Desde “Melinda e Melinda” (2004) que Woody Allen parece estar às voltas com um questionamento que, de uma forma ou de outra, também dá grande parte da tônica de sua filmografia: tragédia ou comédia? Oscilando entre dramas criminais e comédias quase burlescas, o diretor parecia se esforçar em tentar transformar os dois gêneros em um único. Entretanto, acabava sempre pendendo pra um dos lados.

vicky-cristina-barcelona_2Mas algo diferente parece ter vindo com a brisa do mediterrâneo. Em “Vicky Cristina Barcelona” (2008), filme recém chegado às locadoras brasileiras, Allen borra a linha entre o trágico e o cômico até o ponto onde não há mais cisão, apenas cotinuidade. Classificado como comédia, o filme parecerá muito sério para quem pretende dar gargalhadas. Os dramáticos de plantão acharão que é leviano e que “brinca com coisa séria”. Tudo porque “Vicky Cristina Barcelona” está longe do romantistmo. Cronologicamente falando. Contemporâneo como cada um de seus personagens, o filme deixa pra trás qualquer resquício da narrativa calcada no melodrama. Não há espaço para “mocinhos e vilões”, nem amor a ser conquistado. Como na vida real, tudo é causa pra consequências quase sempre desconhecidas. E o grande barato de assistir “Vicky Cristina Barcelona” está em se deixar levar pelo torvelinho de situações inusitadas, temperadas pelos sempre sagazes diálogos de Woddy Allen.

Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson, a nova queridinha de Woddy Allen) são grandes amigas americanas que decidem passar o verão em Barcelona. Vicky é a “boa moça”. Tem um trabalho regular, é romântica e acredita no amor duradouro e sincero. Não por acaso, está de casamento marcado com um partidão novaiorquino. Vicky poderia ser a mocinha de qualquer comédia romântica. É a metade cômica, romântica, da história.

Já Cristina é impulsiva e hedonista. Artista, possui vínculos profissionais tão frágeis quanto os amorosos. Acaba de sair de um relacionamento conturbado e pretende encontrar em Barcelona a paz que precisa pra “descansar”. Cristina é dramática, intensa. Poderia muito bem ser a heroína de dramas épicos como “…e o vento levou” ou ‘Titanic”. É a metade dramática da fórmula.

Falta então um catalisador, algo que faça com que esses dois ingredientes sejam finalmente misturados, criando uma história que vá além das estruturas de gênero da qual o cinema comercial tem sido refém. E esse catalisador é Juan Antonio (Javier Bardem, ganhador do Oscar de melhor ator em 2007). Pintor, boêmio e, não menos importante, europeu, o charmoso “amante latino” entra de sopetão na vida das duas “mocinhas americanas” e bagunça tudo o que parecia ser tão claro. Pra piorar, Juan Antonio traz no currículo uma ex-esposa que parece ter saído de um dos filmes de Almodóvar: a transtornada Maria Elena (Penélope Cruz, que levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por essa atuação).

cruz-vicky-cristina-barcelona1Cruz como Maria Elena: a atuação exagerada e forte lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante

Está feita a confusão. Assim como Juan Antonio e Maria Elena desequilibram todas as estruturas morais, sexuais, enfim, românticas, tão comuns na sociedade americana, o filme desequilibra a estrutura da narrativa causal, ética, vitoriana, enfim, romântica, agora no sentido estético. Não por acaso, um dos personagens diz num determinado momento: “Apenas o amor não realizado pode ser romântico”. E não é sobre romantismo que “Vicky Cristina Barcelona” fala, mas do amor per se. Do amor que consome e é consumido, um amor que está longe da transcendência, mas flerta com a decadência. Mais humano do que divino. Um amor pós-romântico.

vicky-cristina-barcelona_l1Cruz, Bardem e Johansson: os eixos amorosos nunca apresentam apenas dois pólos em ‘”Vicky Cristina Barcelona”

É claro que Woody Allen também não deixaria a bela paisagem mediterrânea passar batida. Colorindo o filme com uma fotografia gritante nos tons quentes, o diretor faz com que as cenas transcorram em pontos turísticos consagrados da cidade catalã, indo da Sagrada Família ao Parque Güell, da Casa Milá aos arredores bucólicos e redutos boêmios de Barcelona. A cidade é, aliás, outro elemento importante para catalisar a reação entre o dramático e o cômico. Afinal, não conhecemos muito sobre a vida de Vicky e Cristina antes de Barcelona.  Tampouco interessa conhecer o que virá depois. Barcelona faz paella com as vidas de suas duas visitantes e serve num prato colorido o bastante pra agradar os olhos (e o paladar) do público.

vickybarcelonaBarcelona: o cenário tem papel crucial para a história

No final de tudo, “Vicky Cristina Barcelona” é um daqueles filmes que deixa a impressão de “quero mais” ou de que não disse tudo o que deveria. E talvez seja verdade. A voz em off, que nos conta a história (em um tom que beira o deboche em certos momentos) não emite opinião em hora alguma. Deixa os “problemas” , as pontas soltas, nas mãos do público. Ele que, se quiser, resolva. Afinal, como o amor pós-romântico, não é algo pra ser julgado ou visto, mas para ser vivido.

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