Em um de seus “simpósios”, Platão nos conta o mito da “alma gêmea”: no princípio, havia três gêneros: o masculino, o feminino e o andrógino.Esses últimos eram como gêmeos siameses, dois seres fundidos num único. Habilidosos e inteligentes, os andróginos desafiavam o poder dos deuses. Não por acaso, Zeus decidiu separá-los, enfraquecendo-os. Desde então, um passaria eternamente buscando o outro, sua metade perdida, sua alma gêmea.

hedwigO mito sobrevive até os dias de hoje. Afinal, não é difícil encontrar pessoas procurando pela “outra metade da laranja”, almejando a possibilidade de encontrar aquele alguém com o qual se possa fundir e “voltar” a ser um só. Mas e quando se nasce “andrógino”? Quando as duas metades já vem confusas numa única pessoa, denunciando um aparente descuido dos deuses? É o que “Hedwig: rock, amor e traição” (“Hedwig and the angry inch”, 2001) vem contar.

Baseado num musical off-boradway, o filme é embalado ao ritmo do rock n´roll e escrito e dirigido por John Cameron Mitchell, que também atua no papel principal. “Hedwig” foi o primeiro trabalho do diretor de “Shortbus“. Logo na primeira cena, somos apresentados a uma inusitada banda de rock: entre roqueiros “invocados” e guitarras distorcidas, aparece uma transexual. De maquiagem carregada e uma enorme peruca loira, Hedwig é a vocalista. Daí pra frente, a narrativa não-linear nos conduzirá através de flashbacks e divagações dos personagens, através dos quais descobriremos que Hedwig nascera na Alemanha Oriental em plena guerra fria. Almejando uma vida melhor, o ainda-garoto Hansel faz uma cirurgia de mudança de sexo para poder se casar e tentar o sonho americano. Só que a operação não dá muito certo: Hedwig fica com uma “polegada” de pênis, a tal “angry inch” (algo como “polegada furiosa”) do título original.

O mais interessante em “Hedwig”, e, talvez, tema principal do filme, é justamente a dualidade. hedwig1 Tudo no filme gira em torno dessas divisões, quebras, sempre quebrando ao meio algo que deveria ser uno. E Mitchell parece ter notado isso desde o roteiro trazendo para a sua direção, que se torna extremamente fragmentada, partida. O filme é quase “clivado”, na medida em que vai se dividindo junto com a personagem principal enquanto nos conduz a um final que se poderia dizer apoteótico. Passado e presente, causa e consquência… tudo se desconecta. As convenções não parecem coerentes quando a história a ser contada gira em torno de assuntos transgressores como o rock e a transexualidade.

Primeiro, parte-se a Alemanha. Um só país rachado ao meio por um muro. Mas o filme não nos contará essa história com diálogos, nem com imagens documentais. Tudo vira animação. Afinal, nada mais justo do que visitar as lembranças da infância de Hedwig através de seus próprios desenhos (aqui criados por Emily Hubley). E é violentamente, como a guerra, que se forma a personalidade de Hedwig.

Parte-se então a personagem. E é aqui que Mitchell demonstra seu talento precoce (trata-se de seu primeiro filme) na direção. A primeira relação sexual de Hedwig, por exemplo, é mostrada de uma forma que mistura humor e poesia. O diretor brinca com as imagens, metáforas e as conhecidas “balas de ursinho”, criando uma das sequências mais notáveis do filme. O mesmo acontece, aliás, ao longo de toda a história: dificilmente veremos algo decupado de forma naturalista. Como a própria Hedwig, tudo ganha um tom bizarro, inusitado. Entre as cores bem compostas e as imagens alucinantes que compõem o estilo de Mitchell, o público não sabe onde acaba a forma e começa a função. Mais uma dualidade misturada.

Hedwig2E há a música, afinal, estamos falando de um musical. Composta por Stephen Trask (que no filme interpreta um dos membros da banda), a trilha vai do rock mais pesado até o mais pop. E as letras são uma atração a parte. “Origins of love”, por exemplo, em que Hedwig conta como acredita ter surgido o amor, passa pelo mito das almas gêmas de Platão, ganha pitadas de cosmologia (misturando deuses das mitologias nórdica, grega, egícpcia e judaica) e termina sem deixar de lado as guitarras nervosas e a atitude “violenta”. Aliás, cosmologia é assunto que dá pano pra manga em “Hedwig”. Em uma outra cena, vemos Hedwig como uma inesperada Eva ao lado de um confuso Adão. Em um “éden” projetado contra um fundo branco, os dois discutem questões que vão do criacionismo ao relacionamento entre eles.

Embora a imensa maioria das canções seja cantada nos próprios shows da banda, na medida em que vamos conhecendo o passado (e o presente) dos personagens, elas começam a ser, também, parte importante da narrativa. Essa junção entre a música e a história também acontecerá de forma progressiva, fechando outra das muitas dualidades com que “Hedwig” brinca.

Finalmente, as atuações dão vida a cada personagem de “Hedwig” de uma forma visceral.Mitchell faz de Hedwig uma diva do absurdo, uma adorável megera. Não se trata apenas de uma transexual (que por si só faz do papel um desafio), mas de uma transexual que traz em si as dualidades de um mundo que, desde sua sexualidade até seu país de origem, se rasga ao meio. Hedwig é intempestiva, bipolar. Ao mesmo tempo que se torce por ela, queremos vê-la pagar pela forma como trata as pessoas ao seu redor. Hedwig3Não são apenas os gêneros que se misturam na personagem.

Outra atuação de peso é mérito de Michael Pitt (que em 2003 se tornaria conhecido por seu papel em “Os Sonhadores”, de Bertolucci). Com apenas 20 anos na época, Pitt compõe de forma surpreendente e humana o rock star Tommy Gnosis, “cria” da própria Hedwig. E é interessante notar como as expressões, o gestual e mesmo o olhar do ator mudam ao longo da vida de Tommy: desde a adolescência, quando ainda vivia com os pais conservadores, até a vida desregrada e enbanjadora de uma grande estrela da música.

Hedwig foi lançado em 2001, ano em que, coincidentemente, aconteceram os atentados contra as torres gêmeas. É engraçado pensar que, mais uma vez, o mundo seria partido ao meio: oriente e ocidente estariam novamente separados. Num tempo em que o “outro” se torna motivo de medo e estranhamento, Hedwig representa tudo o que se queria banido: trangressão, homossexualidade, transexualidade, instabilidade. Misturava em si dois lados que deveriam estar nitidamente divididos. O mundo, como na infância de Hedwig, não estava preparado para ela. Talvez esteja aí a grande sacada do filme: lembrar que o andrógino, desde o mito de Platão, precisou ser dizimado pelos deuses, uma vez que ameaçava sua soberania. Sendo profano, quando este ser eventualmente ressurge, provoca incômodo, nojo, instabilidade. Entretanto, ele é a única evidência de que, ainda que humanos, podemos desafiar o poder do Olimpo.

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