Meu avô, homem do campo, semi-alfabetizado, costumava dizer que “a prática vale a metade da gramática”. Moralismos a parte, é mais ou menos o que “Quem quer ser um milionário?” (Slumdog Millionaire) traz para as telonas. O filme, que tem pré-estreia marcada pra hoje nas grandes cidades do Brasil, chega ao Oscar como favorito avassalador. E não é pra menos. O longa dirigido por Danny Boyle (do inovador Trainspotitng), ganhou absolutamente todos os prêmios que antecedem a mais famosa festa do cinema mundial: entre os 60 troféus já conquistados pelo filme, estão o Globo de Ouro e o prêmio do sindicato de atores dos EUA.

jai-hoMas o que, afinal, torna “Milionário” merecedor de cada estatueta que provavelmente ganhará na noite do dia 22? Acima de tudo, a história (do roteiro e do filme).  Jamal Malik, o protagonista, é um pé-rapado. A uma pergunta de se tornar um multi-milionário, o rapaz é acusado de fraude. Afinal, como pode um garoto que mal sabe ler responder com precisão perguntas de conhecimentos gerais? Através da investigação, vamos conhecendo a vida de Jamal e descobrindo como as ruelas de uma favela de Mumbay (que sim, lembram muito aquelas pelas quais correram Buscapé e Zé Pequeno em Cidade de Deus) podem ensinar tanto quanto um livro caro.

Quanto ao filme em si, não é muito diferente. “Milionário” é um azarão. Danny Boyle vem de uma tradição de obras extremamente autorais, como Trainspotting. Mesmo no sucesso nerd “Extermínio” (com ecos em Resident Evil) o diretor manteve seu estilão pop que às vezes lembra Tarantino, às vezes lembra os Irmãos Cohen (vencedores do Oscar de melhor filme por “Onde os fracos não tem vez”, no ano passado), mas permanece único nas cores, nos cortes ágeis e na montagem videoclíptica. Isso tudo não mudou muito em “Milionário”. Mas há novidades. O filme, mais do que qualquer outro de Boyle, é um “filme de Oscar”. Cenas de tensão são feitas com jamalmontagem paralela, há uma decupagem que, se não é clássica, lembra bastante a dos filmes que emplacaram estatuetas nos últimos anos (mais notadamente Crash, em 2007). Além disso, todos aqueles elementos de um roteiro clássico estão lá: protagonista e antagonista bem definidos, uma mocinha virtuosa, um herói que se se redime pelo sofrimento. “Milionário” não traz grandes proezas artísticas ou contribuições estonteantes para o cinema enquanto arte.

Por que então, continua como meu favorito ao grande prêmio do dia 22? Porque, mesmo assim, “Milionário” não consegue ser “bonitinho” o bastante para a academia. Como Jamal, vestido humildemente diante de um apresentador de terno caro e brinco de brilhantes, o filme parece não pertencer ao conjunto que traz companheiros literalmente fabulosos (como “O curioso caso de Bejamin Button”), políticos (“Frost/Nixon”), biográficos (“Milk”). Nem “vestido de conto de fadas”, “Milionário” engana. Será sempre um Slumdog (algo como pé-rapado, em inglês). Ainda tem orçamento pequeno perto dos outros. Ainda tem um elenco composto por indianos, recrutados em Bollywood. A fotografia estoura, amarela, azula. “Milionário” tenta se comportar, mas se excede. O Slumdog, por mais que tente, não consegue se portar como um milionaire. E lá está ele, na festa mais luxuosa do cinema mundial. Veio respondendo pergunta por pergunta até aqui e agora nada parece capaz de pará-lo. Como bom conspirador do cinema autoral e artístico, torço pra que, na noite do dia 22, quando estiver diante do desafio derradeiro, descubramos que o mundo daqui de fora tem muito a ensinar ao academicismo americano. Como meu avô já dizia há muito tempo…

slumdog-millionaire-0901“Jai ho” diz a música-tema. Do hindi, “que a vitória esteja com você”

Assista ao trailer de “Quem quer ser um milionário”

Aliás, tem uma dica pros cinéfilos: quem mora no Rio já tem uma nova opção pra ver coisa  boa e ainda participar de discussões super legais. O Cine Adpat é um cineclube mensal dedicado a exibição de audiovisuais que sejam adaptações literárias e/ou teatrais (como é o caso de “Quem quer ser um milionário”, adaptado do romance de Vikas Swarup). O espaço é super legal e fica no Leblon. Tem todas as informações no site do cineclube. Bora lá?

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