FunUma família viaja para sua casa de campo para passar um fim de semana agradável e aconchegante. Enquanto a mãe, Ann (Naomi Watts), começa a ajeitar a casa e fazer o almoço, pai e filho (George e Georgie, vividos por Tim Roth e Devon Gearhart) vão preparar o barco para velejarem no lago. Tudo corre perfeitamente até que dois garotos, Paul e Peter (Michael Pitt e Brady Corbet, em brilhante atuação), hóspedes do vizinho, batem à porta para pedir alguns ovos. O que parecia idílico vai se tornando um pesadelo e a família se vê envolvida numa mórbida brincadeira de tortura física e psicológica.

“Violência gratuita” (Funny Games U.S. , 2007) é o típico filme de suspense psicológico. A “casa afastada e grande” é lugar-comum quando o assunto envolve sangue, violência e perseguições. Wes Craven, por exemplo, adora casas assim em seus filmes, tanto que a protagonista da trilogia “Pânico” vivia em uma delas. Tortura de inocentes e jogos violentos também não foge do clichê, já que desde “Jogos mortais” (Saw, 2004) e “O Albergue” (Hostel, 2005), o gênero parece ter virado desculpa pra fazer produções baratas e desagradáveis (em todos os sentidos), mas que acabam por se tornar sucessos de público e rendendo várias vezes o custo de produção. Finalmente, a escolha pelo terror mais psicológico do que físico também não é novidade desde Hitchcock, e é relido (de forma interessante, até) vez por outra em filmes como “Menina má.com” (Hard Candy, 2005).

Nesse sentido, “Violência gratuita” não traz nenhuma novidade. Os fãs de Jigsaw talvez achem meio leve (por causa da ausência de cenas de mutilação, decepação e etc.), mas com certeza vão se sentir em casa com o estado de tensão absoluta que o filme coloca o espectador de começo ao fim. E eles terão mordido a isca. Pois é justamente esse “se sentir em casa” que o filme procura “violentar”. Gratuitamente?

Antes de mais nada é preciso saber que “Violência gratuita” é a refilmagem, quadro a quadro, de um filme de 1997. A primeira versão, “Funny Games” ,- escrito e dirigido pelo austríaco Michael Haneke (do excelente Caché, 2005 e vencedor da Palma de Ouro desse ano, com “A fita branca”, ainda inédito no país) – usou os mesmos objetos de cena da versão em inglês, o mesmíssimo roteiro e até a casa foi reconstruída imitando a anterior, com decoração e planta baixa idênticas. Isso tudo quer dizer que não há muita diferença entre a versão “original” e a “U.S.”. Mesmo as atuações são rigorosamente copiadas da versão de 97. O que teria levado Haneke a refilmá-la, portanto, é uma incógnita. Mas o fato de Naomi Watts ser produtora executiva do projeto talvez dê alguma pista: provavelmente era interesse da atriz – e do diretor – levar “Violência gratuita” às platéias americanas, pouco receptivas a filmes legendados.

Fun3Tacada de mestre: os tacos de golfe, o papel de parede e as roupas brancas são os mesmos da versão de 97

Entretanto, há muito mais pra se digerir em “Violência gratuita” do que a possível estranheza da língua. E esse talvez seja o motivo que faz com que as platéias americanas não achem o filme “lá essas coisas”, por mais que ele traga todos aqueles elementos que qualquer aficionado por terror e suspense adoraria. É preciso se acostumar, por exemplo, com longos planos-sequência de Haneke. Como que convidando o público a “entrar” na cena, olhar cada objeto, expressão, o diretor opta por não conduzir o olhar dos espectadores. A câmera fica parada por vários minutos (ou segue os personagens), sem que haja cortes. Fica tudo lá, cru. E se o assunto é terror, a crueza pode ser ainda mais assustadora, já que a cena não acaba depois dos gritos: ela continuará, lenta e naturalmente, até que seja substituída pro uma outra ação.

Outra escolha interessante é a de não mostrar violência física. Vemos muitas vezes o resultado dessa violência, mas jamais o “ato”. Enquanto um personagem é mutilado ou torturado, por exemplo, a câmera nos apresenta outra imagem, por vezes aleatória. Entretanto, continuamos ouvindo tudo o que ocorre “no andar de cima” ou “logo atrás”. O deespero e a violência são aumentados pela própria imaginação do público, que fica encarregada de preencher essas lacunas. E essa é a carta na manga de Haneke, aquilo que faz de “Violência gratuita” uma grande obra de arte. Ao deixar “buracos” para que o público preencha, faz com que ele se torne cúmplice do desagradável espetáculo a que assiste, vale lembrar, por entretenimento.

Fun2Tensão constante: ainda que desavisado, o público se torna cúmplice da tortura de inocentes

Mas ainda há a cereja do bolo. Haneke parece querer deixar claro que sua obra se trata de uma grande crítica não só aos filmes violentos e de terror, mas também ao público desses filmes. E aí ele transgride uma das regras mais claras do cinema clássico: a transparência. A autoreflexividade vem à tona sem aviso prévio quando Paul, personagem de Michael Pitt, olha para a câmera e começa a falar com o público. Essa derrubada da “quarta parede” é decisiva para “Violência gratuita”, pois deixa bastante claro aquilo que a decupagem já sugeria: o espectador partilha do sadismo dos personagens principais. Pode até se identificar mais com a família e torcer pra que ela se salve, mas desde que se propôs a asssitir a um filme com tal temática, é porque sente algum prazer nisso. E o deboche de Paul e Peter não nos deixará esquecer esse importante detalhe. Com olhos penetrantes e palavras afiadas (que lembram Alex DeLarge, inesquecível personagem de Malcolm McDowell em “Laranja Mecânica”), o personagem sempre se voltará para o espectador em busca de uma opinião, uma aprovação. Tudo isso culminará numa cena antológica, quase surreal, que deixará os espectadores mais desavisados completamente atônitos, senão irritados.

Fun1Michael Pitt como Paul: o efeito brechtiano da quebra de transparência aparece várias vezes ao longo do filme.

Por tudo isso, “Violência gratuita” é um daqueles filmes “obrigatórios”. Ao fazer arte a partir de um gênero tido pelo “grande cinema” como “menor” –  caso do terror –  Haneke dá mais uma prova de que é um dos diretores mais talentosos da contemporaneidade. E, de quebra, aproveita pra dar uma lição no público de forma bastante violenta –  e nada gratuita.

Assista ao trailer

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