Assim como para toda a cultura ocidental, os anos 60 foram um período interessante para o cinema. Enquanto Hollywood explodia em alguns de seus mais retumbantes musicais (West Side Story, 1961 e A noviça rebelde, 1965), também produzia uma infinidade de filmes de baixo orçamento. Como custavam pouco e arrecadavam muito, esses filmes eram o motor o da indústria cinematográfica da época – mesmo hoje emo_spaghetti_westernbmp dia, alguns estúdios ainda lançam mão dessa estratégia. O interessante era notar que, justamente por estar mais “livre” dos padrões estéticos da mainstream cinematográfica, esse cinema permitia aos diretores usar livremente a criatividade. O resultado, claro, era muitas vezes tosco. As limitações técnicas e orçamentárias resultavam em erros de continuidade, fotografia, efeitos visuais e mesmo roteiros que beiravam o absurdo. Por outro lado, essas caracterísicas iam, aos poucos, se consolidando como uma nova linguagem audiovisual. Gêneros até então considerados menores, como a ficção científica ou o western, ascenderam, justamente nesse período, à categoria de “gêneros legítimos” do “grande cinema”, graças a inventividade e o talento de profissionais que começaram pelas “rebarbas” da indústria cinematográficas.

Dentre esses sub-gêneros, um dos mais interessantes era o “spaghetti western”. Foi como Hollywood apelidou os inúmeros faroestes realizados por diretores italianos. Produzidos de forma bastante tosca, esses filmes acabaram entrando para o imaginário da cultura pop com seus famosos “duelos de dez passos” e “pistoleiros mais rápidos do oeste”. Mais do que isso, o “spaghetti western” foi responsável por revelar grandes profissionais do cinema como Sérgio Leone (diretor de “Era uma vez na América”)  ” e Ennio Morricone (compositor de trilhas sonoras premiado com Oscar honorário pelo conjunto da obra).

tampopo31Provavelmente, Juzo Itami estava pensando nisso quando escreveu e dirigiu Tampopo (1985). Não por acaso, o slogan do filme diz: “O primeirdo noodle western japonês!”.(Noodle é o macarrão oriental, usado em pratos como o Yakisoba). E é mais ou menos o que se pode esperar do longa. Muito antes que Tarantino ou Guy Ricthie começassem a brincar com paródias e referências ao cinema trash, Itami misturou influências da Nouvelle Vague francesa, do spaghetti western e da cultura japonesa, criando uma obra que acabou se tornando cult, além de referência importante do cinema alternativo.

Tampopo (Nobuko Miyamoto) – ou “dente-de-leão”, na tradução literal – é dona de um restaurante decadente de sopa de macarrão. Goro (Tsutomu Yamazaki) é um caminhoneiro (com chapéu de cowboy e ares de pistoleiro) que acaba indo parar nesse restaurante  durante uma de suas viagens ao lado de seu ajudante, Gun (Ken Watanabe). Depois de criticar o macarrão de Tampopo, a moça pede que Goro fique e a ensine a fazer a “sopa ideal”. Começa aí uma grande e divertida aventura em busca da comida perfeita. Claro que isso não será fácil. Os restaurantes concorrentes não querem perder “terreno” e existem mais segredos na arte de cozinhar do que imagina nossa vã filosofia.

Aliás, o tema do filme é justamente esse: comida. Mais do que contar a história de Tampopo e Goro ou divertir o público com as situações absurdas – quase surreais – enfrentadas pelos protagonistas, o longa é um grande elogio à comida. Isso explica as várias narrativas paralelas (sem o mínimo nexo causal) que irrompem, sem maiores explicações, à margem da história principal. O que une todas elas? O fato de que falam sobre comida, em todas as suas facetas. Obsessão, sexo, escatologia, violência, poder, sofisticação, cultura. Tudo isso se torna “comestível” em Tampopo, fazendo lembrar filmes como “A festa de Babette” (1987) e “Tempero da vida” (2003).

Essas várias “historinhas” tornam a montagem e a decupagem de Tampopo um dos pontos mais interessantes do filme. Logo na primeira cena, um personagem (do qual não se sabe o nome) levanta da sala de cinema , vai até a câmera, olhando para o público, e diz:”Ah, então você também está num filme?” Desde o primeiro momento, portanto, fica-se alerta para o fato de que tudo que se verá é um filme, e, como tal, não ficará preso aos nexos causais e “quadrados” da realidade. Por isso, não é de se estranhar que uma história esteja dentro de uma outra que está em uma tampopo1terceira (no melhor estilo surrealista). Ou mesmo que, sem mais nem menos, corta-se de uma cena da história principal para uma das histórias paralelas, sem que haja a mínima conexão (mesmo intelectual) entre as duas. A idéia é manter um “fluxo de consciência” que fale de comida. O resto é só detalhe. Como numa receita culinária, misturam-se os ingredientes e o importante passa a ser o gosto do prato, e não de cada um dos seus componentes.

As referências também são importantes para se compreender Tampopo. Primeiro, é claro, o western. Presente não apenas no figurino de Goro, mas em toda a estrutura da narrativa principal, é fácil notar que a corrida de Tampopo para fazer o melhor macarrão não difere muito daquelas travadas nos desertos americanos para ver quem era o pistoleiro mais rápido ou mais temido. Aliás, a concorrência entre os restaurantes e os artifícios (às vezes violentos) usados na grande “batalha pela melhor sopa” poderiam muito bem se passar em um saloon do velho oeste. Tudo claro, feito de forma leve e cômica. Alguns diálogos entre Goro e seus adversários também lembram bastante o western. O primeiro plano dos olhos, as frases provocativas e a falação excessiva na iminência de um combate (que às vezes sequer acontece) estão lá, parodiando o faroeste.

Da Nouvelle Vague, Itami trouxe inovações de linguagem visual. Os jump cuts (elogiados e utilizados por Godard) aparecem várias vezes, assim como grandes planos-sequência. Só que aqui, esse tipo de plano será usado não para libertar o espectador da “ditadura” de uma montagem naturalista (como é o caso do neo-realismo italiano), mas para exagerar o efeito cômico de certas cenas (como o engasgamento de um velhinho num restaurante, onde a câmera observa por vários minutos a ação transcorrida).   E claro, a auto-reflexividade está presente. Vários artifícios para lembrar ao espectador que aquilo tudo se trata de um filme, uma produção. Isso acontecendo, na maioria das vezes, de forma engraçada.

tampopoFinalmente, há a influência da cultura japonesa. É interessante observar, por exemplo, como a hierarquia mestre-aprendiz é importante para a própria constituição da narrativa. Afinal, Tampopo precisa de mestres (e de seguí-los, humilde e disciplinadamente) se quiser chegar à perfeição culinária. A Yakuza (máfia japonesa) também aparece no filme, através das várias narrativas paralelas. Mesmo a importância da comida para a cultura japonesa é mostrada, afinal, não só temos um filme sobre comida, mas sobre comida japonesa.

Uma cena bastante interessante nesse sentido acontece quando um mestre ensina a seu discípulo a forma “correta” de se comer uma sopa de macarrão. No meio de um monte de piadas nonsense, fica bastante marcada a influência da tradição japonesa em Tampopo. E, em se tratando de um filme que se pretende paródia de um gênero americano, a mistura de tudo é não apenas interessante, mas ilustrativa do contexto histórico do Japão na década de 80 (data em que o filme foi produzido).

Tampopo é filme obrigatório para todas as pessoas que gostam de cinema pop e alternativo. Mais do que isso, é também um bom exemplo de como uma direção inovadora e criativa pode ser, também, engraçada e divertida. Um filme exótico e delicioso como a culinária japonesa.

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