short4

Quem assite à introdução de “Shortbus” (2006) tem a impressão de estar vendo um filme pornô. E não está de todo errado. Por inúmeros motivos, o longa poderia figurar fácil na sessão pornográfica de qualquer vídeo-locadora. Exceto pelo fato de que, ao escrever e dirigir o filme, John Cameron Mitchell foi um pouco mais longe do que seus possíveis companheiros de estante teriam ido. “Shortbus” é um exemplo brilhante do que Susan Sontag chamou de “imaginação pornográfica”. Mais do que isso, o filme usa do imaginário pornográfico para penetrar (e o trocadilho aqui é de especial importância) em terrenos só acessíveis através de outras vias estéticas: o amor romântico, a cultura ocidental, vida urbana e até política.

Através de uma maquete animada de Nova Iorque (desenvolvida por John Bair de uma forma bastante interessante) vamos conhecendo os nós da grande rede na qual o filme envolve o público. Sofia (Sook-Yin Lee), por exemplo, é uma terapeuta sexual, mas prefere ser chamada de “terapeuta de casais”. A informação parece importante porque, em seguida, se descobre que apesar da intensa vida sexual com o marido, a moça nunca teve um orgasmo. Entre seus pacientes estão James (Paul Dawson) e Jamie (PJ DeBoy), dois rapazes que, ao verem a relação em crise, pensam na possibilidade de abrí-la através da entrada de uma terceira pessoa. Enquanto isso, Severin (Lindsay Beamish) atende um de seus clientes com requintes de crueldade. Ela é uma dominatrix.

short21 O que todos eles tem em comum? É o que o filme tenta responder, carregando o espectador através de um labirinto orgiástico que converge para uma casa noturna alternativa: o “Shortbus” (“ônibus pequeno”, em tradução literal). É lá que, cedo ou tarde, todos os personagens se encontram. Não apenas uns com os outros, mas cada um com seus próprios medos, desejos, problemas.

É importante lembrar que o filme foi feito de forma inovadora já desde o roteiro. Mitchell decidiu, em primeiro lugar, não utilizar atores conhecidos, já que pretendia desde o começo rodar cenas de sexo ousadas (o primeiro nome do filme era “The sex film project”). Mais do que isso, o diretor optou por escrever o roteiro usando diálogos espontâneos, através das prórprias experiências dos atores. Cada um deles foi escalado pelo próprio Mitchell em uma festa promovida mensalmente por ele em Nova Iorque. O nome do evento era justamente “Shortbus”. É interessante notar, portanto, que o casal James e Jamie são namorados também na vida real. Ou que a atriz que interpreta a terapeuta Sofia, apresenta um programa de entrevistas na TV canadense. E é por isso mesmo que as experiências pessoais dos atores acabam servindo para compor cada um dos seus personagens. Mitchell não trabalhou com roteiros prontos, mas com diálogos improvisados, mantendo apenas “situações-guia” que deveriam ser obedecidas. E assim surgiu “Shortbus”.

Voltemos então a Susan Sontag. Em seu conhecido ensaio “A imaginação pornográfica” (publicado no livro “A vontade radical”),a autora lembra que, mais do que ultrajar o seu público, a pornografia deve oferecer a ele a consciência do ultraje pelo qual o próprio artista tem de passar para realizar a obra de arte. Ao supor portanto, uma estética que valoriza o risco espiritual (leia-se “mental”, “moral” ou mesmo “social”) como sacrifício necessário para se alcançar o artístico , desmancha-se a fronteira entre a “fantasia” e a “realidade”. É algo que beira o surrealismo (não por acaso, Breton era leitor assíduo de Sade). E, sob esse ponto de vista, parece claro o motivo pelo qual “Shortbus” é um banquete não apenas para o intelecto, mas também para os sentidos. O delírio (visual, orgástico, lógico ou até mesmo patológico) é parte importante do filme.

short1“Shortbus” agrada, em primeiro lugar os olhos. As cores são sempre cítricas, bonitas, chocantes. Cuidadosamente compostas, parecem querer lembrar que cada plano faz parte da grande maquete animada que mantém coeso o fio narrativo.

Para os ouvidos, o longa traz uma trilha sonora composta pelo grupo musical “Yo la tengo” que mistura jazz, pop, rock… e o resultado é qualquer coisa parecida com as trilhas dos musicais da década de 60, ou mesmo de old Hollywood., uma “confusão musical” que continua tamborilando na cabeça mesmo depois dos créditos finais.

E os sentidos táteis? Como afetar o olfato, o tato, o paladar de um espectador? É esta a importância da pornografia em “Shortbus”. Através de orgasmos explícitos, de primeiros planos de órgãos genitais e outras façanhas tão comuns no cinema pornô, Mitchell tenta fazer com que a narrativa tenha uma relação íntima, sexual, com seu público. Embora não seja seu fim (e sim seu meio), “Shortbus” excita – ainda que o “tesão” aqui seja bem diferente. E concorda com Sontag, quando diz que a pornografia deve excitar. Se não pela lembrança do sexo em si, excita pela lembrança de outros filmes “de sacanagem”, outros contos. É a “imaginação pornográfica”, isto é, o conjunto de arquétipos, tipos, trejeitos, que tornam algo, convencionalmente, pornô. “Shortbus” faz do pornografico uma linguagem para dizer mais do que “goze”. É uma tentativa de ser uma grande metáfora do gozo.

short3Até na decupagem, “Shortbus” é pornográfico. No pornô, vemos o humano sendo fragmentado, “despedaçado” e servido ao espectador como um banquete. Os planos se revezam entre vaginas, paus duros, peitos e bocas, não economizando close-ups. Aqui, a coisa não será muito diferente. A narrativa é estilhaçada em inúmeras sequências que vão se sucedendo não apenas no tempo, mas também no espaço, através da grande maquete animada.  Demora até que tenhamos uma idéia mais ‘holística”, mais completa, da trama. Assim como um plano geral de uma transa num filme pornô pareceria estranho, “Shortbus” evita a linearidade espacial na montagem, sempre alternada entre pelo menos três eixos narrativos, não necessariamente encadeados entre si. A decupagem, de alguma forma, segue esse padrão, nunca revelando grandes planos das cenas ou dos atores, dando sempre preferência a enquadramentos que velem algumas partes enquanto outras, inusitadas, são reveladas. O voyuerismo também é explorado quando algumas cenas transcorrem do ponto de vista de outros personagens (ou de suas câmeras).

No fim de tudo, o que “Shortbus” traz de novo? Com certeza não é o primeiro filme pornográfico (no sentido de Sontag) que se mostra esteticamente atrativo. “O império dos sentidos” (Nagisa Oshima, 1976), “Nove canções” (Michael Winterbottom, 2004) e mesmo o brasileiro “Amarelo Manga” (Cláudio Assis, 2003) são filmes – apenas para citar alguns exemplos – que apresentam algumas semelhanças com “Shortbus” principalmente por causa da estética pornográfica. O que Mitchell acrescenta nessa lista é a leveza. Nunca antes o pornográfico parece ter sido usado de forma tão leve, quase como numa comédia romântica. Talvez por isso o filme conseiga levar o público, meio dopado pelo delírio e pelo absurdo, para lugares onde ele não iria “sozinho”. Do meio da orgia, brotam questões que rondam as identidades de gênero, o amor (lato sensu), a privacidade e até o 11 de setembro. Esse é o maior mérito de “Shortbus”: o filme goza da rara habilidade de “fazer pensar” (em todos os sentidos).

Assista ao trailer

Anúncios