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Quem passou perto de uma sala de cinema qualquer nos últimos dias, deve ter reparado no estardalhaço de divulgação de Watchmen (2009). Não por acaso. O filme representa uma nova era da Warner Bros. , que reestruturou sua cadeia de produção. Sendo Watchmen o primeiro rebento super-produzido desses novos tempos, não é de se estranhar que a empresa tenha investido pesado em seu lançamento: o maior dos últimos tempos. Resultado: no primeiro dia de exibiçao, sexta agora, o filme faturou mais de 25 milhões de dólares. Só nos EUA.

Aí você olha esses números, lembra dos cartazes de divulgação e imagina que Watchmen é um belo pipocão, desses pra ver com a família no fim de semana. E se engana. A começar pelo fato de que o filme é censurado para menores por conter cenas extremas de violência, sexo e ser politicamente incorreto. Quem leu os quadrinhos, aliás, não esperava por menos. Watchmen conta a história de super-heróis colocados à margem da sociedade depois que o governo americano baixa uma lei que proíbe sua atuação nas ruas. (sim, “Os incríveis” bebe dessa fonte.) O pano de fundo é os EUA de 1985. A paranóia da guerra fria se mistura à paranóia dos  antigos heróis, que se vêem ameaçados por alguém que acaba de aniquilar um antigo “companheiro de justiça”: o sarcástico Comediante. Watchmen, escrito por Alan Moore e ilustrado por Dave Gibbons, revolucionou as histórias em quadrinhos ao assimilar elementos dos comics europeus e tornar a linguagem dos gibis mais próxima dos adultos. Por isso tudo, é a única graphic novel que aparece na lista dos “100 melhores romances”, feita pela revista Time.

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Com certeza, Zack Snyder (que já havia dirigido a adaptação para o cinema de “300”) tinha tudo isso em mente quando “se meteu” a levar Watchmen para as telas. E fez bonito. Aliás, fez o que Moore e Gibbons pareciam ter na cabeça quando criaram a HQ: misturar elementos pop dos quadrinhos com uma nova linguagem, mais adulta, sarcástica, autoral e politicamente incorreta.  Syder transpôs isso para o cinema. Ipsis litteris. E, ironicamente (como tudo no filme), pode se gabar por ter feito uma das direções mais criativas de um filme de quadrinhos/super-heróis dos últimos tempos.

O filme tem três cenas que mostram que, mesmo se mantendo caninamente fiel ao quadrinho, – o que, por sinal, faz os fãs da HQ rejubilarem, depois das adaptações onsideradas um tanto “arbitrárias” de “O homem-aranha”, por exemplo – Snyder não deixa de imprimir uma identidade autoral em cada sequência – o que faz aficionados por esse tipo de cinema, como eu, ficarem felizes também, em especial depois da pipocagem deslavada de quase tudo que veio antes de Watchmen, com exceções para Sin City e o último Batman. A primeira delas acontece logo no começo do filme, na briga entre o Comediante e seu assassino. Desde Kill Bill o cinema não tinha uma cena de luta (ocidental, diga-se de passagem) tão boa. E quando se percebe que os movimentos da câmera, acelerações e desacelerações são tão absurdos quanto à força dos personagens, nota-se que o diretor está ali, brigando também. Tudo ao som de Unforgettable, como nos quadrinhos.

Um segundo e brilhante momento ocorre quando dois dos heróis protagonizam uma cena de sexo na nave dos vigilantes. A escolha da trilha sonora não poderia ser mais acertada. A Halellujah de Jeff Buckley vem cantada por uma voz debochada, e em versão de paródia, muito condizente com a situação. Em um momento que beira o bizarro, o diretor faz lembrar, de uma só vez, o casamento de Shrek (2001) e a sequência da reconciliação em Edukators (2004) .

A terceira cena acontece quando Rorschach ataca um inimigo no banheiro da prisão. Snyder mantém o ponto de vista do quadrinho, a partir do lado de fora do banheiro. Uma decisão extremamente sábia, já que, em motion picture, a cena ganha uma magnitude acachapante, talvez uma das melhores do filme.

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Tudo isso vem mostrar que o diretor de “300” “cresceu”. E muito. O roteiro é alinear, sem medo de ser feliz (mantendo assim o “esquema” dos quadrinhos, que nos guia pelas histórias através do ponto de vista dos personagens). A montagem é videoclíptica, como cada vez mais parece “aceitável” ao cinema pipoca, sem perder, no entanto, algumas sacadas einsensteinianas de ” montagem intelectual”, essas mais próprias do cinema autoral e independente. Snyder assimila tudo isso e  ainda cita, recria, insinua. Nada me tira da cabeça, por exemplo, que o restaurante de janela redonda, em que dois personagens conversam num determinado momento , é o MESMO usado por Jeremy Podewska em “Os cinco sentidos” (1999). Coincidência ou não, o assunto da conversa em ambos os casos é igual: relacionamentos amorosos.  E alguém mais notou que o computador de Veidt – personagem com gestual afetado, meio gay – tem uma pasta “Boys”? Ou uma alfinetada em Bush (não sei se isso está na HQ também), quando, referindo-se à possível candidatura de Reagan, um personagem diz: “Isso é besteira! Um cowboy em Washington…”?. Por fim, impossível esquecer a inacreditável escolha  d´”A cavalgada das valquírias” (um dos “hinos” de Hitler, cabe lembrar) para o momento surreal em que Dr. Manhattan anda pelos pântanos vietnamitas – ao lado das tropas americanas! (Coppola manda lembranças…)

Por tudo isso, Watchmen vale cada minuto de suas quase 3 horas de duração. É um filme para mostrar que os super-heróis também estão aí para nos salvar do marasmo e que existe um mundo além da pipoca. E o melhor: ele não precisa ser menos divertido.

Assista ao trailer

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