Esse é o print da página do G1 as 15h30 de hoje, domingo:

g1par

Traduzindo: parada gay = desastre. Antes de entrar numas de dizer que o site é homofóbico e blah blah blah, eu preciso dizer que a associação, por mais que tenha saído de um erro (bem bizarro, diga-se de passagem), tem seu fundo verdadeiro. Por que? Bom, vamos por partes:

  • O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, foi reeleito essa semana sob suspeita de fraude, causando uma onda de protestos no país. Extremamente homofóbico, o governo aiatolá também é famoso por sua postura ditatorial e repressiva, que há décadas fechou o Irã para o resto do mundo.
    Aí eu me pergunto: será que os 3,5 milhões de pessoas (estimativa de público divulgada ontem), cheias de “orgulho gay”, se lembram que uma quantidade tão grande quanto essa de homosseuxais talvez esteja sendo torturada, morta, espancada e agredida (de todas as formas possíveis) em países como o Irã?
    Porque dizem que a mainifestação é de cunho político. E se as ruas de São Paulo estão assim:

    Parada
    No mesmo momento, as de Teerã estão assim:

    Teer
    Alguém da Party People se importa com algo que está acontendo miles away?

  • É óbvio que o exemplo é distante e que não justificaria, por exemplo, o não-acontecimento da parada. Não é isso que estou discutindo. Sou super a favor de ativismo feito de forma lúdica e acredito que ele é inclusive mais eficiente no sentido de que atinge um maior número de pessoas e as envolve de forma mais intensa. Entretanto, ainda assim, a intenção deveria ser política. E nem é necessário ir até o Irã pra entender o porquê. Paralelamente a parada, um grupo de extrema direita faz um protesto no parque do Ibirapuera. Nesse exato momento, o Resistência Nacionalista está reunido sob slogans como “existem órgãos que defendem os animais, o meio-ambiente, os bandidos, mas enfim, quem defende a família nacional? Pense nisso”. Resis
    Minha pergunta é muito simples: quem defende a comunidade gay (isso existe?) da resistência nacionalista, dos neonazistas, dos espancadores e das agressões sofridas todos os dias por jovens que crescem em famílias conservadoras, seja por causa de religião, política ou falta de instrução? Onde está nossa “resistência”? Quantas das 3,5 milhões de pessoas estão preocupadas com isso? Quantas delas vão votar em candidatos de direita na próxima eleição, os mesmos que hoje, na abertura, disseram apoiar as “uniões civis entre homossexuais”? But please… don´t stop the music!

  • Em 1969, homossexuais americanos eram perseguidos pela polícia, constrangidos e espancados. Mesmo em seus “guetos”, (como o Sotnewall Inn, onde muitos se reuniam), essas pessoas eram ameaçadas e violentadas. No mês de junho daquele ano, vários deles se revoltaram e tiveram embates violentos contra a polícia, marcando o começo da luta pelos direitos civis dos homossexuais nos EUA e, de certa forma, no mundo.Stone
    Stone

    Um ano depois, marchas políticas foram feitas em Nova Iorque e em Los Angeles para relembrar o episódio, que ficou conhecido como Stonewall Riots. Essa é, resumindo, a história das paradas gays. Elas são, originalmente, marchas para relembrar o dia em que vários homossexuais confrontaram o poder estabelecido em nome dos seus direitos.
    Na parada desse ano, em São Paulo, é possível comprar um lugar no camarote VIP por R$150 reais. Lá a bebida é liberada, os DJs são exclusivos e você não se mistura com a multidão. Pessoas do Brasil inteiro vão para a cidade, que é palco de zilhões de festas, o típico “fervo” da época da parada. E a lembrança de Stonewall? O que será que 69 representa pras pessoas que infestam a Paulista nesse momento?
    Sabe, não é uma questão moralista. A parada de Roma foi ontem. Vamos ver o que rolou por lá?

    Viu? Também tem pegação, também tem “fervo”. Mas a parada, em si, ainda é um desfile político. Tem protestos ali envolvendo a União Européia e um papa que disse que os homossexuais ameaçam a paz mundial. E é assim que acontece na maioria dos outros países. Quem assistiu séries como Queer as folk, viu a importância que participar da parada tem para cada pessoa, enquanto ato político. Tanto é assim que, não muito longe de Roma, em Varsóvia, na Polônia, a parada gay que também aconteceu ontem, terminou assim:

    Varsovia

    E aqui? Como vai terminar? Quando os milhões de pessoas voltarem pra casa, eles se lembrarão do motivo pelo qual estiveram “lutando”? O saldo da parada virá em cobrança de ações dos governos ou numa cobrança da fatura do cartão de crédito? Just asking…

Não queria bancar o chato à toa, mas sei lá, a associação errada do G1 me fez pensar nisso tudo. Porque se a parada for mesmo uma micaretona, um puta evento lucrativo e bombante, acho que seria legal vender pra uma empresa, tipo sei lá, uma cervejaria. Tornaria tudo mais organizado (vide Skol Beats), limpo e bem policiado, além de tirar esse “peso” político das costas de quem só quer curtir.

Tá bem, a parada “tá aí”, a comunidade gay saiu do armário. Mas e agora? Pra onde vai todo mundo? No escuro, todos os gatos eram pardos, mas à luz do dia, gays são tão diferentes entre si como, sei lá, “pessoas de olhos azuis” ou “pessoas que gostam de coca-cola”. Continuar se orgulhando de algo com o qual se nasce, será tão fútil quanto a barbie que se acha melhor do que o resto porque é gostosa e pega todo mundo. O “orgulho real” vem das conquistas, ainda muito poucas aqui no Brasil. Com ou sem paradas, milhares ainda morrem apenas por serem gays, são expostos a todo tipo de constrangimento e agressão. O que os 3,5 milhões de pessoas, Kassab, Serra e o escambal estão fazendo para mudar isso? Pra onde vão os milhões de reais movimentados durante a parada?

Eu vou ter orgulho de verdade quando isso terminar. Quando a rua não precisar parar pra eu passar. Quando não faça mais sentido falar em ser gay, porque será sinônimo de ser gente. Até lá, espero que as paradas possam se tornar algo diferente do que eu vi esse ano. Porque sinceramente? Foi um desastre.

Update: Hoje, dia 16, a Band veiculou a seguinte reportagem:

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E então? Que “parada” é essa?

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