas pequenas frases musicais ou trechos alternados de fala e canto, o que talvez decepcione quem vai assistir ao longa esperando por gran-finales e jazz hands.

No fim das contas, o filme é uma boa opção para quem quer se divertir. Bem produzido, faz um “musical gay” que não fica devendo em nada para o seu correlato “hetero” da Disney. Até porque, como em “High School Musical”, faltou coragem – e criatividade – para se dizer o que se queria, da forma como se devia.

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