Começo de ano letivo. François, professor de língua francesa, prepara-se para enfrentar uma sala de aula da sétima série em uma escola da entre21periferia de Paris. Alunos indisciplinados, diferenças culturais, problemas de aprendizado. Não há mais o que dizer sobre a sinopse de “Entre os muros da escola” (“Entre les murs”, 2008), que estreou no Brasil na última sexta-feira. Grande vencedora da Palma de Ouro em Cannes e indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro, a produção, dirigida por Laurent Cantet, faz do real seu componente mais dramático.

A começar pelo fato de que François Bégaudau interpreta a si mesmo nas telas. O professor é autor do livro que deu origem ao roteiro (também escrito por ele). E assim também acontece com todo o elenco, formado por estudantes reais,usando seus nomes verdadeiros. Bebendo na fonte do neo-realismo italiano – movimento representado por filmes como “Roma, cidade aberta” (1946), de Rossellini, ou “Ladrões de bicicleta” (1948), de De Sica – “Entre os muros…”  não é um filme sobre ações de personagens, mas sobre personagens eles mesmos. Tudo acontece de forma a fazer com que o espectador conheça (ao invés de assistir) o dia-a-dia de uma classe ginasial da periferia de Paris. Não há julgamento, apelo emocional, nem estrutura narrativa melodramática. Há pessoas, com toda a complexidade que “ser humano” implica. O julgamento, a empatia, a emoção, cabem justamente ao espectador.

entreAs diferenças raciais e culturais são fonte de vários conflitos na sala de aula

Então alguém vê e o filme e se pergunta: é um documentário? É ficção? Provavelmente, nunca haverá uma resposta satisfatória, já que “Entre os muros…” parece querer justamente quebrar a fronteira entre essas duas “categorias”. É como se o diretor tentasse dizer através de cada plano que a realidade possui histórias que merecem ser contadas, histórias “cinematográficas”. E, ao mesmo tempo, que o cinema não precisa incrementar essas histórias com uma decupagem elaborada, atores talentosos, fotografia bem trabalhada ou efeitos especiais de última geração para torná-las interessantes É disso que trata “Entre os muros…”. Mais do que o cotidiano da classe, mais do que os desafios de um professor (que se mostra falível, diferente dos “mestres com carinho” a que Hollywood nos acostumou), o filme fala sobre histórias reais, humanas, e da forma de contá-las.

Seguindo a linha de diretores como o brasileiro Walter Salles e o argentino Carlos Sorín, Cantet usa os planos-seqüência e uma decupagem mais reflexiva como tática para envolver o espectador numa trama na qual ele sempre será externo, intruso. É interessante notar, por exemplo, como todas as cenas do pátio são filmados de um ângulo diagonal, sempre visto de cima, como se o público espionasse, sem ser convidado, a ação que transcorre. Dentro da sala de aula, a câmera balança, perturba, “toma pancada” dos personagens que passam indiferentes por ela. E, claro, ela nunca extrapola os “muros” do título. Não se sabe de onde os alunos vem, como e onde eles vivem. O filme coloca o público na mesma condição do professor, dando-lhe acesso apenas ao que ocorre na escola. O espectador é lembrado a todo momento que está assistindo a um filme, e portanto, que aquela realidade não é a dele.

entre1François: como o público, professor não consegue adentrar completamente o mundo dos alunos

E é exatamente nisso que reside o criativo e o artístico de “Entre os muros…”. Numa época em que filmes biográficos (“Milk”, em 2008, “Piaf”, em 2007) ocupam-se em melodramatizar, às vezes de forma caricata, a vida de pessoas que representaram um grande papel no mundo, Cantet deixa de lado a linguagem “padrão” do cinema ficcional para fazer com que personagens reais usem a sua própria ao contar suas histórias. E, surpreendentemente, acaba sendo mais universal, “maior” do que se poderia imaginar. Impossível não pensar na condição atual da cultura muçulmana ao ver como os alunos dessa religião se relacionam com os demais. Difícil não refletir sobre os problemas de imigraçao na Europa ao observar o grande número de estudantes estrangeiros na sala de aula. Até a comparação entre os jovens franceses e os brasileiros se mostra inevitável. Com tudo isso, o público talvez se pegue pensando no papel da educação no mundo contemporâneo. Nesse momento, o filme alcança seu “clímax”, por assim dizer: a reflexão, mais do que a emoção ou a empatia. Se essa é uma estratégia que divirta ou impressione grandes platéias, há controvérsias. Mas é, com certeza, um passo em direção à formação de audiências que apreciem o cinema em sua amplitude máxima. Um cinema que, assim como o mundo, é bem mais complexo do que uma história.

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