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A professora desenha um cachorro no quadro e pede que as crianças repitam:”dog”. Em seguida, começa a colocar a palavra em longas e rocambólicas frases em inglês, dando nó na língua e no cérebro de seus alunos da região rural da França. Lá fora, como se pode ver pela grande janela, seu marido passa correndo desajeitadamente com a turma de educação física. E assim começa “Rumba”, dirigido pela dupla de protagonistas, Dominique Abel e Fiona Gordon, além de Bruno Romy. O espectador talvez estranhe por um momento a câmera parada, que simplesmente observa o transcorrer da ação de personagens tão imporváveis quanto a história que vivem. Mas é exatamente aí que está o charme do filme: de forma inovadora no cinema atual, “Rumba” esquece os movimentos de câmera exagerados, os efeitos especiais, a lógica das coisas. O que não significa que o resultado seja simples ou pouco elaborado: o público se delicia com as imagens extremamente bem compostas e o roteiro enxuto, quase sem diálogos. “Rumba” é um espetáculo para os olhos. Cada cor, cada forma, cada movimento contribui para a formação de imagens que beiram o pitoresco.

rumba3 E parece ser exatamente esse o caminho que os diretores decidiram seguir. O nome do filme não é “Rumba” por acaso. Como na dança latina, as cores, a forma e o movimento, mais do que diálogos ou a narrativa em si, são o tema principal. Claro que a interpretação dos bailarinos/atores também é imprenscendível. E também aqui, “Rumba” é um espetáculo. O esquisito e desajeitado casal formado por Dominique e Fiona (os nomes são os mesmos no filme) ganha a simpatia do espectador desde a primeira cena. E a partir daí, seguem mostrando que a comédia física – o famoso “pastelão” – ainda pode ser de extremo bom gosto e bastante engraçada. O cuidado dos atores com cada movimento, cada expressão é notável. É como se cada passo fosse de dança. E se a vida é uma rumba, Dom e Fiona parecem prontos para dançá-la apaixonadamente. Afinal, a história se desenrola depois de um acidente de carro sofrido pelos professores após ganharem mais um troféu de dança para sua coleção. No hospital, vem o diagnóstico: Dom perdeu a memória e Fiona teve uma de suas pernas amputadas. Daí pra frente o filme assume um humor que oscila entre a tragicomédia e o humor negro e envolve o espectador numa trama de gags tão engraçadas quanto improváveis.

A influência do proto-cinema e do cinema mudo é clara em “Rumba”. A proximidade com a linguagem teatral e a ausência de movimentação da câmera lembram, e muito, algumas experiências dos irmãos Lumiére como, por exemplo, L´arroseur arrosé (“Jardineiro regando”), de 1896:

Um dos detalhes mais marcantes do filme acima acontece quando o jardineiro, antes de dar uns tabefes em seu ajudante, o traz de volta para o “epsaço da cena” – para que o público possa ver melhor a ação. O mesmo acontece várias vezes em “Rumba”. É como se houvesse um espaço “atrás” ou “ao redor” da cena, por onde os personagens pudessem passar e sair do lado oposto, como num palco. Mas, como é preciso estar sempre em cena, gera-se pretexto para inúmeras sequências que brincam com o espaço e a composição da imagem.

rumba1“Rumba” também é irônico – e, dada a natureza do filme, talvez se possa dizer “debochado” – quanto à  sua própria estrutura. Afinal, um filme decupado basicamente em planos-sequência de câmera fixa não é a coisa mais próxima do mundo do chamado “estilo MTV” ou cinema videoclíptico. Só que a dança é o principal tema do filme que, como já foi dito, tem na imagem um de seus principais atrativos. E com essa “desculpa”, “Rumba” tem trechos que são nada mais, nada menos que videoclipes.  Há um trecho de extrema força criativa, feito apenas com sombras, que poderia figurar tranquilamente no top 10 da MTV. Até porque, a “moda” de clipes com câmera estática tem crescido bastante, tendo feito inclusive alguns virais na Internet. Bons exemplos são os clipes de Here it goes again”, da banda “Ok go” e Her morning elegance” do “Oren Lavie”, que já postei aqui, inclusive.

Por tudo isso, “Rumba” é um filme que merece ser visto. Pra quem não está acostumado a um cinema mais artístico, ele é suave o bastante para entreter, sem deixar de abrir os olhos pra quanta coisa existe num filme além da história que ele conta. E para quem acompanha filmes mais autorais e alternativos, trata-se de uma bela experiência audiovisual, que, possivelmente, deve estar na linha de frente das vanguardas do cinema contemporâneo.

Assista ao trailer

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