ChansonsQuem for assistir “As canções de amor” (Les chansons d´amour, 2007) esperando um musical, no sentido grandioso do termo, talvez se decepcione um pouco. O longa, dirigido por Cristophe Honoré, não se parece em nada com “Chicago” (2002), “Moulin Rouge” (2001) e muito menos “Cantando na chuva” (1952). O que não quer dizer que fique devendo alguma coisa pra qualquer desses filmes. A trilha, composta por Alex Beaupin, vai do rock/pop ao jazz, trazendo letras poéticas o bastante para arrancar do público um pouco mais do que suspiros. Além disso, Louis Garrel (que já trabalhara sob a direção de Honoré em “Em Paris”, 2006), Ludivine Sagnier e Clotilde Hesme apresentam atuações fantásticas (em todos os sentidos), fazendo de “canções” um grande espetáculo. Mas não um espetáculo grande. “Canções” é simples, pequeno. Canta ao pé do ouvido e não num microfone. É off-broadway, por assim dizer.

Logo na sequência de abetura (em que os créditos aparecem garrafais e apenas com os sobrenomes da equipe), vemos imagens de Paris pela noite e ao entardecer. Aliás, a cidade é um personagem importante para a história. Cada beco, monumento, praça, parque e apartamento parece estar amalgamado de uma forma quase orgânica às vidas dos personagens. Ismaël (Garel), por exemplo, parece não ser concebível em nenhum outro lugar que não lá. “Neo-boêmio”, brincalhão ao estilo “mímico parisiense”, o rapaz trabalha como diagramador num jornal e divide o apartamento com a namorada Julie (Sagnier). Julie, por sua vez, gosta de ir ao cinema e alguns parques da cidade. Tentando avivar o relacionamento, acaba deixando que Alice (Hesme), uma colega de trabalho de Ismaël, passe a fazer parte da relação. Alice tem ares de Simone de Beauvoir: sexualmente liberal, nutre interesses políticos.

Mas “Canções” não trata de um triângulo amoroso. É mais um emaranhado, um novelo. E dependendo de como essas linhas se embaraçam, vemos desenhar-se a nossa frente uma bela tentativa de entender um sentimento tão óbvio no cinema (mas raras vezes mostrado de forma tão simples): o amor. É interessante notar, aliás, que o papel da música no filme é justamente esse: servir de poética para falar sobre algo que as palavras sozinhas parecem não dar conta. Assim, cada vez que um personagem se vê apaixonado, saudoso, ciumento, ele se expressará através de uma canção. E apenas isso. Há coreografias, mas elas servirão somente para “poetizar” os movimentos naturalistas da cena. As falas ganham uma poesia incomum a um simples diálogo, tornando-se belos poemas.

Chansons1Julie, Alice e Ismaël: um emaranhado amoroso

A direção de Honoré é outro ponto forte. Há em “canções”  ecos de “Acossado” (Godard, 1960) e mesmo do polêmico “Os sonhadores” (Bertolucci, 2003). Talvez pela paixão do cineasta por Paris, ou apenas pela paixão, que se torna por vezes o mote principal do filme. Mais ainda, “Canções” foge do óbvio o tempo todo. A começar pelo próprio roteiro, que se sustenta sobre um “casal de três”. Para além disso, o diretor divide o filme em três partes: “A partida”, “A ausência” e “O retorno”. Essa perspectiva é interessante e reconfigura a própria forma como a história é compreendida.  Quem parte? Quem retorna? Levar o espectador a esse tipo de questionamento acaba fazendo com que ele se defronte com as questões principais do longa, sem se “alienar” na história. Alguns recursos visuais também são utilizados de forma interessante. Numa cena trágica, por exemplo, Honoré congela alguns frames em preto e branco e os transforma em grandes “fotos”, que parecem saídas de um jornal. Suprimindo tempo e espaço, a sequência de poucos minutos acaba por contar várias semanas. Um bom exemplo de como uma direção autoral ajuda a construir filmes interessantes.

Chansons2Louis Garrel como Ismaël: o filme conta com grandes e intensas autações

E se a direção é notável, o mesmo pode ser esperado das atuações. Há algo de “exagerado” nos personagens de “Canções”. São hiper-reais. Parecem feitos daquela poesia extrema que habita cada uma das músicas que cantam. É impressionante, por exemplo, a naturalidade com que Julie fala sobre sua bissexualidade com a própria mãe (Brigitte Roüan). Aliás, é impressionante a forma como a sexualidade aparece em “Canções”. Sensual e provocativo, o filme coloca o amor num lugar onde os gêneros parecem não ser determinantes. No emaranhado das linhas, não importam os nós, mas a rede. E a entrega dos atores a esses personagens, que amam sôfrega e sinceramente, emociona de forma apaixonante.  Ao mesmo tempo que distantes (porque hiper-reais), cada uma daquelas pessoas parece um velho conhecido (porque feitas quase que apenas de sentimentos). Mais do que Isamël, Alice, Julie, desfilam pela tela angústia, paixão, saudade, medo. Sentimentos que, desde sempre, conhecemos bem de perto.

Chansons3A música e a coreografia transformam a cena numa hiper-realidade poética

No fim, “Canções” dá vontade de ser revisto. É o tipo de filme que se gosta sem saber porque. Como uma música boa, apenas conquista a mente (e o corpo), onde se aloja e fica por um bom tempo. Ao misturar o sentimento e sua representação de uma forma quase indissociável, Honoré produziu um filme que diverte e apaixona, sem deixar de ser provocativo e crítico. Encerrado com uma frase de poesia ímpar, fica a certeza de que o amor, o mais “óbvio” dos sentimentos, ainda pode ser inspiração maior para grandes obras.

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