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Chegar ao limiar do humano. Lars Von Trier parece perseguir essa meta desesperadamente ao longo de sua filmografia. Quem assistiu “Dogville” (2003), “Manderlay” (2005) ou “Dançando no escuro” (2000), apenas para citar os exemplos mais conhecidos, deve ter notado que o diretor não mede esforços para levar o público até aquele ponto onde os valores sociais se desvanecem num turbilhão de ambiguidade e só resta nas mãos do espectador a natureza (talvez humana), em sua incômoda neutralidade. Mas em nenhum filme, Von Trier parece ter ido tão longe como em “Os idiotas” (“Idioterne”, 1998).

Usando das regras que ele mesmo ajudou a proclamar no manifesto do Dogma 95, o diretor conta sua história com uma linguagem que, de saída, ousa despir-se de tudo que lhe seria convencional: não há iluminação artificial, não há gruas nem tripés (a câmera fica na mão e nos ombros), não há maquiagem e nem adereços de cena. O resultado é uma imagem que lembra videos caseiros feitos em VHS. Semelhança que torna ainda mais “real” -e incômoda – a história contada.

theidiots1 “Os idiotas” narra o cotidiano de um grupo que decide burlar as regras correntes da sociedade e viver como se fossem deficientes mentais durante um período de tempo. Numa grande casa, essas pessoas passam os dias babando, balbuciando e fazendo todo tipo de loucura para si mesmos e para as pessoas ao redor. Durante uma das inúmeras intervenções do grupo, Stoffler (Jens Albinus) acaba arrastando uma moça desconhecida para a casa dos “Idiotas”. E é através de Karen (Bodil Jorgensen) que o público é também jogado, meio que de súbito num mundo que, literalmente, “se faz de bobo pra viver”.

O primeiro incômodo acontece quando o espectador, querendo rir de algumas situações que beiram o burlesco, se vê moralmente constrangido a fazê-lo. É com isso que Von Trier vai lidar ao longo do filme, de forma cada vez mais intensa. Como é possível, afinal, sentir pena de pessoas que sabemos serem mentirosas?

E não pára por aí. Uma vez num mundo de “Idiotas”, é preciso se comportar como eles, “descobrir seu idiota interior”, como um dos personagens diz em uma cena. E qual não é a surpresa ao perceber que quanto mais idiotizados os personagens, mais próximos eles ficam do que se acostumou a chamar de humano? Isso fica claro quando, em meio a uma orgia, dois personagens se “idiotizam” para partilharem, na inocência da debilidade, seu sentimento. Talvez não haja nenhuma outra cena, em todo o filme, com tamanha humanidade. Quebrando inclusive a tensão erótica da sequência ,- que contém cenas de sexo explícito – tudo o que se vê nesse momento é o rosto dos personagens. A câmera, até então nervosa, pára e contempla a “idiotice do amor sincero”, em sua infantilidade e imperfeição.

theidiots2Se identificar com tudo isso talvez faça de “Os idiotas” um filme que causa repugnância. Não se trata do espelho de Narciso. É mais como um “espelho da Medusa”, que virou pedra ao ver sua própria imagem no escudo de Perseu. Frente a própria figura, que indiferencia de forma brutal coisas como o ódio, o sexo, a família, a amizade e a moral, é bem provável que o espectador, como humano, se sinta, no mínimo, incomodado. E a imagem, tremida e granulada, não vai contribuir em nada pra mudar isso. “Os idiotas” não é o tipo de filme que pretende levar o público a pensar. Pior, força-o a sentir. Se a reflexão virá depois, é um problema nosso. Como seus personagens, “Os idiotas” é uma experiência de presente, não de passado ou futuro.

Por que, então, enfrentar quase 2 horas de imagens “feias” e contundentes? Se o objetivo for entretenimento e/ou deleite visual, não há razão alguma para assistir “Os idiotas”. Nem mesmo o enredo será interessante o bastante para prender qualquer espectador que pretenda apreciar o filme como se aprecia uma boa história.

Entretanto, para qualquer pessoa que pretenda apreciar uma obra de arte sobre a natureza humana, “Os idiotas” é uma recomendação quase obrigatória, uma experiência estética para quem busca o auto-conhecimento mesmo sob o risco de virar pedra. Ou descobrir que “Os idiotas” do título podem não estar na tela…

Assista ao trailer

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