o-lutadorQuando “O Lutador” (The Wrestler, 2008) foi anunciado, a expectativa tomou conta dos cinéfilos. Primeiro, por causa da “volta de Mickey Rourke”. Afastado de papéis principais desde a década de 80 (quando ascendeu ao posto de sex symbol por causa do drama erótico “Nove semanas e meia de amor” – 1986), “O Lutador” foi alardeado pela mídia como o “grande retorno” do ator. Segundo, porque o filme é a oportunidade ideal para entender o trabalho de Darren Aronofsky. O diretor, que se tornou famoso com o transgressor “Pi” (1998), vem traçando uma trajetória que não permitia (pelo menos até agora) saber que rumo seu estilo tomaria.

A história gira em torno de Randy “The Ram” (Mickey Rourke), “O Lutador” do título. Decadente e sozinho, ele vive das lembranças de seu glorioso passado, quando foi um respeitado “wrestler” – No Brasil, esse estilo de luta ficou bastante conhecido pelo nome de “Teleket” (uma luta livre performática e violenta, baseada na ecenação). Quando Randy tem um ataque cardíaco durante uma de suas lutas de fim de semana, sua vida muda radicalmente. Impedido de lutar, ele tenta recomeçar tudo, pessoal e afetivamente. O  lutador vai, então, atrás da filha, Stephanie (Evan Rachel Wood), que não vê há anos, enquanto tenta conquistar a stripper Pam (Marisa Tomei), por quem é apaixonado.

O primeiro ponto a ser considerado é que “O Lutador” não é um filme sobre lutas e violência. Na verdade, esse universo funciona como um pano de fundo para os conflitos dramáticos da narrativa, esses sim, tema do filme. Embora conte com algumas cenas bastante violentas, “O Lutador” passa a maior parte do tempo mostrando o cotidiano de Randy, suas angústias e seus desafios. Aí já fica bem claro que o roteiro exige bastante dos atores. E eles não decepcionam. Famosa pelas boas atuações, Marisa Tomei compõe a personagem Pam (que lembra vagamente o papel de Demi Moore em Strip Tease – 1996) de forma bastante interessante e cuidadosa. Não por acaso, foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. Evan Rachel Wood, que vem de um papel de “mocinha” em “Across the universe” (2007), agora dá conta de uma personagem bem mais complexa, de temperamento forte e personalidade problemática. Mas a estrela do filme é realmente Mickey Rourke. Vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar de melhor ator, o ator cumpriu “a profecia” feita pela mídia e deu “a volta por cima”.

mickey-rourke_the-wrestler0Rourke como Randy, “The Ram”: o ator não tinha um papel principal desde a década de 80

Mas se a idéia é avaliar a atuação de Rourke, a história do ator (tanto quanto a de Randy), precisa ser levada em conta. Antes de mais nada, deve-se dizer que Rourke convence como “O Lutador”. Seja pela expressão calejada, pelos modos abrutalhados ou pela postura “decadente” diante da vida, Randy ganha vida na tela de forma impressionante. Mérito de Mickey Rourke.

Mas quem é Mickey Rourke, afinal? Um ator decadente que, desde a década de 80 (coincidentemente, mesma época em que Randy estava no auge) não representa grandes papéis no cinema. O que afastou Rourke das telas? Seu comportamento excêntrico e desregrado, que aliás, fez com que o ator tomasse a curiosa decisão de seguir outra carreira em 1991: Rourke decidiou que lutaria boxe, chegando a competir em grandes campeonatos. Alternando lutas e papéis mais ou menos representativos , o ator não alcançou grande sucesso nem no ringue, nem no cinema. E qualquer semelhança entre Randy e Rourke não é mera coincidência. Obviamente a experiência pessoal do ator é essencial para a construção de seu personagem. Entretanto, se a função é representar, fica a dúvida de até que ponto Rourke realmente constrói, representa um personagem. Basta olhar sua história para perceber que o ator pode estar, afinal, “sendo ele mesmo”. Embora isso não diminua seu mérito, – já que, independente dos meios, Randy surge na tela com extraordinária vivacidade – leva, por outro lado, a refletir se todo o alarde em cima da atuação de Rourke é realmente justo. Afinal, pensar no ator para esse papel era certeza de, pelo menos, um trabalho interessante e pessoal. É aí que entra Aronofsky.

o-lutador1Tomei e Rourke: as atuações são ponto forte de “O Lutador”

Aronofsky é, antes de tudo, um diretor consciente do cinema de vanguarda. Em “Pi” (1998), ele usa da estética expressionista (imortalizada em filmes alemães como “O gabinete do Dr. Caligari”, de 1920), para construir um filme bastante inovador. Ainda trabalhando seu estilo, Aronofsky dirige, em 2000, o polêmico “Requiem para um sonho”. É quando o diretor faz da “hip-hop montage” – sequências de imagens abstratas e efeitos sonoros que tentam sintetizar uma ação através da montagem, lembrando Vertov – uma das marcas de seu estilo. Em 2006, Aronofsky dirige “Fonte da vida”, bem mais “comportado” que seus irmãos. “O Lutador” seria portanto um divisor de águas: o momento em que ficaria claro se o diretor seguiria suas experimentações estéticas ou se se dedicaria a um cinema mais clássico e comercial. Aronofsky parece ter escolhido a segunda opção.

“O Lutador” não tem grandes inovações estéticas. A decupagem segue o esquema clássico e não há uma sequência sequer de “hip-hop montage”. Algumas opções de direção interessantes podem ser notadas (como a câmera que segue Randy nos primeiros momentos do filme ou o último plano do longa), mas nada estilisticamente tão ousado como o que se viu em “Pi” ou “Requiem para um sonho”. E é interessante notar que tal fato venha atrelado à crescente entrada de Aronofsky no grande circuito de Hollywood. Não parece portanto, coincidência, que o diretor tenha, pessoalmente, convidado Rourke para o papel principal de “O Lutador”. Aronofsky conhecia a história do ator e, se sua intenção era fazer um filme para arrebatar as academias e as platéias, a escolha foi certeira. Tão logo Rourke ganhou os prêmios, Aronofsky deixou a Fox Searchlight (produtora voltada para diretores do circuito independente) e se tornou o mais novo contratado da MGM (onde já está escalado para dirigir RoboCop). Claro que daqui pra frente podemos esperar menos inovação e mais blockbusters vindos de Aronofsky.

lutadorCâmera acompanha diálogo entre personagens: “O Lutador” não traz grandes inovações de estilo

O grande público (e os grandes estúdios) tem bastante a ganhar com isso, já que esses diretores, ainda que trabalhando nos parâmetros do “cinemão”, tendem a fazer grandes filmes. Gus van Sant, deixou isso bastante claro em “Milk” (2008), tão diferente do inovador “Elefante” (2003), mas nem por isso um filme ruim. É também o caso de “O Lutador”, inquestionavelmente um bom filme. Quem perde, no entanto, são o cinema e arte. Longe da vanguarda, talentos criativos como Aronofsky passam a produzir mais do mesmo, ainda que, eventualmente, com qualidade. Assim como Randy, o diretor passa a arrebatar as multidões, que irão em massa asssitir cada “luta”. Uma pena que, para tanto, o estilo e a inovação tenham que levar uma bela de uma surra.

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